semtelhas @ 13:13

Sex, 14/11/14

 

O iniciar uma viagem muitas vezes significa um recomeço, o corte com a rotina, o ato físico de abandonar as pessoas e/ou os locais habituais, a mudança mental, efeito de catárse frequentemente sentido desde o momento que se tomou a decisão de viajar, e que encerra em si uma renovada esperança no futuro, mesmo se inconsciente. Acontece porém que para que resulte, com o passar dos anos e a crescente maturidade, é cada vez menos dispensável que a deslocação a empreender constítua, de facto, uma novidade. Por outro lado torna-se óbvia a semelhança entre todos e a interminável repetição das situações e circunstâncias, sempre frutos de iguais, ou muito parecidas relações causa/efeito, uma dialética comum a conduzir a sínteses similares. Depois acresce também as sistemáticamente aumentadas complicações legais, o terrorismo disso se tem encarregado, que transformam qualquer deslocação num inferno chamado segurança. Finalmente, mas não menos importante, desde há duas ou três décadas o incremento do turismo, muito graças à maior e mais baratas maneiras de ir de um lugar para outro, é verdadeiramente brutal, sendo hoje para muitos países a principal indústria e consequente primordial fonte de receitas. Mas também há custos, e são elevados. Para além dos evidentes prejuízos ambientais, sendo uma indústria significa a procura da rentibilização pela quantidade, perdem-se nesse processo grande parte daquilo que eram os prazeres de viajar. Hoje, para ir a qualquer lado, até ao mais remoto, é preciso enfrentar hordas de gente, organizadas seguindo uma lógica de rebanho, e quase sempre como sardinha em lata, o que acaba por destruir o essencial, o enorme gozo de fruir livremente, no sentido mais lato do termo, a verdadeira razão para estar ali, enfrentar o desconhecido descobrindo coisas novas.

Por tudo isto, mesmo prescindindo do tal corte físico com tudo o que isso implica, resta a possibilidade da profunda mudança mental, que pode resultar da evasão através da viagem ao longo de uma pintura, uma música, um filme, mas sobretudo pela leitura. Independentemente dos enredos própriamente ditos, alguns livros proporcionam autênticas viagens, e nada turísticas porque tantas vezes levam-nos ao âmago dos lugares e das pessoas que descrevem, por quase sempre testemunharem experiências de quem por esses sítios viveu intensamente. São os casos de Miramar, de Naguib Mahfuz, ou de Quando a Neve Começa a Derreter, de A D Miller. O primeiro conta as venturas e desventuras de uma jovem mulher que decide abandonar a sua aldeia na província, enfrentando a superconservadora sociedade egípcia, luta consubstâncida pelo confronto com uma série de personagens todos muito diferentes entre si e residentes numa mesma pensão em Alexandria. Surpreendente e maravilhosa a forma como o autor, em pouco mais de duzentas páginas, faz os leitores deambular por aquelas ruas, pelo meio daquela gente, para, no fim, ficarem com a nítida sensação de todos, lugares e pessoas, conhecerem perfeitamente. O segundo transporta-nos a Moscovo da década de noventa, o despertar e explodir para o capitalismo, a fase lua de mel, com todas as suas conhecidas virtudes e defeitos mas em estado puro, em carne viva. Ancorado na experiência de um advogado inglês ali presente, como tantos outros na senda da riqueza fácil, um El Dorado que todos tinham consciência de ter curto prazo de validade. Por isso a corrida contra o tempo, o vale tudo numa cidade e sociedade fantásticamente descritas, resultando, à semelhança do caso de Alexandria, uma espécie de conhecimento de certa forma profundo acerca de Moscovo e dos russos desses ainda tão recentes tempos.

 

 

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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