semtelhas @ 13:41

Qua, 17/12/14

 

Até lá chegar, depois do bombardeamento cerrado durante semanas por uma publicidade impiedosa, sempre percorrendo estradas largas e muitas vezes mesmo a estrear, a ansiedade vai crescendo, súbitamente vê-se um enorme mastro que em vez de ter uma bandeira desfraldrada ao vento, mostra um majestoso logotipo da marca. Seguimo-lo como os reis magos seguiram a estrela... instala-se um reverencial silêncio, e eis que surge em toda a sua imponência uma dos mais célebres catedrais do consumo dos nossos tempos, atualmente na China abrem à razão de uma por semana!!!, e as bichas formam-se ao longo de quilómetros! Realizou-se a profecia, não admiramos o menino mas somos "bois a olhar para um palácio". A entrada intimida, curioso como parecendo fazer do potencial cliente uma espécie de "todopoderoso" o fazem sentir tão pequenino. Isto de assustar pela opulência e esperar obediência cega continua a resultar em pleno. É tudo enorme mas por onde se entra? Lá está uma singela escada rolante e uma envergonhada placa a indicar na entrada que interesssa, a verdadeira razão de ser do monstro, o resto é só para enfeitar. Inocentemente deixámo-nos fazer subir e, de repente o paraíso! "Zona de Exposição", aparece escrito por todo o lado, e de facto sucedem-se espaços perfeitamente delimitados que mostram tudo e mais alguma coisa. Tudo começa por quartos de dormir completos, inúmeros e para os mais variados gostos, seguem-se as cozinhas, nunca pensei existirem tantas e tão diferentes, as salas... Com a sensação que aquilo ía continuar para sempre, abordei uma funcionária para lhe perguntar onde podia encontrar o que pretendia e as caixas. Fita-me estupefacta, quase ofendida, e vocifera a sua indignação como quem pergunta ser possível não ver o óbvio, aqui é só exposição, o que pretende está ao fundo. Chega outra que perante o meu espanto e prestes a "disparar", esclarece apaziguadora, julgo até ter percebido algum dó face a tanta candura e disse, vai ter que dar a volta a tudo isto, fez um gesto largo com o braço, e só depois encontra o que quer. Percebi que algo de errado se passava e, só então reparei numas setas pretas bem visíveis no pavimento, que não só era suposto terem-me "batido nas trombas" desde o primeiro momento, como sobretudo seguir alegremente a direção que indicavam. O que se passou depois foram largas centenas de metros com o "focinho" no chão, pura e simplesmente me recusava a ver fosse o que fosse, para finalmente descobrir o que queria.

Quase feliz e com renovada confiança no futuro, decido por uma das hipóteses e após algum tempo de procura aparece uma funcionária, tal como todas as outras rigorosamente equipada, sente-se que aqui vestem mesmo a camisola, literal e metafóricamente, começo a entender a indignação da primeira que tivera de me aturar e quase lhe perdoo. Menina diga-me por favor onde posso pagar isto, pergunto-lhe já com a coisa debaixo do braço, escandalizada arranca-ma dos braços e num pânico controlado, devem ensinar-lhes a enfrentar estas situações de risco como se de bombeiros a prepararem-se para combater furiosos incêndios se tratasse, e volta a colocá-la no sítio e, condescendente, tê-la-íam avisado pelo walkietalkie da presença no edifício de um homem do neardental?, informa, agora o senhor tem que ver aqui, aponta para umas instruções inscritas acima da coisa, o local onde deve ir buscá-la, lá em baixo no armazém. Como estava no final da área de exposição a descida para o local onde era suposto finalmente pegar no material era logo ali. Respirei fundo e cheguei a pensar, que organização magnífica!, enxotando de imediato a ideia que suspeitava perigosa heresia. Tinha razão porque quando chego lá, durante para aí dez minutos e com as pernas a darem mostras da vontade de desistir, da coisa nem sinal! Temeroso, já à espera do pior, arrisco nova investida sobre um fiel elo daquela engenhosíssima corrente, desta vez do sexo masculino. Sente pelo fio de voz, e uma linguagem corporal de quem já admitiu a derrota, que me deve poupar a mais truques e quase me sussura, contrito, o senhor ainda está na parte dos acompanhamentos, não é este o termo técnico, este é mais adequado à restauração mas serve, referia-se a milhões de bibelots e afins, porque digamos que o mais estrutural e de que fazia parte a coisa, repousava obedientemente no armazém. Antes de terminar a informação fez uma  pausa para me observar bem e glosar o seu efeito devastador, encontra a entrada para o armazém lá ao fundo. Jurando a todos os deuses e respetivos santos, os que conheço mais os outros todos, que jamais voltaria a pôr ali os côtos, e não exagero, era sobre os meus côtos de carneiro que caminhava, depois de percorridos mais uma infinidade de corredores, acabei por encontrar o desejado armazém, e seguindo as instruções que há uma eternidade me tinha dada goradas esperanças de uma fuga rápida, calcorreei a passo acelerado, cabeça no ar dando mostras do desespero dos moribundos que atirava para longe os funestos fardados, lá estava a coisa, outra vez ao fundo das instalações imensas, terá sido azar meu ou isto de tudo estar ao fundo faz parte da provação?, inocente e arrumadinha, a aguardar pela salvação. Fui recompensado pela presença das caixas logo ali e, pasme-se, após poucos metros lobriguei a minha humilde viatura, claramente envergonhada e solitária entre tantas máquinas. Um milagre pensei, afinal isto de arrebanhar acaba por dar as suas compensações, é como nas religiões, a redenção chega no fim, tem é que se percorrer a via a sacra, aqui as diabólicas exposições, e pagar os respetivos pecados, neste caso não resistindo à tentação da compra. É preferível tresmalhar e ir para o inferno!


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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