semtelhas @ 12:38

Qua, 18/06/14

 

Vi-o hoje, na rua. Seguia apressado mas com o mesmo ar bem disposto de sempre. Aí pelos cinco/seis anos, naquela fase corpulenta e plena de energia que assustava um bocado os transeuntes levando-os a afastar-se quando ele se aproximava para os cumprimentar alegremente. Não o conhecem!

 

Íamos mudar de casa, de um apartamento para uma pequena moradia de quatro frentes, uma casa antiga toda em pedra e com um espaço exterior com uns bons 200m2 bem preenchido com árvores de vários frutos. Cercados por campos de cultivo precisavamos de um cão para guardar aquilo, para, no mínimo, fazer barulho quando pressentisse algo estranho.

 

Logo que entramos no canil ficamos de olho num caõzito que dava a ideia de ser uma espécie de fox terrier ainda pequeno, pelo que a funcionária que nos acompanhava ao longo do caminho nas margens do qual se situavam os compartimentos com os cães, pegou nele e dirigimo-nos para o escritório afim de proceder às formalidades necessárias. Os três ao balcão, eu a minha mulher e o meu filho, já não me lembro quem segurava no cãozito, quando entra alguém a entregar mais um futuro inquilino. Mal o pousa no tal balcão, mesmo ao nosso lado, o bicho nunca mais tirou os olhos de nós! E como ele olhava! Tratava-se obviamente de um rafeiro raçado de pastor alemão, com algumas semanas mas cujas enormes patas, em proporção ao resto do corpo, não enganavam. Cabeça abandonada em cima de uma delas suplicava com os olhos que o salvássemos, até que um de nós, praticamente sem trocarmos qualquer palavra mas já completamente hipnotizados, rendidos, sugeriu, e se levássemos antes este?

 

Durante toda a viagem de carro até casa, no decurso da qual concordamos chamar-lhe Patas atendendo ao que as que tinha préanunciavam, todo o resto haveria de crescer à volta delas!, manteve aquela postura expectante de quem pede alguma coisa que aguarda a qualquer momento conseguir, mas bastou pô-lo no chão daquilo que haveria de ser o nosso quintal e jardim, para que uma autêntica metaformose se desse no bicho e ele desatasse a correr por ali acima para logo voltar pedindo festas, linguita pendurada, assim umas quantas vezes até à primeira exaustão e pucaro de água lá em casa. Construí-lhe uma casota em madeira, com um sólido estrado, e colocamo-la bem no fundo terreno, a zona mais vulnerável, mas como ele não estava de acordo passava o tempo todo junto à casa, tornando-se absolutamente impossível convencê-lo do contrário, vinte vezes o metíamos na casota ou imediações, vinte vezes ele voltava, cada vez mais cabisbaixo, é certo, mas voltava!

 

Sofreu na pele, literalmente, os custos da nossa inexperiência, asneira a sério só me lembro de quando, ainda pequenito, destruiu para aí metade das dezasseis buganvílias que pouco antes havíamos plantado... mas, apesar dos erros que cometemos, nunca mostrou a mais pequena intenção de se tornar agressivo, bem pelo contrário!, para nós e para quem sentia ser dos nossos, foi sempre um cão de uma docilidade incrível. Nessa casa, e depois na outra para onde mudámos, proporcionou-nos um prazer sem limites com a sua inesgotável energia para brincar, como por exemplo correndo desalmadamente atrás de mim depois de me oferecer a sua orelha para que eu lha mordesse, numa entre nós habitual troca de papeis, adorava o cheiro que emanava daquela zona da cabeça, ou dando enormes saltos como que parando no ar, fazendo verdadeiros voos para aterrar atabalhoadamente sobre um de nós...Mas também cumpria a sua função de alertar caso ouvisse algo de anormal, um pequeno barulho bastava para não parar de ladrar furiosamente até perceber do que se tratava.

 

O meu pai, muitas vezes estava lá por casa a tratar do quintal, dizia que ele me pressentia cinco minutos antes de chegar de carro, que ficava intranquilo e se postava junto à porta por onde eu haveria de entrar. Durou dezasseis anos durante os quais só saía para a aventura da vacina anual, todo um automóvel afogado em baba!, tomava, tomávamos!, três enormes banhos anuais, sempre comeu imenso mas nunca foi gordo porque raramente estava parado, e só ficou doente nos últimos dois anos de vida quando foi traído pelas pernas traseiras que deixaram de suportar o seu peso. Andei com ele ao colo para trás e para a frente até ao dia em que reparei que tendo um dos caninos a atravessar e bochecha nem o mais leve lamento se lhe ouvia. Autómato, movido por uma estranha força que desconhecia em mim, fui buscar uma passadeira velha onde ele costumava agora deitar-se, para onde eu o levava ao colo, ao fundo do jardim debaixo da árvore maior, e bastaram alguns segundos para lhe dar o golpe de misericórdia. Enterrei-o com terra e lágrimas.

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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