semtelhas @ 12:19

Qua, 06/05/15

 

Há um livro intitulado "A Mulher da Areia", uma metáfora fantástica sobre o sufoco que pode significar a vida, assim como uma miríade de autores que recorrem à paisagem do deserto para exporem as suas maiores angustias, ou exultarem sobre as virtudes da existência.

 

Mas não é para falar desse tipo de filósofos que escrevo, apesar de acreditar que a massiva presença da tão afamada substância, grandes espaços livres e refletores da luz redentora, motivo para os maiores sonhos ou ainda mais devastadores pesadelos, também neles possa contribuir para um estado mais ou menos exaltado que os transporte às suas próprias profundezas. 

 

Quer chova ou faça sol, corra uma suave brisa ou sejamos fustigados por furiosa ventania, lá estão os trabalhadores da Câmara Municipal a desempedir da inconveniente areia o passadiço, por onde diáriamente circulam junto ao mar dezenas, ou mesmo centenas, depende da intempérie. Arregimentados pelo Estado ao vastos exércitos de desempregados para alinharem nas cada vez menos correspondentes fileiras dos subsídiodependentes, assim cumprem uma espécie de serviço cívico no qual o facto de simplesmente estarem ocupados, ou talvez mais importante, não encararem a passagem do tempo como algo parecido com uma incógnita, não é de somenos importância. 

 

Hoje devidamente fardados, o que lhes confere uma certa dignidade via sensação de pertence ao Grupo, vão desenvolvendo a sua atividade de uma forma, digamos, livre, o que só vem confirmar, e bem, a tal vertente eventualmente essencial da questão ocupacional. Observando-os, a eles, a maioria, e a elas, podemos encontrar os mais variados estilos, tal como em qualquer outra atividade, mas, curiosamente, neste caso não são raros os exemplos de gente que manifesta uma estaleca acima da média. Essas sensações chegam por via de um olhar mais atento aos seus rostos, da profusão de piercings ou tatuagens mais improváveis em pessoas claramente de meia idade, também numa rápida descodificação na forma como encaram quem passa, mas sobretudo no desempenho do seu trabalho.

 

Seguramente 80% do tempo passam-no em amena cavaqueira com o companheiro ou companheira, normalmente funcionam aos pares, restando os restante 20% para, fazendo uso de um zelo admirável consubstânciado numa lentidão quase científica, efetivamente limparem as traves da madeira da arreliadora areia, alguns mesmo com laivos de artistas tal é o resultado geométrico da obra, infelizmento logo, quase invariávelmente, destruído, mas imediatamente corajosamente retomado. Isto tudo nunca descurando o importantissímo cliente, é assim que me sinto quando face à minha aproximação da zona dos trabalhos, o mais atento ordena firme e bem audível a interrupção imediata dos mesmos para que eu, bem como todos os outros, inchados por tanta deferência, passemos impantes, circunstância que acontece constantemente. Não menos notável é a magnífica postura que adotam durante os longos e imagino que socráticos diálogos, direitos, olhos nos olhos, uma mão sábia e tranquilamente pousada na outra, e ambas sobre a pega da pá que descansa apoiada verticalmente sobre uma trave de madeira, por vezes com uma perna elegantemente cruzada,  enfim, dignos da beleza plástica do metálico Pensador de Rodin!

 

Um destes dias, depois de várias semanas de aturada limpeza que quase conduziu à total ausência de areia, chegou uma tempestade que, numa noite, a repôs em todo o percurso chegando em alguns sítios a meio metro de altura, desabafei solidário junto de um dos trabalhadores mais antigos e do qual sempre recebo, e devolvo, uma cordial saudação, "tanto trabalho para nada!", ao qual respondeu exibindo eloquente indiferença onde eu esperava desalento, "o turno da noite trabalhou ainda melhor". Se isto não é filosofia...


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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