semtelhas @ 13:14

Qua, 18/03/15

 

Os oito anos que passei na companhia de Rute até ao desaparecimento de Emília pareceram-me os melhores da minha vida, apesar das circunstâncias não terem sido fáceis. A doença avançava inexorávelmente e minava a existência da idosa senhora e de quem a acompanhava sem piedade. Os primeiros anos ainda decorreram numa espécie de normalidade fingida mas depois, quase até ao final, o último foi já em estado pouco menos que vegetativo, foram verdadeiramente duros especialmente para Rute, que sempre negou a possibilidade de internar a mãe mesmo quando esta a insultava do pior e até tentava agredi-la como se, o que para ela era uma realidade, de uma perigosa desconhecida se tratasse. Nesses momentos pude descobrir todo o seu valor, a para mim inacreditável maneira como aceitava essas situações e as ultrapassava, em nome da inalianável obrigação de apoiar a mãe até ao limite das suas forças. Foram raras as ocasiões em que a vi verter uma lágrima e socorrer-se do meu amparo, mas sabia da enorme importância e significado da minha presença ali. 

Uns dias após o enterro de Luísa propôs-me um lugar como supervisor dos vendedores que tinha na agência imobiliária que declinei, aceitando contudo um de vendedor se se mantivesse a oferta de trabalho. Percebi que gostou da minha opção. Também me abriu as portas de sua casa, podia até mudar-me se assim o desejasse, o que fiz parcialmente, mantendo assim em aberto a possibilidade de um qualquer recuo fosse de quem fosse. Na verdade até ao dia da morte de Emília passei muito mais dias lá que na minha própria casa, uma vivência realmente feliz ao longo do tempo suficiente para entre nós ter crescido um entendimento só possível entre pessoas que se conhecem e amam profundamente. Devido ao problema da mãe nunca fomos a lado nenhum, uma vida feita de um trabalho não demasiado exigente, e muito especialmente das inúmeras caminhadas em conjunto na praia ali tão perto, muita leitura, e de rápidas fugas à cidade para uma refeição diferente, um espetáculo, ou uma visita a esta ou aquela exposição, recorrendo nessas alturas a acompanhantes profissionais contratadas à hora para ficarem com a doente.

Foi quando as crises de Emília se tornaram mais dolorosas e frequentes que fruto de uma mobilização quase militar de Rute, de nada valendo a minha insistência para que a entregasse nas mãos de cuidadores experientes, mesmo sem sair de casa, que a nossa relação sofreu uma alteração sem retorno. Não que os sentimentos mútuos se tenham alterado, mas aquela sua obstinação por aquilo que eu considerava ser uma causa perdida, e afinal de contas eu estava ali apesar de por vezes ela parecer esquecê-lo,!, e sobretudo quando lho disse com toda a crueza num momento de desespero, muito mais pelo que assistia a acontecer com ela, um enorme sofrimento, do que comigo próprio, acabou por colocar entre nós uma barreira invisível que nos impedia de comunicar como sempre fizeramos. A partir de então, numa aparente contradição, quanto mais ela precisava menos a mim recorria, acabando por chamar quem a ajudasse mas práticamente não abdicando de dirigir as operações, pouco tempo sobrando para o resto. Comecei a ir dormir mais vezes ao meu apartamento e, lentamente, a reconstruir uma existência solitária que pensava ter deixado definitivamente para trás.

Não foi por isso de estranhar que após o desaparecimento da mãe Rute me tenha anunciado a intenção de vender a agência, que eu já havia abandonado em tempos, e ir, como disse, "passar uns tempos com uns familiares que o meu pai deixou em Angola", outra mulher e filhos, seus irmãos? nunca me falara deles. Quando nos despedimos, ela já perto dos cinquenta, apesar de ter envelhecido considerávelmente na última década mantinha um aspeto bastante atraente, e eu ultrapassados os sessenta e cinco, deixamos tudo em aberto, e não foi necessário verbalizá-lo, foi inerente à sua postura como a de quem sabia não se ter portado muito bem mas as coisas não tinham que acabar ali, e á minha a de alguém que não obstante tranquilamente resignado transpirava orfandade. Agora, decorridos três anos, na expectativa de um E-mail de Rute que não chega, cada vez são mais espaçados, muito provávelmente acha chegado o momento de, saudavelmente, como me parece escutá-la dizer, largar amarras, resolvi vender o meu apartamento e mudar-me para um lar de idosos com o auspicioso nome "Flor da Idade". Últimamente não me tenho sentido muito bem, curiosamente sentindo a cabeça invadida por aquele mesmo vazio depois de nela ter sido atingido naquela longínqua primeira noite à porta da casa de Rute, para além da solidão me começar a pesar de uma forma perto do insustentável. É no meu belo quarto com vistas para um frondoso jardim, que escrevo estas linhas num esforço razoávelmente bem sucedido de viver revivendo o passado. Há poucos meses fui surpreendido pela visita de João, não sei como me encontrou, talvez o brasileiro do café do meu antigo prédio, a quem transmiti para onde me ía mudar, que se fazia acompanhar da bonita Amina. Foi um momento de rara felicidade apesar de por ele saber o meu amigo Eurico ter sido vítima de um AVC e estar parcialmente paralisado. É que João estava completamente livre de drogas, e, com Amina mais um filho que entretanto nascera, tinham um desses estabelecimentos que agora existem, misto de café, pequeno restaurante e livraria, numa zona boa da cidade e com sucesso assinalável, pelos vistos, o que eu desconhecia, a família de Amina tinha algumas posses e de tão feliz nas opções de vida dela resolvera ajudar. Também me disse que os pais de Luísa continuam a definhar na mercearia, tão decrépita quanto eles, "parecem saídos de um daqueles contos de avarentos do Dickens", disse-me a rir.

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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