semtelhas @ 11:25

Sab, 14/06/14

 

Parecia ele, mas para ter a certeza olhei para trás. Sentindo o meu movimento e apesar dos para aí dez metros que nos separavam, levantou a cabeça para me olhar por cima dos óculos de ler, era mesmo! Ali estava o Gomes, o bibota, sentado no bar da praia sobre a areia, julgo que em frente a sua casa junta à estrada. Fiz-lhe o agora global e facebookiano "gosto" com o polegar bem esticado, ao qual respondeu com um quase impercetível sorriso e ligeiro abanar da cabeça, afinal vedeta é vedeta. Hesitei. O que é que eu queria? Que ele se pusesse a fazer flicflacs à retaguarda só porque um desconhecido resolveu interromper-lhe a leitura do jornal? Continuei mais alguns metros com a pergunta que insistia em não me largar, és um homem ou um rato? O máximo que pode acontecer é mandar-te dar uma volta. E depois? Metes o rabinho entre as pernas e foi como se nada tivesse acontecido. Ninguém viu! Como dizia a tua mãe quando pequenito te estatelavas no chão, "por ir a olhar para ontem", vociferava o teu pai.

 

Posso fazer-lhe companhia por alguns minutos? Aquilo tem quinze ou vinte mesas e as respetivas quatro cadeiras, todas livres... Espiou-me tentando perceber que tipo de cromo lhe tinha saído em sorte desta vez, e disse na sua tonitruante voz que tantas vezes fora música para os meus ouvidos, faça o favor. Sentei-me na cadeira que ficava de frente para ele, pedi um café áquele mesmo indíviduo que diasim dianão, vejo por ali a tratar cuidadosamente do seu estabelecimento, e "abri as hostilidades". Ainda ontem estava a ver aquela loucura toda à volta do Ronaldo lá no Brasil, e me questionava como é que uma pessoa lidará com semelhante tipo de assédio. À noite, na cama, quando fica sózinho no escuro com as memórias do dia pensará, meu Deus eu sou mesmo o maior!? E se sim que tipo de infuência estes pensamentos terão no seu comportamento público e especialmente no privado? Em que género de pessoa se torna alguém sujeito a tão avassalador fenómeno? Desatei a falar sem pedir licença, mas ele dobrou o jornal e ouvia parecia-me que atentamente. E agora estou a passar por aqui como tantas outras vezes e lá estava o senhor, neste ponto levantou um pouco a mão que repousava sobre a mesa e proferiu magnânimo, Fernando, sorri, e aqui está o Fernando, o Gomes! Não imagina a admiração que tenho por si! A quantidade de vezes que me fez saltar de alegria nas bancadas do estádio das Antas! Muito apreciava a maneira como protegia a bola de costas para a baliza, a passava redonda para a ir receber já de frente para ela e fazer o golo! E como me emocionei quando foi lá a jogar pelo Sporting e os sócios lhe ofereceram um ramo de flores enorme! Foi impressão minha ou não jogou nada nesse desafio? E deixe-me dar-lhe os parabéns pela forma que mantém. Vi-o um destes dias, no Portocanal, a jogar no Dragão Caixa contra o Celta para a Fertibéria. Falava torrencialmente ainda um pouco emocionado pelo inédito da situação mas, aos poucos, pressentindo que também ele parecia aceitar mais ou menos resignadamente "a coisa", fui ganhando coragem e, resistindo à tentação de lhe fazer as mais óbvias perguntas sobre o futuro imediato do FCP, atualmente é figura de algum relevo na estrutura do clube, estará portanto por dentro desses assuntos, atirei, mas se me permite há algo que sempre quis saber, e já que estou aqui...o que queria dizer com aquela afirmação que marcar um golo é semelhante a atingir um orgasmo? Claro que percebo a interpretação mais direta, a consumação do ato, o climax... mas a questão é, quando os marcava por outra equipa que não o Porto eram iguais? Igualmente intensos? E após os marcar, aquela tranquilidade que vem depois, não afetava o seu empenho no jogo? E alguma vez pensou que a maior parte dos seus colegas nunca sentia tão grande prazer? Só dois ou três é que marcam golos, quando é que os outros têm os seus orgasmos? Uma grande defesa também resultará? Fixando-me com uma expressão mais e mais perplexa, onde estava estampado o dealbar do pânico e ecoava a dúvida, será o homem "apanhado pelo clima"? Acabou por balbuciar algo atrapalhado e vísivelmente agastado, ó amigo eu só queria dizer que naquele momento ficava superfeliz! Fitei-o estupefacto e só então compreendi tudo, afinal estes homens e mulheres são como todos nós, a sua humanidade, as sua limitações, serão reveladas em função do desafio que enfrentarem. Forçar este magnífico atleta a dissertar sobre "A Função Do Orgasmo" de Wilhelm Reich, ainda que inocentemente, é desvendar algumas das suas fragilidades e expô-lo à sua condição de pessoa comum. Mas tinha valido a pena. Tal como o Fernando que tão brilhantemente o fazia, também eu conseguira usar a cabeça e, à minha maneira, marcado um belo golo. Agradeci aquele bocadinho e pedi-lhe um autógrafo para a posteridade. Enquanto me perscrutava ainda um tanto ressentido por o ter obrigado a sair do seu "boneco" de vedeta retirada, agora atrás de uns óculos de sol onde entretanto se escondera, pedi ao empregado/dono uma esferográfica emprestada. Vendo-me com um guardanapo na mão, suporte manifestamente inadequado para tão importante documento, cedeu-me uma alva e sólida folha de papel branca para o efeito. Sem palavras desenhou um elegante e personalizado rabisco que preencheu quase totalmente o meio A4, e me encheu de orgulho. Cumprimentei-o sinceramente feliz e obtive como prémio a absolvição e um sorriso condescendente. Levantei-me e deixei o meu heroi em paz.

 


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