semtelhas @ 14:49

Qua, 29/01/14

 

Só se a intempérie não o permite, especialmente se chove, porque do frio e do calor não tem medo. Normalmente está sózinho mas por vezes um ou dois amigos acompanham-no sentados, a ver os carros passar, no murito que separa o passeio do areal, uma faixa em certas zonas com mais de cem metros até ao mar, que constitui uma espécie de reserva natural de plantas próprias dali, aspeto algo puroso, cheias de espinhos, muito coloridas e de odor forte quando molhadas, bem como de um já apreciável numero de diversos tipos de aves, além de todo um restante universo de bicharada que por ali anda, mas só se vê olhando atentamente como ainda há uns dias vi um casal que até os fotografou.

 

Tê-lo-ei visto de frente duas ou três vezes, as únicas em que trocámos olhares mas sem nos cumprimentár-mos, mas suficientes para perceber que é um homem alto, aconteceram sempre quando ainda não se sentara, a chegar ou a ir embora, a pele da cara extremamente curtida pelo sol, escura e plena de rugas, a lembrar o rosto de um pescador que pode muito bem ter sido até pelo tipo de vestuário, simples e eficaz. Quando na companhia dos outros dois parece-me ser ele o centro das atenções, o que fala mais, e fá-lo com alguma veemência, o que contrasta com a sua habitual postura quando sózinho, curvado, olhos no chão, uma das mãos no muro e a outra, braço esticado, segurando uma bengala.

 

Foi essa bengala, na verdade uma cana com a grossura certa cujo último nó forma um punho tal e qual uma verdadeira bengala, que, na volta, já depois de com ele me ter cruzado uma hora antes, vi abandonada relativamento perto de onde caminhava, no declive de terra que delimita de ambos os lados, uma ribeira que passa exatamente na direção onde o velho costuma estar sentado, logo três metros atrás é possível ver a água a correr para o mar, no verão um fiozito lá ao fundo, quatro, cinco metros?, por estes dias um autêntico rio em fúria com uma dezena de metros de largura, e a não mais de dois do alcance de quem se debruce na pequena ponte.

 

Surpreendido, sempre o vira com aquela bengala, procurei com os olhos nas imediações, recentemente limpas, os maiores arbustos que ali crescem fortes e com fartura cortados para deixarem que a água passe, evitando assim inundações a montante como aconteceram no último temporal, e não vi nada. Cruzei o ribeiro pensando, encheu-se da cana e vai arranjar uma bengala a sério, quando, do outro lado e no meu horizonte visual o ribeiro já em pleno areal a escassos metros do mar, reparo, em parte preso, em parte a boiar, naquilo que me pareceu ser um casaco de tecido aos quadrados...nas mesmas cores do que o velhote usa!

 

Só precisei de dar uma corrida até lá e, como estava junto à margem de areia, felizmente tinha sido arrastado para o outro lado, onde eu me encontrava, numa zona sem declive onde o curso de água se alargava e corria bem mais devagar, consegui puxá-lo e estendê-lo num sítio seco. Não tenho a mais pequena noção, para além da que todos vêmos nos filmes, de primeiros socorros, temendo complicar ainda mais a situação dele, virei-me para o lado da estrada a gesticular frenéticamente até que alguém viesse ajudar. Só parei quando um jovem com ar de atleta se aproximou e, só então reparei, já ele estava sentado mas a respirar com dificuldade.

 

Quando ficámos os dois, ambos sentados ainda no mesmo lugar, ele milagrosamente sem um arranhão e a respirar quase normalmente, e eu a tentar recuperar o habitual rítmo cardíaco, depois de agradecer-mos ao rapaz ao qual ele garantiu estar bem, disse-me, não sei o que me deu, deve ter sido uma tontura provocada pelo movimento da água. Até podia ser, mas então como é que a cana/bengala tinha ido parar lá acima, tão perto do passadiço? Não lhe respondi mas a minha expressão foi suficientemente eloquente para o ter obrigado e explicar-se, sabe, no fundo é o que todos querem, até eu, é a melhor solução. Só ando aqui a dar trabalho e, desconfio, se as coisas continuarem assim, também vou passar a dar despesa, e isso não! 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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