semtelhas @ 13:30

Seg, 21/04/14

 

No caso da literatura a questão é explicável pelo fenómeno conhecido como de grande leitor, isto é, ao fim de tanto ler, entre vinte a vinte e cinco livros por ano segundo rezam as estatísticas, adquire-se esse estatuto, valha isso o que valer, e, para além de se poder arriscar escrever umas quantas linhas sem causar grandes embaraços graças à aprendizagem adquirida, e, caso não haja uma alma própria, ainda que difícilmente se possa dizer seja o que fôr de realmente novo, ganha-se a capacidade de distinguir rápidamente, por vezes às primeiras linhas, se uma obra é absolutamente honesta, se está recorrer a truques de vária ordem, ou simplesmente não presta.

 

Mesmo quando se trata de histórias relatadas por fantásticos artífices das palavras, lembro-me de John Updike ou John Le Carré por exemplo, nâo se consegue escapar a uma certa sensação de que nos estão, ainda que com grande arte e engenho, a pôr uma cenoura à frente do nariz. Não é que as motivações destes escritores sejam exclusivamente mercantilistas, longe disso, nalguns casos trata-se mesmo de uma natureza que os impele para uma escrita torrencial o que, só por si, não lhes garante o título de grandes artistas, origem de obras-primas, as quais são raras precisamente porque viscerais, quase frutos da dor ou do prazer intensos, mas sempre estritamente fontes da verdade intrínseca de quem as produz.

 

Serve este racíocínio para qualquer expressão artística, talvez mais fácil de perceção na música, quem não deteta à primeira a repetição constante de acordes básicos? Também no cinema como ainda agora pude constatar assistindo ao filme Jovem e Bela.

Quando uma jovem e bela adolescente se apercebe da rotina e da hipocrisia que a rodeia, na qual os familiares mais chegados não só participam como são delas paradigma, obedecendo a uma natureza que em nada responde a qualquer tipo de carater vicioso, bem pelo contrário como é visível na relação pura e ingénua que mantém com o irmão mais novo, resolve agir por conta própria, responder positivamente a um impulso verdadeiro, o que é isso? Quando de uma forma absolutamente intelectualmente honesta, usufrui do prazer físico e do jogo, do inesperado da novidade constante que constituem o antes e depois, de que precisa vendendo o corpo em troca de dinheiro  e sentimentos autênticos, enquanto assiste à traição a que a mãe está a sujeitar o seu companheiro enganando-o com um amigo comum, qual delas é que se está a prostituir? Qual o preço da manutenção de uma vida frívola de sacrifícios e aparências? Algumas questões que ficam de uma obra bem exemplar desse tal rasto de que as coisas feitas, com a autênticidade nascida da alma, nos deixam.

 

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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