semtelhas @ 12:24

Sex, 26/06/15

 

Estava frio e enevoado, a ameaçar chuva puxada pelo forte vento. Quase em Julho a praia estava praticamente vazia. Havia aquele vulto com os joelhos na areia, perto do passadiço, debruçado sobre qualquer coisa que só percebi tratar-se de um papagaio quando me encontrava perto dele. Levantou-se, ainda completamente concentrado na sua tarefa, não deu por mim, esticou o braço e então pude ver o artefacto azul e verde, naquela forma habitual, espécie de escudo em losango, aparentemente feito de materiais reciclados, sacos de plástico usados e canas apanhadas mesmo ali ao lado? Tudo muito rudimentar inluindo o fio que me pareceu de corda, normalmente usada em embrulhos, emendado em vários sítios e certamente bastante comprido atendendo ao enorme rolo. Mas o que mais me atraiu no estranho quadro, e me levou a diminuir o ritmo da marcha, foi o aspeto do homem. Na casa dos quarenta, pele do rosto escura, fortemente tisnado pela excessiva exposição solar, barba negra e rala por fazer há vários dias, cabelo preto relativamente comprido e notóriamente oleoso, olhos semicerrados, nariz largo e um fio no sítio da boca. Um rosto que longe de velho parecia gritar desilusão e amargura, nas suas marcas de contrariedade e expressão fria, não obstante naquele momento nele ter estampada a obstinação do cumprir um objetivo.Vestia roupas muito gastas e sujas e nos pés usava umas sandálias velhas. Não escolheria figura mais improvável para lançar um papagaio, identifica-lo-ía muito mais fácilmente como uma daquelas pessoas completamente empedernidas por uma vida dura, mais dadas aos pragmatismos da sobrevivência a qualquer custo. Mas ali estava ele a dar longas corridas num enorme esforço contra o vento, tentando fazê-lo subir em direção ao céu cinzento. Afastei-me desejando que a enigmática e solitária criatura tivesse sucesso enquanto ía deitando umas olhadelas para trás, vendo-o cada vez mais exausto prosseguir a sua luta.

 

Terão passado uns vinte minutos quando, na volta, ainda longe, lá no alto, ora em curtos e lineares ou então mais longos e circundantes, mas sempre furiosos movimentos, reparo no papagaio azul esverdeado, agora muito mais pequeno mas estranhamente firme, se comparado com a fragilidade que aparentava quando o vi pousado no chão a poucos metros, feito em coisas que parecia irem desfazer-se ao primeiro embate. Pouco depois, imediatamente a seguir à curva onde tinha deixado de o ver para aí a cem metros, descubro-o. Estava sentado numa rocha equidistante entre o mar e o lugar onde fizera o "bicho", e à medida que dele me ía aproximando, mais constatava a enorme mudança que entretanto nele se verificara. Aproximo-me o que faz com que durante breves segundos desvie o olhar do sonho para a realidade sem contudo alterar a expressão. Um rosto que se mostrava tranquilo e confiante à frente do qual a outrora imunda agora transformada em farta cabeleira, dançava vigorosa e solta ao ritmo das rajadas, tal como os trapos até eles exibindo acertada complementaridade, sorriso nos lábios surpreendentemente vivos, olhos azuis muito claros e bem abertos fitavam satisfeitos e fixamente o objeto ainda há pouco feito com as suas próprias mãos, de um branco inesperadamente imaculado, que seguravam sem cedências aos fortes puxões, para os libertarem, "bicho" e homem, lá no alto onde moram as estrelas, o sol, o azul e os pássaros, com a sua larga e quase infinita visão, longos voos, planares deslizantes e suaves sobre um mundo que, aquela distância, é sempre belo e harmonioso, isento de dificuldades. O que eu observava agora era o menino que aquele homem fora, pleno de sonhos e esperança, ali e daquela maneira reencontrado numa efémera tentativa de recuperar o para sempre perdido. Para aquele homem, apesar de tudo, ainda há esperança.


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
procurar
 
comentários recentes
Pedro Proença como presidente da Liga de Clubes er...
Este mercado de transferências de futebol tem sido...
O Benfica está mesmo confiante! Ou isso ou o campe...
Goste-se ou não, Pinto da Costa é um nome que fica...
A relação entre Florentino Perez e Ronaldo já deve...
tmn - meo - PT"Os pôdres do Zé Zeinal"https://6haz...
A azia de Blatter deve ser mais que muita, ninguém...
experiências
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


mais sobre mim