semtelhas @ 15:58

Seg, 15/06/15

 

"Bolso", ainda consegui ouvir, mas já não deu para perceber as explicações que ele se esfalfava a debitar enquanto ela mantinha aquele ar ofendido. Mas outro desenlace não seria de esperar após aquelas palavras que espirítos mais persersos poderiam imaginar bem diferente. Ele, baixito, ainda mais atarracado devido às roupas manifestamente pequenas para albergarem consideraveis extensões de gordura, para além de desadequadas para passear num passadiço sobre a areia perto do mar, óculos de armação muito antiquada e portadora de espessas lentes, toda uma imagem de insegurança que ela, um pouco mais alta mas também mais gorda, ainda que menos notável dada a roupa larga mas igualmente errada para ali, claramente glosava, não obstante estar longe de ser uma brasa, mantendo assim um claro ascendente sobre o pobre homem. Toda uma vida feita de chantagens, plena de amuos e reconciliações sempre no mesmo sentido. Que engordem juntos muito felizes.

A situação trouxe-me à memória esta mesma expressão mas então utilizada por uma querida excolega, bastante simplória, onde a inteligência não abundava, que a utilizava profusamente sempre que tinha um namorado, um sem fim ou propósito de mores por tudo e por nada, se com ele falava ao telefone. Figura ternopatética, sobretudo o rosto no qual invariávelmente permanecia o esgar de uma espécie de sofrimento resignado, era no entanto possuidora de um belo corpo, magra, com tudo no sítio, razão pela qual, imagino, conseguia ir colecionando companheiros que, talvez cansados de tanta meiguice a cheirar a subserviência, e apesar do parco ordenado que sempre punha à disposição deles, insistiam em deixá-la ao fim de pouco tempo. Acredito que a insuperável burrice que tão ingenuamente ostentava também não ajudasse nada. A esse propósito, lembro-me de quando, logo nos primeiros tempos das máquinas para pagamentos com cartões, e numa ocasião que se fazia acompanhar com uma colega comum aquando de uma ida às compras a um centro comercial, após a menina do shoping lhe ter dito, "carrega três vezes e ok", a doce criatura, depois de zelosamente premir o dedo sobre as respetivas teclas, baixou-se de forma a ficar com a boca bem perto da máquina, e numa voz decidida, coisa muito rara nela, enquanto olhava para quem a rodeava como o fazem as crianças ao executarem pelas primeiras vezes uma habilidade na expectativa de palmas, disse "ok, ok, ok".

 

Embalado por aquela visão inspiradora o resto do percurso passeio a tentar decifrar, escutando atentamente e o melhor possível atendendo a que emissor e recetor estavam em movimento, as conversas dos meus companheiros de passadiço. Não foi surpresa nenhuma perceber que mais de metade é constituída por senhoras de meia idade cujas características são inconfundíveis, maioritáriamente aos pares, condição essencial para exercitarem aquilo que para elas, e para mim naquele dia, mais interessava, a língua, vestem normalmente roupas demasiado apertadas e vistosas para a idade, tentando assim, simultâneamente, recuperar tempo perdido, tantas vezes agora livres da pressão de maridos opressivos, seja por já terem partido desgastados por tanta consumição, seja porque, tarde, ficaram espertos, ou até, quem sabe, arranjarem um romance tardio qualquer. O certo é que enquanto vão debitando a lenga-lenga do costume da qual fazem parte todo os tipo de coscuvelhices, maldicências várias e ternurentos relatos a propósito de netos queridos e filhos ingratos, sem qualquer pudor fitam bem nos olhos aquele tipo de peixe que julgam mais passível de lhes cair nas tentadoras redes.

 

Outro numero considerável de exemplares são, digamos, as filhas das duas senhoras que referi. Eventualmente ainda em plena atividade profissional, por isso muito mais raras, para além de naturalmente se movimentarem melhor, vestem trajes bem mais confortáveis para o efeito, também mais discretos, discrição que, ainda conscientes e/ou dependentes de filhos e maridos, em boa forma e com aparências capazes de suscitar apetites, mantêm na postura perante quem com elas se cruza relegando os ou as infelizes para uma inabalável indiferença. As conversas, essas, costumam exibir um tom de revolta de quem se sente profundamente injustiçado lá no emprego, sendo que normalmente o alvo é um ou uma qualquer colega, ou chefe, que tem a mania de se armar em importante ou agir com prepotência. Revelam uma atitude competitiva e ressabiada tão própria destes dias, e que um olhar mais prolongado sobre as respetivas mães, seguramente portador de esclarecedoras mensagens, porventura as conduziria a mudanças que as poupariam a sofrimentos semelhantes aos das progenitoras. 

 

Grupos de homens são mais raros e quase exclusivamente já de meia idade, mas quando acontecem manifestam-se mais objetivamente, isto é, ou andam para ali a arrastar-se, pura e simplesmente a marimbar-se para o exercícío limitando-se a passear as enormes barrigas, enquanto largam umas larachas sobre bola ou politíca repetidamente interrompidas por sonoras e demoradas gargalhadas, ou então, os, apesar de tudo, ainda mais novos, que são autênticos fundamentalistas, verdadeiros escravos de apertados planos prósaude, linha, ou outras manias como a de buscarem em si Dons Juans perdidos, e que em vez de andarem correm. Se os primeiros normalmente parece irem de de pijama, com os calções de andar lá por casa, ou de ir à pesca, já os segundos exibem todo um sofisticado equipamento que por vezes chega a requintes tipo cronómetro, e mesmo esquisitos bidões portadores de poções supostamente mágicas. Infelizmente estes últimos pouco falam, quase completamente absorvidos na implacável tarefa, quando o fazem é para lançarem uns aos outros viris gritos de apoio mútuo.

 

Volta e meia lá aparecem casais, os mais comuns exibindo alguma tranquilidade, bem estampada por todo o lado, desde os trapos vulgares e suficientes para cumprir o objetivo, passando pelo caminhar a velocidade mediana e postura descontraída, até aos pequenos diálogos muito próprios de quem está razoávelmente de bem com a vida, pouco mais fazendo do que a ir constatando com alguma bonomia e ironia quanto baste. Mas também os há que insistem em permanecer bem juntinhos, mesmo de mão dada ainda que num mutismo absoluto, sendo que nestes casos é habitual o macho distribuir relances ameaçadores para todos os lados; ou então seguem separados aí uns bons dez metros, cada um na sua, alguém que já não espera novidades de coisa alguma, ou quase... já que aqui e ali lançam umas palavras um ao outro, aparentemente sem importância, mas que sempre serve para justificar uma olhadela que checa distâncias e ciscunstâncias.Também, muito raramente, aparece a dita gente fina, que se anuncia desde logo pelo cheiro a perfumes caros que a brisa obedientemente traz, espécie de aviso à navegação que chega mesmo antes de serem vistos, imediatamente consubstânciado por eretas posturas que transmitem poder e sucesso, também confirmadas por elegantes vestimentas a rigor para o evento, prómenino e prámenina, não esquecendo os inteligentes olhares que pretendem que assim tudo fique dito, é que aquilo trata-se de gente superior e demasiado fatigada para com mais do que isso perder tempo, muito comuns nestes nobre e raros espécimes, seja o frio e fugaz vislumbre da madame, ou o feroz e severo fitar do senhor.

 

Ainda assim a maior parte de nós anda sozinha, logo, calados, mais ou menos concentrados no que ali nos levou e, claro, mesmo solitários, em conjunto beneficiando da presença e da companhia uns dos outros, nomeadamente dos que seguem acompanhados que, como quadros vivos em movimento, nos lembram o que é a vida real e dão todo um outro sentido a tudo aquilo, espécie de razão acrescida, maior, muito para além do simples exercicío ou passeio, sem os quais o resultado final seria bem diferente, uma banal pista de treinos, ou insosso porque pobre desfile de vaidades.

  


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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