semtelhas @ 14:39

Ter, 03/02/15

 

Durante a noite, mesmo a três quilómetros, o mar fazia-se ouvir nítidamente, assustador no silêncio. Mas de manhã o sol chegou a espreitar, e não obstante as ameaçadoras núvens negras estava ali uma oportunidade para matar gorduras, beber muita água, não desabituar o corpo ao saudável movimento, é que chegadas certas idades rápidamente ele se acomoda à inércia e ainda mais depressa à degradação. Mas, mais ou menos a meio do percurso, aconteceu o que havia muito se adivinhava face a um céu a cada momento mais baixo e escuro, o desabar de um copioso aguaceiro. Ali, junto ao mar cuja envolvência húmida em muito potenciava a sensação de frio, a temperatura sentida não devia estar muito acima dos zero graus, pelo que se tornou indispensável ensaiar um ligeiro passo de corrida, não só para mais rápidamente atingir o próximo abrigo, mas também para aquecer porque o frio entranhava-se insidiosamente.

 

Decorridas algumas dezenas de metros, seguramente por causa do esforço da corrida, talvez também pela dificuldade em respirar, em repôr nos pulmões um ar gélido, o coração disparou em batimentos desenfreados e sobretudo completamente descoordenados, impunha-se parar imediatamente para que a máquina recuperasse o ritmo certo. Sentei-me num banco de madeira parte integrante do passadiço que descobri um pouco adiante entre a cortina de água. Continuava a chover intensamente. Começava a sentir a água, primeiro nas pernas, depois nos pés, nos ombros, quando lobrigo quatro luzinhas brilhantes debaixo do chão em traves de madeira que, naquele sítio, estão elevadas acima da terra aí um metro e meio. Com dificuldade por causa da água na cara e a cair a toda a volta, reconheci dois cães, meus velhos conhecidos desde há já meia dúzia de anos das suas deambulações naquela zona.

 

As primeiras vezes que os vi, um cão e uma cadela de tamanho médio, tinham ambos o pêlo, agora russo, quase completamente preto, a fêmea dona de uns olhos cor de avelã, castanho muito claro, o macho com eles de um azul transparente quase branco. Corpulentos, com estatura parecida ao pastor alemão, impressionava a sua postura de lobos, sempre algo nervosos, e sobretudo assustava o olhar lançado por aqueles farois esquisitos, mas nunca sequer me ladraram. Depois, ao longo dos anos, alguém por aqueles lados deveria dar-lhes de comer, fui-me habituando a eles e eles a mim, um convívio isento de qualquer espécie de confraternização, mesmo mínima. Agora eles ali estavam especados a fitar-me, aparentemente com mais curiosidade que outra coisa qualquer. Súbitamente ouço um barulho anormal, inicialmente como bicadas de um exército de pássaros em madeira, que rápidamente se transformou no som produzido po um avião no preciso momento anterior em que as rodas deixam a pista. Caía granizo em quantidades industriais, que eu, estranhamente, antes de ver ouvi.

 

Em poucos minutos na zona que me rodeava tudo ficou branco gelado, os bichos lá em baixo apagaram as luzes e esconderam o focinho no corpo enrolado, então, súbitamente, um raio de sol rompeu entre as núvens que se apartavam, possibilitando um vislumbre de azul, e invadiu-me uma inacreditável sensação de paz, limpeza e pureza face à intensidade do branco que cegava, foi quando eu, que segundos atrás me sentira a congelar, tive uma epifania. Resolvi fechar os olhos e só assim logrei ouvir a passarada que reagia à luz solar e anunciava a bonança, ouvi os cães a abandonar o seu abrigo, vi-os sentarem-se ao sol a escassos metros de mim a saborearem o calor infímo, e pensei nos meus próprios bichos, especialmente nos desaparecidos, como os pressentia perto! Voltei a fechar os olhos e vi outros ausentes, gente desaparecida que me mirava tranquilamente, ainda que alguns com um ar de ressentimento que me trouxe o remorso, outros em cujo rosto pairava a dúvida, e os que sorriam convidativamente. Atravessou-me um arrepio e levantei-me. Lá estavam os cãozitos carinhosamente encostados um ao outro, alguns pardais que chilreavam histéricamente felizes, e uma paisagem inusitadamente branca até bem longe. Estava de volta! Enchi bem os pulmões, conferi as bem compassadas batidas do coração, e pus-me a caminho pensando que raramente me terei sentido tão bem.


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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