semtelhas @ 12:06

Sex, 15/05/15

 

A força do amor, do medo, da coragem, do instinto, da retórica, da razão, da vergonha própria e alheia, da maternidade, da redenção, do políticamente correto. O que tem mais força?

 

Questão transversal a todos e nunca por alguém cabalmente respondida, talvez encontre as suas facetas mais extremas naqueles lugares que por via de uma natureza dominante de características limite, fazem as pessoas também elas excessivas, como em zonas particularmente quentes ou frias. Roberto Bolaño demonstra-o com toda a crueza em "2666", num México inclemente para com os mais fracos, tal como Ingmar Bergman ou Michael Haneke nas suas obras cinematográficas, onde sobressai a frieza letal de uma linguagem assassina que tantas vezes dispensa as palavras. Lembro-me por exemplo de um filme do primeiro, "O Ovo da Serpente", uma versão para o nascimento, ou talvez melhor, para o refinamento do nazismo, ele próprio uma derivação do fascismo original do inicío do século XX, algo igualmente magistralmente mostrado na fantástica obra de Bernardo Bertolucci, "1900". Nesse filme fortissímo de Bergman, uma das cenas mais pungentes mostra a reação de uma mãe fechada num quarto com o seu bébe durante dois ou três dias. No fim do primeiro, quando a fome começa a surgir e a criança chora, a mãe embala-o docemente e segreda-lhe palavras de consolo ao ouvido, durante o segundo, através de uma câmara de filmar estratégicamente colocada, vemos a mãe desesperada encolhida num canto, cabeça entre as mãos apertada entre os joelhos, e no canto mais afastado, o bébe pousado no chão a gritar desesperadamente. Foram precisas pouca horas mais para que a mulher, à beira da loucura porque incapaz de continuar a escutar o filho, matasse a criança batendo-lhe com a cabeça nas paredes. Com estas experiências diabólicas era suposto os nazis testarem os limites do ser humano.

 

"Força Maior" situa-se na área das "friezas" nórdicas, gentes e lugares, é um filme ele próprio pleno de força, agarra do princípio ao fim e atinge-nos naquilo que de mais frágil temos e comum com todos os outros, as nossas dúvidas. Por isso mesmo quase podia considerar-se uma espécie de ensaio, não fosse a enorme beleza das suas imagens da natureza, até alguma benevolência e um certo rebuscamento no argumento, principalmente no último terço da fita, eventualmente um "piscar o olho" à audiência, mas ainda assim perfeitamente aceitável e sobretudo legítima, afinal aquilo custa dinheiro que é preciso recuperar. Tal como os avalanches de neve que tão bem retrata, também ele é um forte abalo, mesmo para aqueles de convicções fortes.

 

 


direto ao assunto:

De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
procurar
 
comentários recentes
Pedro Proença como presidente da Liga de Clubes er...
Este mercado de transferências de futebol tem sido...
O Benfica está mesmo confiante! Ou isso ou o campe...
Goste-se ou não, Pinto da Costa é um nome que fica...
A relação entre Florentino Perez e Ronaldo já deve...
tmn - meo - PT"Os pôdres do Zé Zeinal"https://6haz...
A azia de Blatter deve ser mais que muita, ninguém...
experiências
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


subscrever feeds
mais sobre mim