semtelhas @ 14:26

Seg, 24/11/14

 

Não sei o que senti primeiro, se o cheiro a alfazema misturado com o que me parecia, remotamente, o de algumas farmácias, medicamentos e perfumes suaves, a limpeza, se ouvi o restolhar de folhas de árvores, essas sim sómente vistas imediatamente depois destas primeiras sensações, através de uma janela parcialmente aberta do quarto branco, relativamente espaçoso, situada um pouco à frente do meu lado direito, do mesmo lado junto à cama onde acabara de descobrir estar deitado, uma pequena mesinha de cabeceira, do outro lado, a seguir a uma outra em tudo igual, um aparentemente confortável sofá, único elemento não branco pois mostrava a cor natural do couro de que era feito. A parede paralela à da janela, para além da porta, tinha encostado um bengaleiro para roupa e guardaschuva, na da frente uma mesa com um belo ramo de flores ainda frescas dentro de uma jarra, duas cadeiras a ladeá-la e, num suporte aí dois metros acima uma televisão desligada. Fui observando tudo isto devagar, ao longo do que me pareceu imenso tempo. Como o fazia quase exclusivamente com os olhos, pelo menos não me sentia a mexer, tive dificuldade em saber qual a origem de uma espécie de zumbido que me chegava de trás, até que percebi tratar-se de um aparelho com uma panóplia de fios e luzinhas. Fechei os olhos e comecei a tentar recordar-me de alguma coisa. O cheiro intenso a alfazema dos lençois incomodava-me, pelo que tentei afastar o que me tocava o nariz, sem sucesso. Não conseguia mexer os braços. Nem as pernas como constatei de seguida. Só, e muito ligeiramente, lograva deslocar a cabeça. Foi no exato momento que a angústia profunda me invadiu, que, instintivamente recuando à última vez que essa mesma terrível sensação me paralisara de medo, recordei o que se passara.

Num estado que não conseguia definir com exatidão, algures entre um certo alheamento, estaria debaixo de efeito de drogas?, como quem sai se si próprio e se abserva a pouca distância, ainda assim num sensível esforço de memória, consegui voltar ao dia em que estivera na casa daquela velhota espampanante, era assim mesmo que dela me lembrava, e da sua magnífica filha, Rute!, era o seu nome, rever o seu rosto, o seu corpo nu deitado na penumbra, acabava de me provocar uma suave euforia. Vi os seus olhos plenos de doçura enquanto se despedia e eu me afastava largando as suas mãos... um buraco no vidro da minha carrinha... uns riscos negros de óleo que escorria pelo capô... e uma dor intensa na cabeça, como experimentava naquele momento mas numa versão certamente de potência muitíssimo reduzida, que tal como uma descarga elétrica me percorrera de cima a baixo. Era tudo. E agora isto. 

Seria concerteza esse o motivo daquela enorme pressão em volta de parte do rosto e restante cabeça, deveria estar toda envolta em ligaduras. Não tive tempo para tentar confirmá-lo porque alguém usando uma farda branca entrou no quarto, era uma jovem enfermeira, preparava-se para iniciar uma série de procedimentos, pela sua postura óbviamente rotineiros quando, encarando-me olhos nos olhos, rápidamente passou do espanto à satisfação exclamando para alguém que não estava ali, acordou! Saiu a correr e quando voltou após alguns segundos, vinha acompanhada por uma outra enfermeira mais velha e um homem de bata branca, estetoscópio pendurado ao pescoço que, procurando dosear a expectativa, me perguntou, como se sente Vasco? O homem sabia o meu nome! O que é que está a  acontecer? O que é que tenho? Onde estou? Ouvi-me a perguntar numa voz que apesar de a mim soar normal, deveria ser bastante débil porque o médico práticamente colou um dos ouvidos à minha boca. Olhou sorridente para as enfermeiras, apertou nas dele as mãos da mais velha, e disse, o sr. foi assaltado, deram-lhe uma pancada na cabeça. Já foi há mais de três semanas. Não sabíamos se...quando ía acordar. Agora temos que dar a notícia, observou virando-se para a mais jovem, e como que indicando quem primeiro deveria receber a boa nova, O que lhe valeu foi a senhora que deixara pouco antes ter ficado a vê-lo ir-se embora, chamou logo uma ambulância e foi socorrido rápidamente. Rute salvara-me! Não só continuava presente na minha vida como, de certa forma, nela entrara decisivamente! Não me conseguia mexer, mal falava, nada sabia do que viria a ser o meu futuro, mas estava feliz!


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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