semtelhas @ 12:17

Qua, 29/10/14

 

Pelo visto a semelhança entre aquelas mulheres não era só física, também nos gestos, na postura, naquele jeito de ficarem atentas, como um predador que, escondido, aguarda o melhor momento para atacar. Rute, ainda um tanto contrariada por não ter submetido a mãe a um interrogatório cerrado, naturalmente pelas melhores razões segundo me parecia, lá condescendeu em deixar essa parte má provávelmente para depois de me ausentar, e disse-lhe, Não o conheço, mas é daquelas situações em que é como se já tivessemos falado um monte de vezes. Depois também sabia que ías querer agradecer ao Vasco o ter-te trazido para casa. Por isso, enquanto esperávamos resolvemos dár-nos a conhecer mutúamente. Ele é professor de português. Emília, mais aquietada, que me radiografava também valendo-se da sua enorme experiência de vida, disparou, mas já passaram umas horas! e ficou especada. Como já disse à sua filha, não tinha dito, vivo sózinho, ali para cima a uns cinco quilómetros, daí...interrompeu-me com uma energia inusitada para a idade, pronto! então está decidido. Passa o sábado connosco. A minha filha prepara uma refeição, tem muito jeito para a cozinha sabe? E entretanto também entro na conversa porque ela é demasiado modesta e normalmente reservada...e fitando Rute, até estou admirada! O que é que o sr. tem para a pôr a falar dela? Estou curiosa em descobri-lo. Vou arranjar-me. Continuem, continuem. E afastou-se lentamente o que denunciava uma considerável diferença entre a sua forma mental, aparentemente excelente, e a evidente má forma física provocada pelo desgaste da idade e, dei comigo a imaginar, por uma vida vivida intensamente.

Rute observava com um sorriso nos lábios e segredou-me, não ligue, desde que o meu pai morreu, o que coincidiu com o fim de um relacionamento que eu mantinha desde há alguns anos, e não o contrário como ela insiste em afirmar, sente-se culpada por, está disso convencida, me manter presa, podes ir! eu fico bem, não parava de dizer na altura, apesar de eu saber que a perda do companheiro de sempre a deixara devastada, como podia comprovar pelos olhos invariávelmente inchados devido a horas a chorar. Acabei por ter que me zangar a sério e ameaçá-la que me ía mesmo embora, o que na verdade jamais faria. Foi-se habituando à ideia e hoje somos pouco menos que inseparáveis. No entanto, a cada oportunidade que surge para que eu conheça alguém que possa representar a mais remota possibilidade de eu não ficar só, como diz, ataca com toda a força. Pausa e uma rápida olhadela para me controlar. Era a minha deixa, talvez não tenha reparado mas há um bocado disse-me, então és professor, e aquele tratamento por tu soou-me tão bem! Encheu-me a alma! Foi como se de repente caíssem todos as barreiras e ficasse junto a ti. Desculpe...não quero parecer abusador, até porque refiro-me sobretudo a uma espécie de encontro perfeito ao nível mental, como se sempre a tivesse conhecido, ou de si estivesse à espera...a aparência, a forma como se movimenta, o que diz, como o faz, incrível. Aquilo saíra-me de sopetão, pelo que só no fim me apercebi do que dissera, da pouca razoabilidade, estava preparado para ser "gentilmente corrido" mas, para meu espanto, ela, que após desvendar a tática de "ataque à presa" da mãe, pela primeira vez se mostrara um pouco fragilizada, recuperando a firmeza e tranquilidade até ali exibidas afirmou convicta, acredito no que dizes, porque sinto a mesma coisa, e a ser verdade o que se diz sobre almas gémeas...ía dizer amores á primeira vista mas saiu um, e não sei que mais...Acabou por se afastar anunciando, vou ver o que tenho no frigorífico. Voltou logo a seguir, um bom naco de carne para bifes. Cozo esparguete e faço um molho de cogumelos. Gostas? Mas ainda não tenho fome. Se calhar fazíamos algum tempo lá fora, está bom, falámos mais um bocado e come-se lá mais para o fim da tarde, que te parece? Levantei-me a pensar que aquilo não era verdade, era bom demais, alguma coisa devia estar errada, mas, por outro lado, como se de um déjà vu se tratasse, havia  fluidez e harmonia nos acontecimentos que se sucediam com a naturalidade própria do que há muito foi cuidadosamente planeado, para que nada falhe. O que estava a acontecer ali?

 

 

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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