semtelhas @ 14:32

Seg, 27/10/14

 

A minha mãe costumava contar que quando viu o meu pai após o seu retorno definitivo, não o via há mais de ano depois de nos ter confiado às autoridades na metrópole, se assustou, que parecia ter envelhecido dez anos! Manteve-se por lá práticamente até à independência, não para tentar continuar o negócio, percebera que tal seria impossível, mas para realizar o máximo de dinheiro com o produto de uma vida de trabalho. Só muito mais tarde me explicaram o enorme problema que era fazer valer o dinheiro de Angola cá, que todos procuravam trocar os seus haveres por algo transacionável, liamba, diamantes, etc. Ele, que era muito bem relacionado com gente poderosa, conseguiu uns quantos diamantes, segundo afirmava uma décima parte de tudo o que se viu obrigado a abandonar. O certo é que foram essenciais, a nossa salvação! Não de imediato porque a situação aconselhava não mostrar riqueza, caso contrário apareciam logo inúmeros abutres, pelo que durante uns meses a vida pouco mudou, para além da sua presença, claro, que fazia toda a diferença. Desses tempos já tenho alguma memória, dos passeios junto rio, na ribeira do Porto. Havia um mercado de rua e lembro-me daquilo sempre cheio de gente, frenética, barulhenta. Parou para reforçar a sensação que transmitia, aproveitei, se calhar cruzámo-nos por lá. 78/79? por aí, não? Nessa altura conheci um fulano que também veio das colónias e instaram-no no Infante Sagres, aquele hotel de cinco estrelas. Foi dos tais que trouxe uma mala daquelas enormes a rebentar pelas costuras cheia de liamba, ninguém deu por nada! passava tudo! só que ele gostava demais daquilo, e era demasiado boa pessoa para vender e realizar dinheiro. Dizia que nos primeiros meses não saiu do hotel, nem para comer, pedia para o quarto umas sandes e cerveja, para os intervalos do fumo e de horas intermináveis a dormir e a percorrer, extasiado, os corredores luxuosos, plenos de móveis dourados, veludos, e obras de arte. Eu e mais dois ou três fomos os seus cicerones para a entrada na civilização, lá vivia numa pequena vila rodeada de mato e era dono da única mercearia. Costumava dizer que era mais preto que alguns pretos. Ao longo de quase dois anos fomos inseparáveis...ri-me apesar da nostalgia que me invadia ao recordar aquele bom amigo que, mais de uma dúzia de anos mais velho, e quando profundamente mergulhados no maravilhoso mundo das ilusões, me ensinou a dele tirar só o melhor, o intrínsecamente positivo, nunca fumes quando estiveres numa má, repetia, pés bem assentes no chão e cabeça sempre nas núvens, era o seu lema. Por onde andará? Então terias por aí dezasseis? Perguntou-me numa primeira investida direta procurando conhecer qualquer coisa de mim. Dezoito, por aí. A revolução tinha virado o sistema de ensino de "pernas para o ar", precisamente naquela fase em que teria que escolher a área de estudos superiores a seguir. Por essa altura andava às voltas entre as experiências de um tal Sotto Mayor Cardia, o ministro da educação, para entrar em letras. Depois de uns rídiculos exames ditos de equivalência lá consegui entrar em literatura. Manteve-se na expectativa forçando-me a continuar. Passados seis anos estava a dar aulas de português, ao secundário, na Covilhã. Espantada, Então és professor? Ía responder-lhe que era, quando uma cabeça de estranhamente ainda farta cabeleira cor de "cobre", em franco desalinho, o corpo encoberto pelo verde das plantas, nos apareceu na janela atravessando lentamente o jardim em direção à saída. Mãe, exclamou Rute, e apressou-se ao seu encontro.

Quando entraram a mais velha explicava que fora verificar se o portão estava fechado. Encarou comigo, e com falsa naturalidade enquanto espreitava a filha pelo "rabo do olho", ah está aí! também o procurava. Obrigada. Acho que adormeci em pé...quer dizer, a guiar. Olhou de relance para Rute e sem esperar, ainda fui a casa da Odete cumprimentar a neta que chegou de fora. Ela queria que eu dormisse lá, mas sabes que gosto sempre de voltar para casa. Quando cheguei estava tão cansada que me recostei logo nos almofadões da cama, e quando acordei era dia! Desci para ir comprar croissants, apeteciam-me, mas como só devo ter dormido para aí três horas... olha! Respirou fundo para retomar o fôlego, e sem dar oportunidade de ser interrompida, enquanto eu sentia estar a assistir a uma circunstância que deveria ser recorrente, a mãe a fugir ás recomendações da filha porque as interpretava como recriminações, mas... já se conheciam? Finalmente parando para refletir, muito séria, estende-me a mão como quem, a um tempo, desenterra o "machado de guerra" e convida para um "cachimbo de paz",  e diz desconfiada, Emília.

 


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
procurar
 
comentários recentes
Pedro Proença como presidente da Liga de Clubes er...
Este mercado de transferências de futebol tem sido...
O Benfica está mesmo confiante! Ou isso ou o campe...
Goste-se ou não, Pinto da Costa é um nome que fica...
A relação entre Florentino Perez e Ronaldo já deve...
tmn - meo - PT"Os pôdres do Zé Zeinal"https://6haz...
A azia de Blatter deve ser mais que muita, ninguém...
experiências
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


mais sobre mim