semtelhas @ 12:06

Sab, 25/10/14

 

A cozinha era magnífica, grande mas acolhedora, com uma janela panorâmica sobre o jardim que convidava à permanência, percebia-se que faziam ali as refeições e lá passavam boa parte do tempo. Sentei-me à mesa de madeira, numa cadeira surpreendentemente confortável e dispús-me a ouvir. Rute, percebendo que lhe oferecia a primazia, não se fez rogada, e como quem esperava oportunidade semelhante desde há muito disparou, Então pensava que era neta? Não. Sou uma espécie de filha tardia, quando já ninguém me esperava. Os meus pais eram daquele tipo de casais aos quais os filhos só servem para atrapalhar, preenchiam-se perfeitamente um ao outro, talvez por isso a minha mãe já passasse dos quarenta quando me teve, quase de malas feitas para regressar à metrópole, estavam em Angola desde os princípios dos anos sessenta, ainda antes de ter começado a guerra. Foi logo a seguir à revolução de 74, mas ainda nasci angolana. Portanto é fazer as contas. E parou como que a aguardar comentários. Quarenta? incrível! não parece nada! dava-lhe para aí trinta e dois... no máximo trinta e cinco.  Fitou-me perscrutadora tentando desvendar no meu rosto sinceridade ou exclusivamente simpatia, e prosseguiu, Retornada, está a pensar, e é verdade. E daquelas com uma mão à frente e outra atrás. Lá tinham uma vida desafogada, o meu pai era proprietário de um aviário enorme, aquilo parece que dava milhares de ovos por...bom já não me recordo da história, mas ficou tudo lá, empresa, casa, carros, em 76, porque ele como acreditou que lhe íam permitir continuar, trouxe-nos com a esperança de regressármos mais tarde, voltou, e depois teve que fugir à pressa. Entretanto eu e a minha mãe, com muitos outros, começámos por ser acolhidos num hotel de luxo no algarve, onde estivemos ano e meio. Depois tivemos uma breve passagem por Lisboa, mas quando o meu pai veio de vez já víviamos no Porto, num quarto alugado que ela pagava com o que ganhava a limpar escritórios. Levantávamo-nos às cinco da manhã. Claro que não tenho qualquer memória desses tempos que a minha mão recorda sempre entre lágrimas, quando volta a ver-me tão pequenita, nos seus braços, normalmente a rir-me, felizmente era bem disposta, quando ela, ainda noite fechada, percorria a pé a apreciável distância entre o quarto e o prédio de escritórios. Levantou o rosto agora triste mas não menos bonito e fortemente expressivo, e despertando  encarou-me como se me visse pela primeira vez depois da momentânea ausência, perdida nas brumas do passado, e, quase incrédula afirmou, não sei porque lhe estou a contar isto tudo, mas é como fosse uma necessidade antiga, não que nunca o tenha feito, mas não o fazia há muito, e o senhor, o que fez, a sua postura tranquila, vieram mesmo a calhar! espero não estar a maçá-lo muito. Foi a oportunidade para eu próprio mostrar algum tipo de solidária fragilidade. Não, de todo, atualmente a rotina terrível que são os meus dias estava tão ou mais necessitada de um abalo, ou uma quebra melhor dizendo, que a Rute de voltar ao passado. E não se esqueça que sou Vasco. Lançou-me mais um daqueles sorrisos magnéticos e foi à sala vigiar a mãe. De volta, cozinha arrumada, sentou-se do outro lado da mesa, no sentido da largura desta, bem em frente, e disse, ainda bem que é sábado, não preciso ir à agência. E face ao meu indisfarçável ar inquiridor, tenho uma agência imobiliária que foi aberta pelo meu pai, morreu há oito anos, para ajudar a vender os apartamentos que construía. Mas estou a adiantar-me. Já que o Vasco se mostra disponível e eu estou com a "corda toda", vou continuar. Aqui interrompeu-se, pôs-se alerta, e perguntou em jeito de afirmação, a não ser que precise de falar com alguém, e esticou o braço sobre o imaculado tampo da mesa limpando imaginárias migalhas. Para o bem e para o mal não tenho ninguém à minha espera. Descontraiu-se disfarçadamente na cadeira como se tivesse acabado de ultrapassar um obstáculo importante, e retomou o seu relato num tom e leveza onde julgei reconhecer a jovem de vinte e poucos que já fora.

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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