semtelhas @ 12:33

Sab, 14/02/15

 

O dia mostrava-se apropriadamente cinzento. Caía uma chuva miudinha que empurrava as pessoas para entrada da capela do cemitério, por sorte imediatamente precedida por uma espécie de largo para as receber nestas ocasiões, ali praticamente exclusivas, coberto por uma vasto telhado constituído por uma armação em aço, onde assentava um material translúcido do qual não consegui descobrir a natureza. Aquelas circunstâncias e a grande número de participantes, os desenlaces trágicos atraem gente como o mel moscas, favoreciam uma exagerada proximidade, pelo que nos juntamos aos poucos que optaram por se manterem ligeiramente afastados com os seus guardaschuva abertos. Não demorou muito para que Rute com aquela sua aura dominadora, reforçada por uma apresentação perfeita tendo em conta o tipo de evento, chamasse as atenções, apesar de no momento imediatamente a seguir eu perceber que as palavras sussuradas eram a meu respeito, coincidiam com a direção para onde olhavam. Desconhecia em absoluto o que saberiam da minha relação com Luísa e a família, práticamente nula se analisada sob o ponto de vista da amizade, além de estar a ver todos aqueles rostos pela primeira vez. Todos menos os de Eurico e João que surpreendentemente estavam presentes, questionava-me se também ele dela teria sido professor, e o filho provávelmente colega ou mesmo amigo. E, naturalmente, os dos infelizes pais da sua malograda Luisinha.

Ao longo do dia anterior depois de Rute ter partido para sua casa e para junto da mãe que segundo me disse cada vez mais carecia da sua presença, antecipara aquele momento e preparara-me para o pior. Quem sabe até para cenas tristes em tudo semelhantes às que aqueles mesmos personagens me haviam sujeitado alguns anos atrás, quando me acusaram de assédio à filha, mas também tinha consciência que teria que enterrar tudo aquilo com a defunta. O que me acontecera nas últimas horas funcionara como uma autêntica benção, exatamente quando o vazio parecia rodear-me por todos os lados, sentia-me uma pobre pequena ilha agreste, já sem nada para oferecer, esquecida, abandonada, eis que as coisas mudam cento e oitenta graus graças à aparição daquela, para mim, verdadeira Nossa Senhora, um milagre totalmente inesperado e do qual ainda me perguntava se seria merecedor. Pouco falaramos mas o suficiente para me deixar num estado que raiava a incredulidade face ao entusiasmo que pressentia invadir-me, é que ela conversava incluindo-me com a maior das naturalidades nos dias que se seguiriam ao funeral para onde combinamos o próximo encontro. Chegara a fazer uma leve alusão ao valor comercial daquele meu andar enquanto, de volta ao terraço, estendíamos o olhar sobre a cidade, interessante segundo classificou, questão que não logrei perceber tratar-se de um devaneio de uma profissional na matéria, ou qualquer sorrateira investida no meu futuro próximo. Do que não restavam dúvidas é que nos entenderamos perfeitamente na cama, duas criaturas essencialmente sôfregas, carnívoras, mas igualmente ambas dotadas da experiência capaz de tornar o sexo em algo realmente satisfatório a todos os níveis. Na verdade estava pronto para enfrentar muito mais do que o pior que imaginava poder vir a acontecer.

Mas agora, perante a acusação de culpa que faíscava nos olhos do pai e da mãe de Luísa enquanto deles nos aproximavamos, uma angústia enorme começou a apertar-me a garganta, e temi nem sequer conseguir fazer-me ouvir quando, já em frente deles, ouço a voz de Luísa que num primeiro instante parecia chegar vários metros afastada, dizer, "Lamentamos muito, era tão nova!  concerteza não merecia tão triste sorte, mas é assim a vida, ficam cá os vivos como nós para expiarmos os nossos pecados". Confusos, ainda a tentarem perceber o que tinham ouvido o que lhes pôs nos rostos uma expressão algo intimidada, reagiram de pronto à nossa intenção de os cumprimentarmos para depois permanecerem estáticos, e acredito que a fitar-nos incrédulos enquanto nos afastavamos, apanhados de surpresa por aquela abordagem que não lhes deixara o minímo espaço para retaliações. Não conseguiria explicar porquê, mas ainda não chegaramos junto de Eurico e do filho para onde eu próprio nos conduzia depois deste episódio, e já percebera que jamais aqueles dois voltariam a incomodar-me. O mais espantoso é que nunca trocara quaisquer impressões a propósito daquela gente com Rute, o que não evitara que rápidamente descodificasse toda uma relação familiar, particularmente as muitas responsabilidades que impendiam sobre aquelas duas pobres criaturas, que no afã de tanto protegerem a sua menina criaram uma espécie de monstro, alguém profundamente desiquilibrado. Por outro lado nunca me sentira tão neutro, tão avassaladoramente dominado por outra pessoa, Rute pura e simplesmente pegara nas rédeas da situção e sem qualquer hesitação, não me dando a mais remota chance de intervir, começara e acabara de tratar do assunto. Pela primeira vez tive um assomo da realidade que eventualmente me esperava e, se primeiro tentei justificar aquela ação pelo facto dela me ter sentido a, literalmente, tremelicar de ansiedade, logo, mentalmente e se calhar também fisícamente, encolhi os ombros enquanto pensava, "é o preço que tens a pagar".

Antes de fugir dali e enterrar definitivamente nas catacumbas da memória gente e acontecimentos que tão negativamente haviam mexido com a minha vida, troquei algumas impressões com Eurico e João, agora tanto quanto me contavam inseparáveis companheiros, o meu antigo colega pedira uma licença sem vencimento por tempo indeterminado para acompanhar de perto a recuperação do filho que seguia pelo melhor dos caminhos. Alguns meses mais tarde, encontramo-nos por mero acaso, este disse-me ter ter recebido uma carta de Amina, metódica, havia guardado cuidadosamente o endereço do pai, a informá-lo que acabara por conseguir com outro, pelos vistos um holandês que em tempos fora seu companheiro depois abandonado por troca com João, o que com ele falhara, recuperá-lo para a vida, agora feita em comum em Amesterdão. "Menos uma terrorista", pensei na altura. Quanto a Eurico havia pedido a reforma na sequência da licença sem vencimento, encontrando-se bastante ocupado com os outros dois filhos, nomeadamente com a filha, apesar desta, depois da recuperação do irmão, se mostrar bastante mais razoável. Depois disso nunca mais os vi ou com eles contactei!

Seguíamos comentando que seguramente teríamos à nossa espera um lugar no inferno depois do que nos rimos relembrando as caras aparvalhadas dos pais de Luísa, durante a viagem em direção de sua casa para a qual me havia convidado e que eu aguardava rever com ansiedade. Também aqueles sítios tão agradáveis de que já tinha saudades, pelos quais desde haviam anos passava nas idas e vindas a caminho da praia e do exercício físico, e naturalmente Emília, afinal de contas a grande responsável por estarmos aqui e agora. Para completar o quadro de felicidade que desde os últimos dias parecia mágicamente em construção, quando chegamos a sol resolveu aparecer num céu azul a crescer rápidamente, incidindo luminoso sobre a bonita vivenda, assim realçando as inúmeras flores do pequeno jardim da entrada numa explosão de cor primaveril, e o vasto verde em toda a volta, ainda brilhante e cheiroso graças à chuva que caíra purificadora. Encontramos Emília sentada exatamente naquele mesmo sofá até onde eu meses antes a apoiara ainda fragilizada pelo que então acontecera. Fitou-me atentamente e reclamou com Rute sem de mim desviar os olhos, "Não me apresentas o teu amigo?"


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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