semtelhas @ 13:08

Sab, 07/02/15

 

Perante o meu estado aparentemente catatónico, experimentava um avassalador efeito de catarse que ela começava a adivinhar, como se de repente, dentro do mesmo segundo tivesse passado do inferno ao paraíso, sem direito a limbos ou purgatórios, ali estava eu a viver um dos mais intensos momentos da minha já longa existência. Durante uns quinze/trinta eternos segundos, pela sua duração e significado, permanecemos a fitar-nos mutúamente, enquanto um filme que envolvia uma tarde de sonho seguida de um pesadelo, uma longa estadia num hospital a lutar pela sobrevivência, o vislumbre de um futuro radioso e a sua destruição filha de um passado mal resolvido, atravessava as nossas mentes como um raio de luz trilha o espaço, até nos encontrarmos ali e agora, naquelas circunstâncias que subitamente, permitiam uma espécie de "retomar o fio à meada" porque um nó, um doloroso obstáculo, tinha sido ultrapassado graças a um terrível milagre. Estendi-lhe as mãos abertas e o contato com as dela, um misto de segurança pela energia com que me agarrou, e suavidade pela sensação de seda do toque, transmitiu-me por osmose uma paz que me fez quebrar fisícamente, quase desabando pela encosta abaixo da torrente de emoções que corria imparável, não fosse ela ter-me dado um forte abraço, o nosso primeiro abraço.

Afastou-se lentamente para dentro da sala, e descobrindo umas quantas garrafas de cerveja vazias, semiescondidas entre dois sofás e que nos haviam escapado na pressa para ter tudo arrumado à chegada de Eurico, disse num tom isento de qualquer ironia, Já estiveste a afogar as mágoas. Encostado à parede entre o terraço e o interior, tentando pôr as ideias em ordem, só então processei mentalmente, para além do instinto que já mo havia sussurado lá bem fundo da consciência, a enorme oportunidade que aquela mulher me estava a dar, o que poderia representar a sua presença, a legitimidade das suas dúvidas, as explicações que eu lhe devia e nunca dera, como o destino insistia em nos colocar na vida um do outro, tudo isto era um sinal que não podia deixar de seguir. Convidei-a a sentar-se e contei-lhe tudo. Enquanto me revisitava a mim próprio em lugares havia muito remetidos para as catacumbas da memória, um esquecimento forçado indispensável para uma vivência minimamente razoável, mas também propiciador de uma paz podre, ela observava-me tranquilamente, e no seu rosto fui lendo uma mudança que se construía devagar mas assumida, como quem, com satisfação, confirma algo que há muito esperava e sobretudo desejava. Quando achou que estava dito o suficiente sentenciou carinhosa, Percebi. Acho que um duche vai pôr-te novo. Entretanto, a não ser que vejas algum inconveniente, vou fazer umas chamadas para sabermos quando é o funeral. Compreendi e aceitei o poder daquela mulher, como, finalmente e depois de toda uma vida onde a ansiedade mais intríseca, quase sempre disfarçada perante os outros e especialmente mim próprio, me havia dominado e impedido de viver na verdadeira aceção da palavra mas sim sobreviver, um terrorista num palco de guerras surdas, havia chegado a altura para descansar, deixar alguém assumir o comando, as responsabilidades, os deuses teimavam em mostrar-me o caminho era só segui-lo.

Deixei a água escorrer sobre mim por muitos e saborosos minutos, como quem mais que o corpo lava a alma. Minutos antes ao ver-me ao espelho descobrira um velho com os olhos inchados, e uma barba não recordava de quantos dias que me assustara, e me fizera questionar de como uma mulher como Rute perdia tempo comigo, e a única resposta que obtive encontrei-a num certo brilho nos olhos que também a mim encheu de entusiasmo. Envolto num cerrado nevoeiro consegui cortar a barba a contento, penteei o cabelo molhado para trás e lobriguei um homem francamente rejuvenescido onde antes vira uma "desgraça", ela, como sempre, tivera razão. Tal como um D.Sebastião surgido da nevoeiro passei ao quarto e o que vi fez-me parar, Rute estava calmamente sentada no sofá onde eu poucas horas antes acordara, vestia o meu robe fino, tinha mais uns quantos grossos, e adotara uma postura sedutora. O tronco como de costume muito direito, corretamente encostado, tal como a cabeça onde soltara a frondosa cabeleira de um castanho escuro extremamente brilhante. O rosto exibia um sorriso convidativo, sobretudo legível nos olhos onde a meiguisse e a lascívia se misturavam na dose certa, menos nos lábios cheios bastante húmidos e entreabertos onde aquela claramente dominava. Deixara o robe parcialmente aberto no peito, pelo que era possível ver das mamas o suficiente para adivinhar a perfeição na forma e dimensão generosas, bem como sobre as pernas que tinha cruzadas, permitindo apreciar uma das magníficas coxas, a que eu já vislumbrara numa bela tarde quente?, das longas e sensuais pernas. As mãos, dedos finos e compridos, estavam abandonadas sobre os braços do sofá, caindo elegantemente no vazio quando estes terminam, docemente disponíveis. Completamente desprevenido e nú levitei até ela, debruçei-me e beijei-a longamente e pela primeira vez. Sem mudar de posição, qual raínha, respondeu-me com igual sofreguidão e segredou-me ao ouvido, está tudo tratado. E eu pensei, como é possível conhecer-me tão bem? Como sabia que dizendo-me isto ía completar o círculo perfeito do momento que eu vivia? E como esse facto me libertaria para a ela me entregar sem quaisquer reservas ou limites? Então ajoelhei-me enquanto afastava suavemente o robe para os lados, e pude ver bem de perto o paraíso que me esperava. Deixei os olhos acompanharem as mãos a vaguearem por aquele corpo fantástico e em grande forma apesar de já não ser uma menina, demorei-me a cobri-lo de beijos, ora levantando-me ora sobre os joelhos, exalava um odor irresistível, nem doce nem ácido, uma neutralidade que remetia para a pureza, provei-lhe a sabor na boca, na pele, deixando crescer em mim a expectativa doutros sabores para mais tarde. Quando começou a emitir uns quase impercetíveis gemidos, estava iniciada a festa dos sentidos que queria oferecer-lhe, que em conjunto celebrássemos, e conduzia para a cama que ela mesma preparara para nos receber.


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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