semtelhas @ 14:08

Seg, 29/12/14

 

Ía sentado junto à cabine do pequeno avião de dezoito lugares, duas filas com oito pares de cada lado, mais dois encostados à dita, de frente para cada uma das filas, e ainda um atrás, estes últimos três penso destinados à tripulação, apesar de neste caso esta se resumir a uma simpática hospedeira, que mais parecia uma espécie de mãezinha dos passageiros que, mesmo assim, não passavam de uma dúzia. Debruçando-me um pouco para a frente, e porque o piloto deixara a porta do pequeno compartimento aberta, beneficiava de uma visão quase em tudo semelhante à que aquele, a pouco mais de uns dois metros, tinha praticamente encostado ao vidro panorâmico. A toda a sua volta uma panóplia de luzes, botões e alavancas de vários tamanhos, faziam-me refletir na sofisticação daquele aparelho, mas o que realmente me impressionou foi quando o nariz do avião desceu acentuadamente, e pude ver lá ao fundo uma pequeníssima extensão de alcatrão com um conjunto de riscos brancos regularmente interrompidos, mesmo ao meio, e só aquele "aranhiço" habitual nas pistas dos aeroportos que suporta as luzes vermelhas no seu topo para indicar o princípio e o fim desta, me fez perceber ser ali que iríamos aterrar. Como quem conduz uma motoreta, o piloto apontou para aquela mancha negra, e após uns quantos minutos de descida vertiginosa acompanhada de fortes solavancos, que só não nos atiravam ao chão porque íamos literalmente presos aos bancos, para meu espanto para além do cinto de segurança, tal como o da hospedeira que nos observava, todos de olhos arregalados, mantendo uma bonomia completamente desarmante, saíam dois outros de ambos os lados superiores dos bancos, os quais depois de os cruzarmos sobre o peito, os encaixávamos nuns recetores que vira somente ao cumprir essa ordem superior. A pista aproximava-se a um ritmo assustador, mas eis que já muito perto, a pequena aeronave posiciona-se na horizontal, ficamos com a sensação que pára no ar, e pousa suavemente no pequeno tabuleiro negro delimitado de um dos lados por um género de parque de estacionamento, onde se podem observar duas avionetas e um helicóptero, do outro por um minúsculo edifício a fazer de gare, para a frente e para trás uma imensidão de um mar azulíssimo e absolutamente tranquilo, tudo banhado por um sol morno, bem alto naquele fim de manhã de um céu imaculado.

Quando algumas horas antes pousara em Ponta Delgada, observando o movimento surpreendentemente intenso quando comparado com o que ali mesmo vira mais de vinte e cinco anos atrás, percebi que aquilo ainda não era o isolamento que pretendia, a paz e silêncio que procurava desde quando, três dias atrás, depois de deixar Eurico e passando por uma montra de uma agência de viagens, vendo o anúncio "Visite a Madeira e os Açores", encontrei a fuga ideal aos acontecimentos que me oprimiam profundamente. Foi por isso que nem sequer saí para a cidade que via pulsante do outro lado das enormes paredes envidraçadas. Escolhera um pacote de viagens menos de turista e mais de viajante, o que me permitia uma grande liberdade de movimentos ainda que em troca de considerável aumento no custo. Imediatamente segui para a Horta, que também conhecia dessa distante viagem, porque sabia lá encontrar o que precisava, absoluta tranquilidade, temperada pela maravilhosa omnipresença daquele mar, particularmente naquele canal entre o Faial e S. Jorge que Vitorino Nemésio imortalizara em "Mau Tempo No Canal". Também dos espaços verdejantes pejados de pacíficas vacas transmissoras daquele ritmo por que ansiava, lento, vagaroso. Na verdade foi pensando precisamente nessa incrível paisagem de S. Miguel, com as suas lagoas de uma beleza surreal, percorrendo a ilha de lés a lés num carro alugado como fizera então, parando algures enchendo a alma do verde e azul que nos preenche totalmente o olhar, ouvindo o silêncio absoluto, como só no deserto, e sentindo a brisa suave a afagár-nos a pele, que decidira fugir. Mas pela mesma razão que preferira começar pelos Açores em vez da Madeira como era sugerido, que agora optara primeiro pela Horta e deixar para depois Angra e Ponta Delgada.

Sentado na esplanada do Peter, como também aquilo mudara com a moderna marina em frente! E, tanto quanto me lembrava, também o próprio Sport! Constatação que me deixou algo nostálgico, por muito que se procure jamais se encontram as sensações vividas em determinado momento porque todas as circunstâncias, sobretudo a nossa, se alteraram. Podia sempre meter-me na camioneta de carreira que me recordava dava a volta à ilha, mesmo até junto dos Capelinhos onde fora a pé sentir a paisagem lunar, tendo depois que aguardar a próxima, para aí, finalmente, encontrar paz, mas não, estava na hora de parar para pensar e aquele sítio era o ideal. Tinha pela frente quinze dias longe de tudo e de todos, situação para mim normal exceto no que diz respeito à distância física. Não havia informado ninguém da minha ausência, pelo que estava objetivamente sózinho. Quase não resistira ao dissimulado apelo do pai de Luísa para me deslocar ao hospital visitá-la mas, no ultimo momento questionara-me, e depois? Fazê-lo seria ligar-me aquelas pessoas e ao seu futuro. Tudo o que havia acontecido fora demasiado forte, grave, para tentar fazer uma espécie de visita de cortesia, impossível!, Saíria dali sempre comprometido para o futuro. A solução seria passar uma mensagem clara de nada ter a haver com o assunto, mesmo arriscando eventuais consequências. Mas quais? O que podiam fazer? Bem vistas as coisas de facto nada fizera para a precipitação dos acontecimentos, desde o início tinha sido engolido por eles, atraído e preso numa teia diabólicamente tecida, não podia cair na armadilha. Eles sabiam-no. Era imprescíndivel esquecer aquela louca e os não menos desiquilibrados autores do "monstro". Coincidiram uma espécie de primeira sensação de alívio e o fim da primeira cerveja, uma "geometria" que não só não me era alheia como tantas vezes dela me fazia refém, aprisionando-me numa sucessão de jogos mentais, uma dialetica fruto de teses e antiteses, não raras vezes forçadas que resultavam em sínteses falsas. Também desta teia tinha que me libertar sob pena de dentro dos seus labirintos me perder! Mas esse era outro problema, para outra ocasião. Pedi a segunda cerveja e um qualquer acompanhamento para afogar o álcool que começava a sentir dominar-me, não tinha comido nada desde que saíra do continente. Pousou a garrafa em cima da mesa e juntou-lhe um belo artefacto que parecia em cristal, eventualmente numa daquelas misturas com vidro, dois pequenos golfinhos unidos pela barbatana do rabo, cujos corpos serviam para lá meter, neste caso, num tremoços, noutro amendoins. Recordei-me já ter visto aquilo algures e, no mesmo instante, lembrei-me ter sido naquela aparentemente tão remota tarde em casa de Rute, exatamente para o mesmo efeito...


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
procurar
 
comentários recentes
Pedro Proença como presidente da Liga de Clubes er...
Este mercado de transferências de futebol tem sido...
O Benfica está mesmo confiante! Ou isso ou o campe...
Goste-se ou não, Pinto da Costa é um nome que fica...
A relação entre Florentino Perez e Ronaldo já deve...
tmn - meo - PT"Os pôdres do Zé Zeinal"https://6haz...
A azia de Blatter deve ser mais que muita, ninguém...
experiências
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


mais sobre mim