semtelhas @ 16:21

Seg, 22/12/14

 

Estava bastante acabado para a idade o meu amigo Eurico, quando o vi sentado numa mesa logo à entrada do café onde combinaramos encontrarmo-nos, teria decorrido meia hora sobre o telefonema?, quase não o reconheci. Como era possível mudar tanto em tão pouco tempo? estaria ele a pensar exatamente a mesma coisa enquanto me fitava atento? Cumprimentámo-nos, ele efusivo como sempre, talvez contagiado pela agitação que chegava da manifestação no exterior mostrava-se até algo inflamado. Ao longo de largos minutos "esvaziou a saco", que aqueles filhos da puta lhe andavam a dar cabo da vida, sempre a sacar-lhe dinheiro do salário e, pior, que a mulher já há cinco anos não era colocada. Lembrava-me agora que a sua companheira também era professora. Que como esteve várias vezes de baixa por gravidez, e como, também por isso, nunca lograra passar ao quadro de efetivos, tinha ficado para trás. Ainda por cima um dos filhos, o mais velho, desatou a dar-lhe problemas de toda a ordem, era toxicodependente, de momento nem sabia dele, que provávelmente estava no estrangeiro, não seria a primeira vez. As duas seguintes estavam a estudar, mas que a mais nova começava a dar sinais de querer seguir os passos do irmão mais velho, estavam mesmo a pensar em mandá-la para a a casa da avó materna em Valpaços, e que o pequenito andava no jardim de infância. Não foi preciso mais de uma hora para entender o prematuro envelhecimento de Eurico, também ele e os seus vítimas de um país constantemente em mudanças, onde o clientelismo que domina quem governa, sistemáticamente deita por terra tudo o que fora feito anteriormente, para em nome de uma falsa melhoria, recomeçar do ponto zero permitindo assim aos amigos ganharem "rios de dinheiro" e receber as respetivas compensações. Tive pena dele, mas a minha vida também não era própriamente um "mar de rosas", e aquilo que verdadeiramente me tinha levado ali, era algo que não quisera ouvir pelo telefone, permanecia por esclarecer. É que se tratava de um assunto que poderia vir a revelar-se importante no meu futuro próximo, toda a história relacionada com Luísa fora objeto das mais variadas especulações na escola onde eu lecionara e onde Eurico continuava a lecionar, pelo que ele, até pela sua natureza de conversador, seguramente teria muitas informações úteis a esse respeito. 

Depois de lhe relatar sucintamente os últimos cinco anos da minha vida, menos os seis meses mais recentes, respondendo assim à sua pergunta, quando finalmente se deu conta de estar havia mais de uma hora a "despejar", e tu? desculpa. Esta devia ter sido a primeira pergunta. Abordei o que mais me interessava. Há um bocado estavas a dizer ao telefone de uma notícia... Fixou os olhos em mim e percebeu ao que vinha e, como sempre, deu mostras de bom caráter não se fazendo rogado antes desfiando aquilo que, inteligente, sabia eu queria ouvir. Quando saís-te, durante os primeiros tempos, o ambiente andou tenso, sabes como é, a culpa a fazer o seu caminho... Acusações, mentiras, "sacudir água dos capotes", enfim...mas passados dois ou três meses voltou tudo ao normal. Depois foi o ramram do costume. A tua exaluna lá continuou a sua "saga de matadora", chegou a falar-se do seu envolvimento com o Machado, lembras-te? Ainda mais velho que tu!... Desculpa, tu até estás muito bem, ninguém te dá a tua idade. Mas como entretanto acabou o décimo segundo e foi embora nunca mais se ouviu nada. Mais tarde soube que tinha entrado em Direito numa daquelas universidades privadas para ricos mediocres. Exclamou a sua "costela vermelha" enquanto eu pensava, deve ter sido onde conheceu o namorado. Como é comum neste género de pessoas o essencial nunca mais chegava...mexi-me nervosamente na cadeira e ele percebeu. Para aí há três ou quatro dias li no jornal uma daquelas notícias infelizmente cada vez mais habituais, a dizer que uma jovem mulher tinha entrado no hospital em estado grave depois de brutalmente agredida pelo companheiro, à porrada. Parece que o gaijo ficou lá parado, tipo paralisado a ver "a obra", e que os vizinhos ao ouviram gritos tiveram que chamar a polícia que se viu "à nora" para arrombar a porta. Quando vi o nome, sabia-o completo lá da escola, pensei logo, esta tinha que acabar assim! A partir daquele momento práticamente deixei de o escutar. Fui invadido por uma série de sentimentos contraditórios que íam desde o alívio ao dó. Agradeci-lhe, abraçámo-nos e prometemos contactos futuros que ambos sabíamos não irem acontecer, vivíamos mundos demasiado diferentes, só, como agora, por acidente.

Comecei por ligar ao seu pai que me disse tudo ter acontecido na noite em que ela se preparava para voltar lá para casa, para o seu Minimercado Luísinha. Estava toda a gente espantada como o Rafael fora capaz de fazer uma coisa daquelas, era tão calmo! não matava uma mosca! Neste momento refleti, talvez precipitada e vulgarmente, ao que uma mulher desiquilibrada pode levar um homem supostamente calmo fazer! Dizia-me com voz trémula, a Luísa estava irreconhecível, ele bateu-lhe sobretudo no rosto e no tronco, tinha várias costelas partidas, ficou louco! Quando a polícia entrou estava sentado no chão da cozinha, branco, a olhar para as mãos cheias de sangue, dele e dela, antes parece que tinha andado a esmurrar a parede, e nem sequer os viu chegar. Levaram-no, ainda não saiu da enfermaria, mas já assumiu tudo, e a primeira coisa que disse foi que queria ficar preso o resto da vida. Pensa que a matou. Calou-se. Aproveitei para perguntar, e a sua filha? Já não corre risco de vida, ao princípio havia reservas por causa da violência das pancadas, mas fizeram-lhe vários exames e está tudo bem com os orgãos vitais. O problema, um soluço, é que a cara, outro, ficou muito afetada, a minha menina tão bonita! A minha mulher não sai da cama! diseram-nos que com uma...mais que uma operação plástica conseguem dar-lhe um aspeto normal. Novo silêncio e ruídos próprios de quem chora. Também eu alterado com o que ouvia ouvi-me dizer, Calma, hoje a ciência faz recuperações incríveis. Senti-o a recompôr-se, Sabe sr. doutor? Só me tinham tratado assim duas ou três vezes, durante reuniões de pais, antes da confusão, Para nosso grande espanto, especialmente por estar naquele estado, das primeiras coisas que nos disse mal conseguiu fazer-se entender, pouco e muito baixinho, foi que gostava de ver o professor Vasco. Quando acabei de ouvir aquilo, o conteúdo e o que me pareceu um ciciado e quase imperceptível tom vingativo, foi como se algo me tivesse a sufocar a garganta, no mesmo segundo percebi que me iria, iriam culpar, que aquele seria o meu castigo pelo cometido crime da indiferença.


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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