semtelhas @ 13:06

Seg, 15/12/14

 

Espreitei pelo orifício da porta e não reconheci a pessoa exageradamente dela afastada, ainda ofegante ao cimo do lanço de escadas, o elevador só chega ao andar de baixo, por outro lado no último piso só existe a minha entrada. Só quando respondeu à minha pergunta, quem é?, liguei a figura ao pai de Luísa. A primeira ideia que me veio à cabeça foi a de estar ali pelas piores razões, ameaçar-me? agredir-me?, por outro lado, e não obstante eu ainda estar longe da boa forma física do costume, a impressão que sempre tivera daquele indíviduo, agora claramente em dificuldades para recuperar o fôlego após subir meia dúzia de escadas, fora de alguém calmo. A beligerante era a mulher. Numa ocasião durante o período mais conturbado entre nós, deslocara-me ao minimercado de que são donos e foi evidente quem "mandava lá em casa". Ambos tinham vindo ainda jovens de uma aldeia, ou vila, do interior norte, e com o apuro da venda de uns terrenos herdados, creio que dos pais ou dos avós, adquiriram uma pequena mercearia na cidade grande. Vieram já casados mas Luísa nasceu cá, e logo na altura, agora são proprietários de um modesto mas limpo e pareceu-me funcional e eficaz estabelecimento, fiquei com a impressão de ser gente limitada, aquele misto de coragem e mesquinhez muito própria da primeira geração a "sair da terra", com tudo o que tem de mau mas também de bom, como a transmissão de certos valores e sobretudo dar segurança. A filha era para eles uma espécie de "centro do mundo" onde depositavam todas as esperanças, também uma forma de a exibir como bandeira do sucesso que para eles reclamavam. Creio esse efeito ser bastante notório na distorcida personalidade  da rapariga que, para agravar o sentimento de vaidade dos pais, era de uma beleza rara e até surpreendente atendendo ao que a rodeava, não fosse o caso de ser ser tratada como uma verdadeira rainha. A maior ambição deles era que fosse juíza, tanto quanto percebi, como tudo o resto por alguns trabalhos apresentados pela minha aluna, os pais estiveram envolvidos num processo judicial numa luta fratícida pela herança dos tais terrenos, e fora uma juíza então endeusada pela sua mãe que decidira e seu favor, escolha na qual para mim nunca foi claro serem acompanhados pela filha, que na verdade me parecia sonhar muito mais com uma vida aparentemente fácil e seguramente glamorosa de modelo, dentro da qual poderia fazer valer todo o seu potencial de beleza e sedução. O perfil que lhe havia traçado nas minhas notas, à semelhança do que fazia com todos os outros alunos, era tratar-se de uma pessoa egocêntrica, vaidosa, agressiva e até, de certa forma, perigosa. Acredito que esta última parte seria já um subconsciente aviso a mim próprio, para aquilo que viria acontecer, também fruto da minha habitual atitude perante circunstâncias similares. Abri.

Desculpou-se pela intromissão. Conduzi-o a um sofá na sala e mal se sentou desabou num discurso torrencial. A minha filha disse ao companheiro que quer dar um tempo à relação, que está saturada. Continua a viver com ele, não a vejo há bastante tem, desde aquele dia em que o visitamos na Ordem. Só não fui lá antes falar consigo porque não queria correr o risco de ela me ver. Ela voltou lá? Parece que desde aquele dia as coisas nunca mais voltaram a ser as mesmas. Já nos arrependemos mil vezes de a ter levado connosco, mas parecia tão firme...até nos disse afinal ser a principal culpada do seu abandono, que era ela quem lhe devia desculpas. Estamos muito preocupados,  andava tão bem! Interrompeu-se especado a fitar-me intensamente. Algo estranho se estava a passar e eu não sabia o quê. O homem falava da filha como que se refere a alguém que não domina os seus próprios atos, de alguém perigoso com quem é preciso ter cuidado, e fazia-o num tom quase de urgência, a voz por vezes tremia-lhe e chegou a ter os olhos prestes a rebentar em lágrimas. Apesar de durante o tempo que fora minha aluna haver detetado por ali resquícios de esquizofrenia, sempre os encarara dentro dos padrões normais, quem não os tem? A Luísa está doente? Comecei por perguntar. Deixou descair a cabeça, escondeu os olhos no chão ao mesmo tempo que como se enroscava, as costas a formar um arco pronunciado,  e disse num fio de voz, quase como se estivesse a pensar alto. Senti que estava prestes a ouvir um relato que nunca havia sido transmitido a pessoas estranhas, o esforço do homem era dilacerante. Desde miúda que tem alguns problemas mentais. Nunca o revelamos porque o médico, levámo-la ao que tínhamos lá na vila, é da nossa confiança, tratou-nos a mim e à mãe desde pequenos, disse-nos que era melhor não, porque senão íam separá-la dos outras, e que o que tinha não era nada de especial...neste ponto manteve-se uns instantes em silêncio, é que eu e a mão somos primos direitos. Depois, como se já não fosse pouco tinha doze anos, por causa de uma denuncia de outros pais, descobrimos que andava a ser abusada pelo catequista desde há uns anos...na altura tivemos que levá-la a um psiquiatra que nos avisou de tendências suícidas. Calou-se, estava todo encolhido, como quem quer tornar-se invisível. Não fazia a miníma ideia, declarei pensativo enquanto procurava na memória recordações que eventualmente o houvessem indicado. Olhou-me, o senhor foi vítima da situação, mas na ocasião não quisemos assumir o problema, deixamos andar, até o acusamos, compreendemos que não nos queira ajudar, mas temos tanto medo! Não sei se para evitar que desatasse num pranto, se porque sabia muito mais que ele das mais recentes intenções de Luísa decretei, são questões ultrapassadas, eu tinha outro tipo de problemas na escola, o caso foi só a gota de água, agora temos é que nos unir para ajudar a sua filha a não fazer nenhum dispara-te. Ela de facto voltou a visitar-me e mostra intenções de voltar a tentar o não sei o quê comigo, podia ser pai dela! Aliviado, endireitou-se um pouco, e informou-me, uma das coisas que o psiquiatra nos disse naquela altura, e que mais tarde percebemos ter acontecido consigo, é que ela não aceita a rejeição, pior, não a compreende, e então entende só ser possível havendo alguma coisa de muito mau com ela própria, daí os pensamentos suícidas. Enquanto pensava, a educação que lhe deste também não ajudou nada, da minha boca saiu, pronto sr.? José, respondeu, e captando a mensagem levantou-se de imediato. Já do lado de fora da porta prometi-lhe, se ela me contactar aviso, puxou de um cartão onde sobressaíam coloridas imagens de fruta, garrafas e mais não sei o quê, bem no meio "Minimercado Luísinha", e ao fundo nºs de telefone. Também pode falar com a minha mulher, ela está a par, chama-se Maria.


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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