semtelhas @ 11:07

Sab, 29/11/14

 

O mar era de um azul luminoso onde se acendiam e logo se apagavam, e acendiam! milhões de estrelas, e estendia-se quase como se por ele se pudesse caminhar até perder de vista, o sol pairava brilhante e morno bem lá em cima, e ao meu lado sorria a minha prima A., dez, onze anos, deitada na areia paralelamente ao meu corpo que, tal como o dela, só um ano mais velho, estremecia com a emoção do desejo, do prazer contido, também práticamente desconhecido. Quando reparei bem naquele rosto já não era ela que estava ali, e o ali também já não era a praia, mas a penumbra de um quarto numa tarde quente de verão. Sobre os lençóis em total desalinho descansávamos ainda ofegantes, e eu, olhando a minha companheira, pensava que nada havia ou haveria na vida, que se comparasse áqueles momentos imediatamente após o de fazer amor com a amada, de como deveria, por isso, comprendê-los e aproveitá-los plenamente. Como era feliz!, intrínsecamente feliz enquanto uma suave euforia me invadia a alma e me despertava os sentidos de um corpo que levitava num paraíso algures.

Súbitamente pareceu-me ouvi-la querer dizer-me algo... e acordei!. Não sei quanto tempo estivera a sonhar, provávelmente desde que o médico e as enfermeiras saíram do quarto a tagarelar alegremente, deixando-me num estado de espírito que me conduzira a semelhantes recordações. A voz continuava, finalmente abri os olhos, porque não o fizera ao acordar? estaria pior? e vi Rute, a fonte do som e dos sonhos, que debruçada sobre mim me ronronava palavras aos ouvidos como se fôssemos amantes de longa data, quando não nos havíamos sequer beijado e muito menos verdadeiramente conhecido. Senti também uma estranha sensação de frio húmido no ventre que, mais tarde, haveria de fazer alguém soltar um sorriso condescendente. Como te sentes? Consegues ver-me? E ouvir-me? Perguntava num tom ansioso mesmo que tentasse disfarçá-lo. Sim,  vejo-te e ouço-te. Obrigado. Curiosamente, depois do ato racional de lhe agradecer, talvez estranhamente, ou não, o contacto visual com aquela mulher como que me trouxe à realidade, afastando-me algo bruscamente da idealização que construíra durante o sonho, não que houvesse ausência de carinho, e até atração fisíca por aquele belo rosto, olhos que falavam mais que a boca que exalava, a cêntimetros da minha, um hálito doce, mas era a realidade a chegar. E, com essa, vinham mais uma infinidade de outras verdades e circunstâncias que eu tinha urgência em conhecer. O que se passou? Vou recuperar? Vai demorar?

Não respondeu ao futuro mas esclareceu o passado. Que ficara a observar-me naquela noite depois de eu me afastar em direção ao meu carro, que se espantara ao ver a pequena carrinha, mas que lhe agradara porque lhe confirmara uma agradável sensação de simplicidade, uma espécie de foco no essencial que nos aproximava, e que a agressão acontecera precisamente durante este seu raciocínio. Mesmo antes ouvira umas vozes que inicialmente não se apercebera terem origem do mesmo local porque não via mais ninguém além de mim, mas, logo de seguida viu-me tombar e dois vultos a revistarem-me os bolsos. Sem pensar no risco que corria abriu o portão e desatou a correr em direção ao corpo caído o que, talvez por ser de noite e a escuridão não permitir aos assaltantes ver com clareza o que se estava a passar, os pôs em fuga. Antes haviam assaltado a vivenda situada em frente do lugar onde estava o meu carro, a tal toda em aço e vidro, felizmente sem ninguém nessa noite, de lá tinham trazido o bastão de basebol com que me agrediram e logo ali abandonaram, uma prenda preciosa trazida de uma viagem aos States, agora para sempre ostracizada, esquecida no fundo de um armário. Na altura comentaram com as autoridades que  possívelmente a sua casa seria a seguinte, um procedimento habitual nestes casos, quando não há alarme após o primeiro assalto, salvara-as portanto. Sorri a esta ideia francamente rebuscada. E que o resto já eu sabia porque se tinha limitado a três semanas à espera que eu desse sinal de vida nesta cama. Que hospital é este? questionei neste ponto. Que não era um hospital, mas uma Ordem com a qual a empresa dela tinha um contrato de décadas para assistência a todos os funcionários, entre os quais estava toda a família. Que já falara com os seus responsáveis no sentido do seguro associado ao acordo cobrir assistência a visitas lá a casa, endereço oficial da sede da empresa, e que não iriam haver problemas. Agradeci-lhe novamente, que não queria criar-lhe complicações, que não sabia se poderia pagar este tipo de assistência tão personalizada, que talvez fosse melhor pedir transferência para um hospital público, afinal andara anos a descontar para isso. Fui debitando lentamente estas palavras, num esforçado mas irremediávelmente débil protesto, perante uma expressão paciente de quem assiste às diabruras de uma criança, para, quando finalmente me calei, decretar em tom zombeteiro, e correr o risco de não te pores bom e eu ficar sem saber nada de ti?


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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