semtelhas @ 12:19

Seg, 28/04/14

 

É comum assistir-se entre os grandes clubes de futebol europeu, quando enfrentando ciclos menos bons, a uma postura onde prevalece uma certa sobranceria de quem sabe que o fenómeno não passa de uma mera interrupção naquilo que é a normalidade, exercer um domínio mais ou menos constante fruto do hábito de vencer. Creio que essa maneira de estar nasce de muitos anos de vitórias que acabam por implantar uma filosofia que transporta em si uma tranquilidade intrínseca, por vezes mesmo uma natureza, que é transmitida verticalmente a toda a estrutura e consubstânciada pelos jogadores enquanto em campo, sobretudo nos piores momentos e, tantas vezes, confundida com menos entrega ou desleixo. Essa maneira de sentir estende-se, obviamente aos adeptos, particularmente aos que assistem ao desempenho da equipa nas bancadas, cujas principais características resultam num binómio alto nível de exigência/confiança inabalável. De entre estes clubes de sangue azul, espécie de fidalguia futebolística, lembro-me do Real e do Barça em Espanha, dos dois principais clubes de Milão e da Juve em Itália, do United, do Arsenal e do Liverpool em Inglaterra, do Bayern na Alemanha e do Ajax na Holanda.

 

Desde há uns anos a esta parte, talvez após a conquista pela segunda vez da Liga dos Campeões e a saída de Mourinho, estou em crer que Pinto da Costa, aos poucos, tem tentado fazer o FC do Porto descolar daquela imagem regional sob e em torno da qual o clube tão bem se soube fechar fazendo dessa aparente fraqueza força, transformando a sua realidade profundamente, desde a implementação do Dragon Force a pensar no futuro, até à aposta em contratações de jovens mas cada vez mais caros jogadores, passando pela escolha, exclusiva a si próprio e com a exceção de Jesualdo contratado à ultima hora, de treinadores crescentemente menos dependentes de um objetivo, alguém à sua própria imagem, competente, disciplinador, com alguma experiência, mas agora sobretudo jovem, ambicioso, com uma postura e ideias mais cosmopolitas. Esta estratégia deve-se muito ao facto de ter a perfeita noção da realidade do espaço em que o clube se movimenta, um país com grandes limitações e a sofrer da doença da centralização, nomeadamente na área em causa onde o Benfica recolhe a esmagadora maioria dos apoios a todos os níveis, sendo o único com massa crítica que lhe confere potencial para aspirar à tal fidalguia, neste caso fruto de um, parece que irremediável, atraso no desenvolvimento do espaço em que se insere.

 

Acontece porém que esse evidente défice de desenvolvimento é particular e desgraçadamente notável na sociedade, na forma como ele se manifesta (ou como alguns diriam, e noutras matérias, não se manifesta), nomeadamente no futebol, desde sempre palco para a revelação de todas as alegrias e frustrações, muito pelo endémico atraso relativamente ao conhecimento nas outras áreas da cultura ou do entretenimento em geral. Desse mesmo, pela negativa, avassalador efeito tem sofrido o SLB durante as últimas décadas, caindo sucessivamente em erros crassos que o FCP, graças à genialidade do seu presidente, tão bem tem sabido capitalizar. No entanto, pelas razões já escritas, o clube de Lisboa conseguiu manter-se sempre à tona. A questão é, e o FCP? Resistirá a muito mais épocas como a presente? O jogo de ontem foi o paradigma do que tem acontecido este ano, mas já semeado anteriormente, excelentes jogadores, muita entrega, pouco e básicamente negativo público, também ele fidalgo mas no mau sentido, e as bolas a não entrar. Em dois ou três momentos do jogo, como agora se diz, sente-se que algo não está bem, no um para um, essencial chave numa equipa sempre dominadora, liderança na defesa, e tranquilidade em frente à baliza. Numa palavra, falta de confiança. Talvez esteja chegada a hora de PC questionar a sua estratégia, e dar um passo atrás para depois avançar dois e, voltando ás origens, juntar as tropas em volta de um regionalismo liderado por um treinador que sinta o clube com a alma toda. 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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