semtelhas @ 12:41

Qua, 09/04/14

 

Costumo levá-la por baixo de uma mais quente, mas desta vez estava calor, pelo que tive que mostrar a camisola com a sua inscrição em castelhano, "o que tens no teu copo diz muito de ti", publicidade a uma marca de whisky. Espanhol? perguntou-me ela ao lado do companheiro, ambos de meia-idade. Talvez por ter pressentido que eles não o eram, aquele sotaque, portanto mais dificílmente desmascarável, instintinvamente , ainda agora me pergunto porquê, respondi, si!

 

Somos franceses e gostaríamos de te acompanhar, se diminuires o ritmo da marcha, interveio ele com um sorriso, e conversar um pouco contigo, concluiu ela ficando ambos especados a olhar-me, obrigando-me a, contrariado, parar. Face ao meu ar interrogador continuou, estamos reformados e andamos pela europa a passear de comboio, por vezes também de avião como para aqui, e, a convite de um amigo nosso que tem uma pequena agência de viagens, estamos a tentar recolher informações úteis para ele escrever nos seus prospetos publicitários tentando cativar clientes. Quando te vimos ao longe pensamos que seria interessante uma opinião do vizinho espanhol sobre os portugueses. Um olhar que pode dár-nos novidades diferentes das que já recolhemos. Uma das facetas que queremos retratar, quem sabe até para outras utilizações, é sobre o caráter das pessoas. Tinha falado em francês pelo que lhe respondi na mesma língua, só vou até ali, disse-lhes apontando para a capela junto ao mar, e depois tenho que me ir embora

 

Metemo-nos a caminho, demasiado devagar para o meu gosto, mas que bem que falas francês! sem aquele sotaque tão próprio dos espanhóis, atirou de imediato, continuando, acreditas na mensagem que trazes na camisola?... Não só não acredito como sou completamente contra todo o tipo de rótulos, acontece é que gosto de usufruir das situações até ao limite e gastar as coisas até ao fim. Talvez satisfeitos em verem realizado o seu desejo de me conhecerem um pouco, graças ao rápido mas eficaz traço de caráter que lhes oferecera de mim próprio, deram inicio a um monólogo, sempre ela, como que introdutório daquilo que esperavam fosse o minha visão de espanhol do que são os portugueses. Não sei o que pensas mas nós, os franceses somos sobretudo vaidosos, arrogantes porque inseguros, e muito introspetivos. Já os teus compatriotas são exatamente o oposto, práticos, temerários e superextrovertidos. Concordas? E sem me deixar responder, os ingleses são valentes, snobes e francos. Os alemães frios, eficientes e cismáticos. Já os nórdicos são tristes, azedos e egoístas, tudo ao contrário dos italianos, alegres, positivos e solidários. Calou-se. Era a minha vez.

 

Acredito que a principal razão porque querem a minha opinião sobre o que é ser português deve-se à dificuldade que tiveram, tal como fizeram com os outros, em encontrar variáveis claramente definidoras, características bem marcadas, e esse facto, só por si, responde à questão, é uma gente volúvel. Em qualquer dos casos o meio ambiente é sempre fundamental naquilo que os indígenas são e, no caso dos portugueses, o clima de uma maneira geral ameno e a decisiva presença do mar, influencíam imenso a sua maneira de estar, morna e sonhadora, e que os torna naquilo que são. Sempre com os olhos postos no que estará para além da linha do horizonte marítimo que incansávelmente observam nostálgicos. Uma dúvida que se semeia, uma situação transitória que se eterniza, o só estar bem onde não se está, resultam numa espécie de insegurança latente, que sempre disfarçam transformando-a em simpatia rápidamente adulterada em subserviência, que acaba em sentimentos reprimidos como a inveja, e consubstânciados na arte do sarcasmo e maldicência na qual são mestres. Maneira de estar que os dotou de uma sageza que lhes permite sábia e inteligentemente, gerir as suas vidas dentro de parâmetros de tranquilidade onde todo o tipo de excesso é repudiado. Di-lo, calma e amigávelmente um falso espanhol e português autêntico. Tínhamos chegado. Afastei-me acenando-lhes o braço como despedida, perante o olhar medianamente surpreendido e absoluto silêncio do simpático casal francês.

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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