semtelhas @ 14:07

Sex, 01/05/15

 

Lembro-me de quando era adolescente achar que tinha um certo jeito para pôr os discos certos, dar uma sequência que me parecia adequada de forma a manter, na maior parte dos casos só para mim próprio, um certo entusiasmo com a música que ouvia, opinião em que obviamente era mais um entre tantos, apesar de ter chegado a utilizar dois aparelhos em simultâneo. Por esses dias, finais dos anos sessenta princípios dos setenta, julgo que a figura do DJ ainda não era conhecida tal qual a reconhecemos hoje, uma espécie de mago com a arte e engenho suficientes para, na esmagadora maioria das vezes com a música de outros, manter os níveis de interesse no que se está ouvir e dançar suficientemente altos, não raras vezes levando mesmo quase ao delírio as pequenas multidões. Hoje recorrendo à mais recente tecnologia, sofisticadas aparelhagens, é possível fazer perdurar a excitação ao longo de imenso tempo, basta para isso que sempre que uma música entra naquela fase menos ativa fazer disparar uma outra. O segredo está em fazer soar permanentemente um ritmo forte e bem definido, porque tal como os nossos mais ancestrais ascendentes também nós não resistimos a esse apelo primordial que, segundo se pensa, um dia um homem descobriu no interior do seu peito. Quem não conhece as célebres danças rituais dos povos primitivos ao som do tambor? Ou a utilização deste mesmo instrumento como das primeiras formas de comunicação à distância?

 

Não é por isso de estranhar este retorno às origens consubstânciado nomeadamente pela música House nas suas diversas variantes, bem como tudo o que arrasta atrás, tal como dantes autênticas tribos ululantes por essas superdiscotecas mundo fora. É sabido que, como atualmente, também outrora nessas ocasiões de celebração, eram usadas as mais variadas substâncias afim de potenciar a efeito pretensamente mágico do momento, chegando a atingir-se verdadeiros climax's coletivos, provávelmente a diferença esteja na pureza dessas substâncias, na frequência com que esses atos eram praticados, só em dias de festa, ou então, tal como hoje, boa parte daquela gente acabava por pagar caro os excessos cometidos. Para além disso também aqui se assiste à mistura de certos lobos disfarçados com a pele dos carneiros que são o resto do rebanho no seu meio, com tudo o que tal pode significar. A figura do DJ é central no fenómeno, e dado que dele fazem vida, um permanente estado festivo, é suposto viverem numa espécie de Éden. É exatamente essa ideia que o filme com esse mesmo título, Éden, pretende desmontar, e fá-lo com tal eficácia que quase torna irresístivel a quem a ele assiste a vontade de alinhar, e deixar-se perder, naqueles ritmos com tanto de repetitivos quanto de alucinantes, um convite à fuga que pode tornar o retorno bem doloroso!

 

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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