semtelhas @ 12:02

Dom, 08/02/15

 

Haverão poucas palavras cujo significado foi mais vezes, e sobretudo mais profundamente alterado, corrompido, viciado, conspurcado, que amor. No entanto não há nenhuma que seja mais cristalina naquilo que pretende transmitir, a dificuldade estará precisamente na sua natureza objetiva, isto é exatamente o facto de se tratar de uma palavra, logo sujeita às mais variades adulterações, truques e aproveitamentos. Talvez seja essa a razão para que melhor, muito melhor, provávelmente até a única forma de realmente o atingir em toda a sua profundidade e dimensão, seja praticando-o, consubstânciando-o em ações concretas.

 

Foi exatamente isto que o realizador de "Boyhood" fez. Fê-lo na forma, o filme é em si mesmo um magníficamente conseguido ato de amor, quantas vezes se terá assistido a esta forma de filmar, recorrendo às imagens reais de quatro personagens em quatro momentos específicos no espaço de doze anos? Obtendo assim, especialmente no caso de um rapaz luminoso dos seis aos dezoito anos, e da sua irmã uns dois anos mais velha, possuidora de uma inteligência acutilante, mas também dos pais. Mas onde a fita se eleva ao brilhantismo é no seu conteúdo. Duas pessoas completamente diferentes, cada uma delas paradigma, por um lado do responsável organizadinho, organizadinha neste caso, por outro do idealista irresponsável, por isso absolutamente incompatíveis debaixo do mesmo teto, geram, trocando as personalidades no caso dos géneros, dois espelhos de cada um deles. Uma vida de saltimbancos, de poucos altos e muitos baixos sob o ponto de vista do prática do dia-a-dia, cujo final, percorrendo os mesmos caminhos de toda a gente, revela os mesmissímos resultados não obstante a mistura das respetivas naturezas. Concretizando, o rapaz evolui de um pragmatismo a raiar a mudez para um futuro desejado e feliz, a rapariga de umas expressividade e sucesso notáveis para uma vulgaridade morna, tal qual como os progenitores, a mãe a caminho do desatino, o pai da contenção. Resumindo, tinha tudo para dar errado, para aquelas crianças serem uma espécie de cardápio de todos os ditos traumas de infância, tanto mais que foram sistemáticamente sujeitos ao convívio com os perigosos companheiros, a atração dos opostos, que a mãe sucessivamente vai metendo lá em casa. Mas não! Bem pelo contrário. E porquê? Porque foram sempre profundamente amados, independentemente das circunstâncias da vida a cada momento. 

 

Provávelmente no mais alto momento deste belo filme o filho pergunta ao pai, what's the point?, qual é o sentido da existência? e obtém como resposta, não sei, ninguém sabe, andamos todos para aqui a improvisar. A melhor maneira de a suportar será porventura como o grita tranquilamente, é o amor estúpidos!

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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