semtelhas @ 14:41

Sex, 25/04/14

 

Da mesma moeda, daquilo em que se tornou um país após quatro décadas de modificações profundas, Mário Soares e Cavaco Silva. Como em qualquer moeda ambos incontornáveis mas portadores de mensagens e, neste caso, de atitudes resultantes de perspetivas de vida completamente distintas e, curiosamente, com personalidades que se cruzam em percursos e desenlaces porventura opostos ao que seria mais razoável esperar. Um proveniente de família abastada, informada e culta, que escolhe o caminho da defesa dos mais desprotegidos, enfrentando um regime que o remete ao silêncio forçado e ao exílio, de cujo regresso vem a funcionar como esperança e mesmo consubstanciação do lado civil das aspirações do golpe militar. O outro, nascido no seio de uma classe média que esbracejava dentro desse mesmo regime totalitário, a ele mais ou menos indiferente, empreendedora mas pouco mais que ignorante mas apostando na educação dos filhos, que tendo tudo para progredir dentro desse mesmo sistema político fechado e redutor em toda a linha, é atropelado por uma revolução, e acaba por se tornar numa espécie de sucedâneo daquilo que de mais importante aquele continha, um conservadorismo que elege as classes dominantes como parceiras, em detrimento das maiorias que devem limitar-se a cumprir, recatadamente, o seu papel de meros seguidores.

 

Claramente as duas personagens mais influentes no que Portugal é hoje, Soares nos primeiros vinte anos e Cavaco nos segundos, coexistiram no poder em boa parte deles, sempre dando provas dessa forma radicalmente diferente na maneira como entendem o exercício da democracia. Dir-se-á que é precisamente desse equilibrio, do qual aliás o povo português é recorrentemente elogiado ou acusado dependendo do ponto de vista, que nasce um país completamente renovado e francamente melhor, naquilo que são os elementos essenciais numa sociedade desenvolvida, essa é no entanto uma conclusão que jamais poderá ser confirmada pela apresentação de factos concretos. Aquilo que sempre obteremos são leituras diferentes de uma mesma realidade e, a essa, ninguém pode escapar, qualquer semelhança entre o Portugal de hoje e o de há quarenta anos atrás é pura coincidência. A discussão poderá fazer-se relativamente a onde poderíamos estar, e aí entramos no campo estéril das hipóteses.

 

Outra coisa bem diferente é a resposta à pergunta, qual a estratégia mais adequada a preparar o país para as futuras gerações? Porque aí mais que legítimo é indispensável prever e traçar políticas que protegam os vindouros de uma vida pior do que aquela que a maior parte de nós viveu. E assistir, hoje, à comemoração do 25 de Abril de 74, pela primeira vez, em dois palcos distintos, ambos com a presença de protagonistas dessa aparentemente longínqua mas, por outro lado, face a uma sociedade, num quadro de exigências completamente diferente é certo, mas cujos sintomas são tão parecidos e dentro dos quais a presença do FMI é prova maior, não augura nada de bom. E, mais uma vez, lá estavam como ícones desse olhar em quase tudo distinto sobre o rumo que as coisas devem tomar, Mário Soares juntamente com os capitães de Abril numa manisfestação marginal ao regime no Largo do Carmo, onde quarenta anos atrás Marcelo Caetano se rendeu terminando assim de vez como regime fascista, e Cavaco Silva, enquanto presidente da república, a presidir às comemorações oficiais na Assembleia da República. O que disseram só veio confirmar o que todos já conhecem sobre as suas ideias para o futuro, houve contudo algo absolutamente diverso entre as duas comemorações, uma francamente popular, a outra totalmente regimental, e essa realidade, tal como o Portugal de hoje nada ter a haver com o de outrora, também há-de querer significar alguma coisa.

 


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
procurar
 
comentários recentes
Pedro Proença como presidente da Liga de Clubes er...
Este mercado de transferências de futebol tem sido...
O Benfica está mesmo confiante! Ou isso ou o campe...
Goste-se ou não, Pinto da Costa é um nome que fica...
A relação entre Florentino Perez e Ronaldo já deve...
tmn - meo - PT"Os pôdres do Zé Zeinal"https://6haz...
A azia de Blatter deve ser mais que muita, ninguém...
experiências
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


mais sobre mim