semtelhas @ 11:49

Sex, 19/06/15

 

O exército dos que vegetam ao longo dos dias, dos que passam completamente ao lado da vida, algo mais que a simples existência consubstânciada pela chamada dignidade, resume-se a uns quantos milhares em cada uma das grandes urbes por esse mundo fora, paradigmas da sociedade atual, mas não pára de aumentar, e a transferência proveniente da dita classe média engorda-o a um ritmo assustador. Quando se olha com alguma atenção para o que se está a passar só se pode ficar apreensivo, com esta aparentemente insuperável tendência para as pessoas serem cada vez mais uma espécie de material excessivo, qualquer coisa que sobra mais e mais face ao galopante avanço da tecnologia na suas variadas vertentes.

 

Constituído por pessoas caídas na indigência pelas razões mais comuns, mas também por muitas outras por motivos há bem pouco tempo completamente insuspeitos, movimentam-se erráticamente na luta pela sobrevivência como se animais irracionais se tratassem, mas não são, e aí reside toda a diferença. É na constatação desse facto, uma espécie de queda na capacidade de raciocinar, que mora toda a tragédia da situação, porque nesses momentos são despoletados os mais profundos sentimentos de revolta, a questão, ou uma delas, passa pela maneira como se manifestam, e isso depende, naturalmente do meio em que se está inserido e das circunstâncias individuais e coletivas do fenómeno, qual o seu estado de desenvolvimento, qual o nível de infestação desta epidemia dos nossos dias.

 

O filme "Cães Errantes" trata o tema magistralmente. Prescindindo em absoluto do lado recreativo do sétima arte, como poderia fazê-lo quando é precisamente também para desvendar o embuste que representa a utilização daquela com fins inconfessáveis, onde alinha obedientemente ao lado de tudo o resto, aquelas cerca de duas horas são muito mais um ensaio sobre a nova pobreza que outra coisa qualquer. Tema desde sempre abordado, como esquecer o tratamento cinematográfico notável dado à "porca miséria" pelo italianos, e muito mais recentemente toda uma série de filmes sobretudo europeus mas também norte americanos indpendentes sobre a matéria? Mas talvez nunca com tanta pungência como nesta fita. De uma crueza levada ao extremo convoca o espetador para uma realidade a que tudo o que o rodeia, literalmente, o convida a fugir, mas o desafio é exatamente esse, puxar-nos para baixo, ser uma coisa não uma pessoa para ganhar o pão, engoli-lo sôfregamente, sentir o frio a chuva, a precaridade suja, a responsabilidade da proteção impossível, a queda no desespero perante o cansaço inevitável face a um mundo aparentemente brilhante que acontece ali mesmo ao lado e de que já se fez parte, e finalmente, o pior de tudo, a impossibilidade do amor, noção tão desgraçadamente depurada que só deixa sobrar o afeto e, mesmo esse, objeto da inveja dos que ainda navegam à superficíe, mas já na linha de água.

 

Todo o filme é construído com um realismo que roça a crueldade, o espetador tem que se obrigar a assistir aquilo, condição indispensável para se passar para o lado de lá, de facto. Algumas cenas só dão duas escolhas, ou pura e simplesmente a rejeição, o que muitas pessoas fazem, ou a resistência que acaba, quase hipnoticamente, por nos transportar para o lado daqueles incríveis atores, porque na verdade as circunstâncias a que o realizador nos submete não deixam outra saída, como que com eles solidários, finalmente compreendendo a mensagem, incorporando-a. É daqueles filmes que mudam o olhar sobre o que nos rodeia, não cobrindo-a com uma névoa supostamente protetora, mas antes descodificando uma realidade incontornável à qual não adianta tentar escapar, sob pena do sofrimento vir a ser muito maior. É que ver é sempre muito melhor que simplesmente olhar.

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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