semtelhas @ 15:46

Seg, 23/06/14

 

Como uma metáfora dos dias que correm lá estavam eles a abanar ao vento, sacos plásticos Pingo Doce, Continente, Mini-Preço, Lidle, etc., mais ou menos esfarrapados, não faz mal, haverão sempre aos milhões para os substituir, vão fazendo o que podem no lugar dos habituais coloridos papeis de seda transformados em enfeites e balões. Pendurados ao longo de cordas que atravessam a área central, comum a todos os moradores do Bairro do Eusébio, até veio aqui o rei em pessoa inaugurá-lo, não vai muito tempo durante um outro reinado, talvez dos políticos paradigmas dos tais dias, o populistotecnocrático Luís Filipe Meneses, anunciam a maior festa popular do ano por estes lados, o S. João. Também os enormes fogareiros encardidos estão já a postos, bem como uns quantos altifalantes que, pelo aspeto, não inspiram grande confiança, mas, apesar da sardinha estar pela hora da morte, faz doer a alma e chorar as pedras da calçada, ouvir toda a gente à venda dela ligada justificar o facto de hoje custar três vezes mais que na semana passada!, logo hão-de berrar a plenos pulmões o Toni Carreira que merecemos, embalando o povo enquanto festeja tirando barriga de misérias, mesmo que se esteja a falar de simples sardinhas, qual será hoje a comida dos pobres?, e vinho daquele que melhor trabalha para a cirrose.

 

Lado a lado com as marcas das novas catedrais e/ou babel do nosso (des)contentamento, origem e destino de quase todas as nossas alegrias e frustrações, a felicidade possível encontrada na incrível promoção ou cantado magnífico saldo do pão da nossa sobrevivência, mas também a frustrante inveja, nascida da impossibilidade de adquirir o que os publicitários nos gritam aos ouvidos de manhã à noite, um caminho repetidamente percorrido sempre esperançosa novidade à partida, invariávelmente viasacra da rotina à chegada, drapejam bandeiras portuguesas que imploram momentos de euforia. Afinal estamos no Bairro da Macaca, como, fazendo jus à verdadeira religião que o futebol é entre nós, como alguns lhe chamam alardeando uma já muito antiga guerra sem quartel, para muitos autêntica cruzada. Sacos e bandeiras, lado a lado, rivalizam em cores e ruídos, mas sobretudo como ícones destes tristes tempos do pão e circo a que nos querem remeter, agora já não grosseiramente aplaudindo a degola dos inocentes pelos leões na arena, mas como que permanentemente surfando à superfície da realidade, uma imensa vaga de promessas nunca cumpridas, numa ilusão e insatisfação constantes, sem que por isso não deixem de obter e até refinar os mesmos objetivos de sempre, enganar e sugar os mais frágeis.

 

Ainda ontem, quando Varela, mesmo que habitualmente pouco dado a grandes folias ou teatralidades, quando marcou aquele extemporâneo golo, ficou-lhe estampado no rosto não alegria, ou sequer o sentimento geral de ser tardio, mas a inevitabilidade de o fazer face ao único centro bem executado durante toda a partida, talvez por com isso ter comprado uns quantos mais que certo inglórios dias de sacríficio aos nossos herois, quando, por exemplo, os aleijadinhos, quase metade!, e onde se inclui o nosso mais-que-tudo, o atualmente pouco omnipotente deus Cris, já se preparavam para se remeterem a gelos. É que quando se iniciar a préépoca, é importante estarem aptos a dar o seu máximo contributo e empenho pela entidade que lhes paga, de entre as quais aliás alguns patrões já vieram avisar para não lhes estragarem a mercadoria. O futebol ao mais alto nível será porventura um dos melhores exemplos do que o sacrosanto mercado está a fazer à sociedade. Tal como em quase todas as outras áreas, sociais, económicas ou culturais, também no desporto, quiçá o seu último reduto, está a vender a paixão e o amor ao diabo, que é como quem diz ao poder do dinheiro, e este mundial está nesse aspeto a ser paradigmático. Não é só uma questão de clima que está a devolver inesperadamente cedo aos seus países de origem algumas das melhores seleções, é também crescentemente óbvio que as leis do mercado dominam absolutamente. Grande parte dos grandes artistas da bola ou nem sequer lá foram, ou regressarão precocemente porque extraordináriamente desgastados, após épocas super preenchidas a encher os bolsos dos patrões e patrocinadores. E assim se vai liquidando o pouco que já resta de valores, indispensáveis farois a seguir, ou sentimentos verdadeiramente genuínos. Mas não hajam ilusões, para os mandantes destes crimes haverão sempre outras galinhas dos ovos de ouro, já quanto aos castigos serão sempre os mesmos a cumpri-los.

 


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