semtelhas @ 11:43

Dom, 28/06/15

 

Quando observando a sociedade francesa do séc. XIX em todas as suas contradições Balzac resolveu chamar Comédia Humana ao conjunto de obras a que tal o inspirou, estava longe de imaginar o que aí vinha, na verdade ainda não tinha visto nada!

 

Um belo dia uns quantos portugueses depois de muitas semanas dentro de uma "casca de noz", finalmente chegados ao seu destino e ainda ao largo olhando a bela paisagem que se lhes oferecia terão exclamado: boa baía!. Bombaim. Estava encontrado o nome para aquele pedaço de terra que, umas centenas de anos e muito milhões de pessoas depois, haveria de passar a ser conhecida por Mumbai.

 

Se vista de longe parece quase normal, uma imensa urbe que se estende ao longo de muitos quilómetros de milhares de casas, centenas de arranhacéus, enormes avenidas e um sem fim de ruas e ruelas. Para além dos vinte milhões que circulam como formigas ora indolentes ora nervosas por todo o lado, podem ver-se milhares de veículos a serpentear, desde pequenas bicicletas e motorizadas, um sem numero de carros, até enormes composições de comboios. Comum a tudo isto uma sensação de decrepitude resiliente, algo que parece ir desfazer-se ao primeiro impacto mas evidentemente indestrutível desde sempre e ainda por muito tempo. 

 

Ele está a exercitar-se em frente ao espelho, diz que é para ganhar músculo para poder vencer na luta diária que é entrar no comboio, um corpo-a-corpo que só quem está bem preparado tem hipóteses de levar a cabo e assim pôr-se a caminho do trabalho. À volta a desorganização, na perspetiva de organização ocidental, naturalmente, é total, várias crianças andam por ali a deambular e a mulher, com um bébe ao colo, fita-o com um sorriso de orgulho nos lábios. Ele conta-nos que sonham comprar um pequeno carro, atualmente deslocam-se pendurados numa motita, para evitarem o pesadelo dos transportes públicos. Como chamará a intermináveis filas de trânsito em ambiente totalmente caótico? Quando lhe colocaram a questão da poluição, o que ali os levou, afirma: isso é coisa de europeus que já têm tudo, e depois foram eles que a iniciaram. A nós a poluição só nos começa a preocupar quando temos o estômago cheio, e isso é raro. Disse.

 

Seguimos dentro de um automóvel mediano para os critérios ocidentais mas quase de luxo ali. Sentada confortávelmente no banco traseiro segue uma mulher com aspeto distinto, se comparada com a esmagadora maioria, que se vai queixando do tresloucado aumento de tráfego no seu bairro, um dos mais chiques da cidade, outrora pleno de árvores onde viviam alegremente papagaios, pardais e outros que tais, conta nostálgica, mostrando-se revoltada e frontalmente contra a intenção dos responsáveis da cidade de nele construirem um enorme viaduto, à semelhança de muitos outros que polulam feitos e por fazer em todo o lado, supostamente precisamente para o controlarem, ao tráfego. Vê-mo-la na sua casa de aspeto razoávelmente limpo e agradável à vista, contactar telefonicamente com os vizinhos ricos num esforço associativo afim de evitarem a construção da obra, dizem que a solução está em não permitir a circulação de tantas viaturas o que, consequentemente, baixará os perturbadores níveis de poluição.

 

Estamos numa depedência pública de onde se dirigem as construções urbanas e a confusão é grande. Se por um lado faltam uma série de documentos que é suposto serem indispensáveis para o avanço dos trabalhos, por outro uns quantos telefonemas feitos ali e agora, garantem que a mesma pode avançar porque em breve tudo será entregue. O responsável mostra-se renitente exigindo visitar o local da obra para se inteirar das coisas, nomeadamente, tal como manda a lei, se por cada x metros de via está a ser plantada uma árvore, assim se combate a poluição por aqueles lados...Começa por se dirigir ao campo de onde estão a ser retiradas as árvores e constata que quem o faz não percebe nada do assunto, limita-se a envolver a raiz com um pano húmido que em breves minutos, durante o transporte, estará seco. Uma vez no sítio da construção descobre que o espaço entre árvores é dez vezes maior que o combinado. Alguém se desculpa que não havia árvores suficientes e ele encolhe os ombros.

 

Assistimos a uma reunião numa espécie de câmara municipal onde todas as partes estão reunidas para decidirem se a construção do viaduto avança ou não. A senhora rica manda os milhares de pobres andarem de transportes públicos, estes respondem-lhe que a Índia é uma democracia, ninguém é dono do espaço que pertence a todos. Na mesa os dirigentes permanecem quase calados, impotentes e aparentemente intimidados, mas certos que será feita a sua vontade e que esta corresponderá muito mais às necessidades de hoje do que às preocupações de amanhã. Lá fora muitos milhões, em 2020 a enorme metrópole será a maior do globo, atropelam-se em busca de uma sobrevivência pouco mais que básica, em condições de higiene e segurança verdadeiramente inacreditáveis se analisada do ponto de vista do primeiro mundo mas...e se olhadas de um qualquer recôndito lugar em Àfrica ou na Ásia? Não serão aceitáveis e até desejáveis? Isto de não julgar sempre através do próprio umbigo pode ser surpreendente. Tal como, se calhar, o futuro que nos espera. Uma comédia?

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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