semtelhas @ 13:31

Qua, 22/01/14

 

O dia estava muito quente, o que não admirava se se tiver em conta que se tratava de Agosto. Chegara da praia cansado após o exercicío que não dispenso mesmo em dias em que o tempo não está particularmente simpático, seja verão ou inverno.Tinha acabado de  meter o carro na garagem e preparava-me para fechar o portão, quando ouço um som algures entre o miar e o piar, espreito para a rua e vejo um gatito escanzelado que se movia com dificuldade descendo na minha direção. Quando estava a uns três metros parou e pôs-se a observar-me, entretanto baixara-me e olhava-o na expectativa do que faria. Não precisou mais de dez segundos para se decidir a entrar na garagem. Estás mais morto que vivo, respondeu-me com mais duas ou três piadelas como de um pardalito se tratásse, e seguiu-me até ao jardim. Quando voltei com uma mão cheia de biscoitos do gato lá de casa e as pousei em cima de uma patela da relva, foi como se tivesse ligado o bicho, devorou tudo num instante, uma dose que correspondia a metade do que o lá de dentro costuma comer diáriamente, pelo que dupliquei... e tripliquei a ração, quantidade que finalmente pareceu satisfazê-lo. Esteve seguramente cinco minutos a beber água sem levantar a cabeça da embalagem de plástico que utilizei para o efeito, e então, só então, me dispensou a atenção que eu já fizera por merecer e saltou para o meu lado, no baloiço onde eu sentado me perguntava como era possível uma coisa tão pequena comer e beber tanto! Não demorou nada para que se instalásse em cima das minhas pernas onde se deixou ficar longos minutos com a minha permissão, porque senti que naquele momento se estava a definir a natureza de uma ligação homem/bicho. Os quinze dias seguintes passou-os ali, a dormir debaixo das árvores, brincando connnosco, cada vez melhor de saúde ganhava confiança a olhos vistos, não foi portanto de estranhar que  começasse a explorar as saídas e a medir o salto. 

 

De temperamento francamente dócil e ainda muito ingénuo, quando finalmente resolveu voltar de onde tinha vindo, agora fortalecido, teve que enfrentar os primos bem mais velhos e experientes e os resultados não se fizeram esperar. Desde esse dia já tivémos que o curar de uma diarreia feroz que só depois compreendi estar na origem daquela voracidade quando comia logo no inicío, de um corte profundo que fez numa das almofadas de uma das patas, de uma dor numa das pernas dianteiras, que presumimos resultado dos saltos considerávelmente altos que tem que dar sobre o muro quando sai e entra no jardim, e de dois ou três resfriados que desconfiámos ser mais ou menos crónicos e que podem indiciar problemas maiores. Por ele talvez não saísse, não temos a certeza, a verdade é que se nos mantivérmos por perto a única circunstância em que, e nem sempre, sai decididamente, é quando ouve a buzina da carrinha do peixeiro aos gritos a suplicar pela clientela (Quando o homem estaciona a viatura e dá descanso à buzina, já o Chico o espera, calmamente sentado sobre as patas traseiras, ponta do rabo geométricamente perfeita sobre as dianteiras, como se sempre ali tivesse estado. É sempre o primeiro a chegar pelo que recebe os cumprimentos da restante clientela e um primeiro peixito que devora rápidamente, tendo que esperar pelo segundo, olhos fixos no peixeiro, até que este, mesmo antes de entrar na carrinha, lhe indique o local para onde já o tinha atirado. Pergunto-me, onde páram todos os outros gatos que costumo ver por aqui?). Como não podemos recolhê-lho dentro de casa porque o outro gato já é adulto, está castrado, e porque, em boa verdade, muitas vezes me arrependi de o ter mandado esterilizar, consciente de que assim o transformei numa espécie de brinquedo, optámos por deixar este à solta mesmo arriscando um desgosto a qualquer momento. Por isso, para compensar, lá lhe vamos dando algum do nosso tempo que ele aproveita gulosamente exigindo caricías constantes e, preferencialmente, com ele tranquilamente deitado em cima de nós. Está um grande e bonito gato! Branco, malhado com manchas pardas em tonalidades que vão do preto passando por vários cinzentos. Ainda não conseguimos descobrir se gosta mais de comer ou da nossa companhia, sendo que para ele o ideal parece ser fazer-lhe festas enquanto come entre rápidas e espremidas olhadelas. Em quase meio ano passou uma noite fora, durante a qual mal dormimos sentindo o ferrão da culpa por não o termos recolhido na garagem, não ao princípio da noite, mas daquela última vez que apareceu a meio da tarde! Que raio de bicho nos mord...escolheu?


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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