semtelhas @ 15:40

Sex, 20/06/14

 

Entraram no restaurante como dois chihuahua fêmeas, farejantes e a olhar nervosamente para todos os lados. Estávamos sózinhos na sala retangular de duas fiadas de meia dúzia de mesas encostadas a ambas as paredes, ao fundo uma varanda com as portadas abertas para a rua, e, nesse extremo, pendurado num dos cantos quase junto ao teto um ecrã de televisão onde passava um jogo de futebol. Sentados na fila mais afastada da televisão, a duas mesas da varanda, esperávamos já resignados.

 

- Queres ficar aqui , apontando para uma mesa no meio da sala na fila do ecrã, ou queres antes ir para ali, entre nós e a varanda, para veres o futebol? Gostas tanto! Disse uma delas rindo enquanto nos lançava um olhar cúmplice e eu as mirava com o rabo do olho, de meia idade, do tipo presumido e provocador, nariz empinado, magritas, dois lamentáveis cuzitos, daqueles onde só sobra um bocadito de substância palpável, no correr da triste divisória entre aquilo que já foram nádegas.

 

A que supostamente gostava de futebol acabou por se sentar de costas, porque a outra apressou-se a ocupar uma das cadeiras que ficava de frente empurrando-a ostensivamente contra a de quem comigo almoçava. Perante a nossa teimosa insistência em ignorá-las, muito barulhentas e irrequietas para o nosso gosto, desatam a falar muito alto como se aquilo estivesse a abarrotar de gente e precisassem de o fazer para se ouvirem.

 

- Tem verdji meu filho? Cê não está á vê? Lá no Brasiu temos uma láranja, essa é que vai ficá lá bem. Falava ao telemóvel a dita amante da bola com, presumívelmente, algum familiar que, de longe, procurava afanosamente satisfazer os desejos da senhora que se mostrava extremamente picuínhas, a ponto de só ter desligado o célólá imediatamente antes de se levantar para se ir embora.

 

- Queremos um frango, mas bem assado. Uma cerveja e uma água tónica. E sem qualquer intervalo deixando o empregado atónito, A J. chega amanhã dos Estados Unidos. Parece que gostou muito do México. Atirava despachadamente para o ar a irmã portuguesa, enquanto a emigrante do outro lado do atlântico mantinha a conversa telefónica. Pareciam tratar-se de duas irmãs numa compita, concerteza com décadas, para demonstrarem uma à outra e ao mundo em geral, como são importantes, e qual delas o é mais.

 

Eis que chega o "pito". Estas batatas não estão fritas, estão cozidas! Eu quando as faço lá em casa ficam louras. Gosto delas tostadas. O empregado, é daquela batata branca, se as deixámos muito tempo na fritadeira os clientes queixam-se que ficam muito escuras...mas eu vou pedir outras mais passadas. Deixa o empregado afastar-se. E este frango não sabe a nada! Entretanto a outra sempre ao telemóvel, está á percebê meu filho?

 

Mais um bocado de uma a falar sózinha e a outra a dar instruções telefónicamente e... Cá estão! Está bem assim? Pergunta o rapaz conciliador enquanto a imagino a inspecionar a obra, o frango não sabe a nada! atira como resposta. E ele, grave, sem conseguir esconder uma pontinha de orgulho, afinal estamos num das mais conceituadas casas do Porto na venda de frango assado, só os temperamos com sal e limão! E vai-se embora cabisbaixo.

 

O mais baixo que me foi possível, quase num sussurro, sabia que era isso que procuravam, não resisti a comentar com a minha acompanhante, esta gente vem a uma espécie de tasca barata com uma apresentação razoável, e exige serviço de cinco estrelas por "dez reis de mel coado"...foi quanto bastou para a beligerante criatura passar do rosnar ao ladrar! Tínha-me esquecido que esta bicharada ouve cem vezes mais, que está sempre de antenas alerta, e como entretanto chegaram mais três pessoas, estas felizmente "normais" como nós, mas que, fatalmente, se sentaram na mesa a seguir à que ocupavamos pelo que ficámos ensanduíchados numa sala vazia...ela disparou, E como as pessoas comem tudo! Provocou vingativa enquanto penso nos observava, a nós e aos meus vizinhos de trás, e eu, ali a pouco mais de um metro delas, mas agora quedo e mudo, sem descolar da televisão o que as irritava profundamente. Insistindo, Olha para aqui! Apalpando a toalha de papel castanho que cobria a de tecido. Isto é daquele papel barato, reciclado, quando descer vou perguntar ao dono se não tem dinheiro para toalhas de pano. Este é o pior restaurante onde já fui! E repetindo numa falsa gargalhada furiosa, "alto e bom som", este é o pior restaurante onde já fui! Os de trás murmuraram qualquer coisa, na minha mesa atentíssimos à bola, e a outra, Você faz favô di pegá essa meu amô?

 

Levantaram-se e a mais ressabiada ainda teve tempo para atirar, mesmo ao meu lado, Vou sair daqui para fora! Estoico, resisti a responder-lhe verbalmente como me apetecia, porque para este tipo de pessoas, sem o minímo respeito pelos outros, o melhor remédio é mesmo dar-lhes o tratamento adequado áquilo que são, orgulhosas e fedorentas cagalhotas, sim porque nem a cagalhões chegam! que é evitá-las, e esperar pacientemente que, fumegantes, vão empestar o ar para outro lado.

  


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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