semtelhas @ 12:01

Qua, 14/01/15

 

Compreende-se o erro que é colar os atentados terroristas às crescentes más condições de vida da maioria das pessoas. Desde logo pelo inimaginável perigo que tal representaria, sentiriamo-nos quase todos na pele de terroristas, mas também por aqueles normalmente justificarem os seus atos por outras razões, nomeadamente de cariz religioso. Mas essa opção, por mais importante que seja, deverá ser suficiente para tentar negar o facto que é a real ligação entre os dois fenómenos? É que, optando pela visão bondosa da questão, se pode sempre afirmar-se que os decisores do mundo, tendo perfeita noção dessa realidade, discuti-la-ão em privado, dando-lhe todo o peso que ela merece na resolução de tão grave problema, também se pode pensar que não faltará nessas altas esferas, quem se aproveita desse silênciamento para continuar a cavar o fosso entre ricos e pobres, acabando assim por não só não contribuir para acabar com este assustador estado das coisas, como precipitar exatamente o contrário, que elas se agravem numa espiral de violência cujos limites ninguém pode prever. Se usando de absoluta honestidade intelectual, os poderosos de boa fé deste mundo, olharem para o passado recente, quanto mais para o mais distante!, rápidamente terão que admitir que as probabilidades entre as duas hipóteses caem francamente mais para a segunda.

 

Lentamente começam a aparecer nos jornais as notícias que a raiva e o políticamente correto esconderam, ou no mínimo evitaram, que até agora vissem a luz do dia. Uma delas, eventualmente a mais importante, informa que os irmãos responsáveis pelo atentado ao jornal francês de caricaturas, viviam num bairro da periferia de Paris, onde os índices de pobreza são quase inacreditáveis para um país como a França, até há bem pouco tempo a 5ª potência mundial, nomeadamente o desemprego que é da ordem dos 43%. Procuradas por jornalistas após os tristes acontecimentos, as pessoas lá residentes, cerca de 200.000!, evitam o contacto ou dizem não querer falar e, as poucas que o fazem, relatam uma realidade muito próxima daquilo que foi a política de ghetos em França, os célebres bidonville, que em boa medida estiveram na génese do Maio de 68 e de tudo o que isso representou para aquele país, para a Europa e restante mundo ocidental. E é sabido como este estado de coisas é comum a práticamente a toda essa parte do globo. Não será por acaso que um número crescente de jovens desses países, desesperados perante o vazio com que são terrívelmente confrontados quando tentam perspetivar o futuro, numa atitude de tudo ou nada e bem conscientes da total impotência da esmagadora maioria de quem os rodeia para inverter a situação, resolvem engrossar as fileiras de quem, aparentemente, fala mais alto contra o cada vez mais alargado fosso entre ricos e pobres.

 

No dia em que o Charlie Hebdo volta às bancas amputado da maior parte dos seus antigos responsáveis, surge com uma imagem ambígua e uma mensagem escrita clara. Será uma boa opção manter uma postura de superioridade? Eventualmente portadora de uma mensagem dúbia intrínsecamente autoconvencida? Inxalá que sim. Provávelmente, independentemente do que a primeira página mostrasse, o problema de fundo manter-se-ía sempre, onde acaba a liberdade de uns e começa a de outros? No caso específico da linguagem nas suas diferentes formas, não haverão limites? Sou livre para insultar pública e notóriamente seja quem fôr, em qualquer circunstância, sem barreiras de espécie alguma? Um bom exercício é cada um imaginar ser insultado naquilo que lhe é mais precioso da pior maneira possível. Já lá vai o tempo em que até os insultos ficavam abafados, circunscritos dadas as circunstâncias objetivas de difusão. Hoje não é possível atirar a pedra e fugir, a ironia, o sarcasmo, o insulto em surdina tiveram os seus dias. Morreram. Atualmente ninguém pode fugir ás suas responsabilidades, ou melhor, poder pode, mas os riscos de, mais tarde ou mais cedo, pagar um alto preço por atitudes que vão desde o menos consensuais, ao barbaramente incorretas, é claramente maior. O choque de culturas tem as costas largas, mas se se questionar sinceramente o que levou os agressores a escolherem a dito caminho de Alá, talvez aí se encontre a resposta para grande parte do mal e, porventura, a solução para o enfrentar.

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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