semtelhas @ 11:12

Qua, 15/10/14

 

A vaidade, prima da arrogância, pode ser expressa nas mais diversas circunstâncias como é sabido, mas há casos verdadeiramente surpreendentes.

 

Não sei há quanto tempo, mas já lá vão uns anos, continua a ser irresístivel mirar aquele personagem, autêntico cromo. A rondar os sessenta, relativamente alto, seco e rijo, cabelo cada ano mais branco, hoje quase na sua totalidade, cortado muito curto, veste sempre uns calções pretos apropriados para atletismo e uma tshirt branca. Normalmente sózinho, aquilo que realmente o distingue é a forma como se movimenta e, nesse particular, não lhe noto qualquer diferença desde o primeiro dia. Muito direito, cabeça bem levantada, atirando as pernas e os braços bem para a frente, no rosto uma assustadora máscara de ferro, ou seja, toda uma postura que indicaria uma atitude enérgica de atleta que, no entanto, é completamente desbaratada por um ritmo extremamente lento, quase dengoso, dir-se- ía que o homem parece desfilar numa passerele. Marcha sempre do lado direito e nunca lhe detetei qualquer desvio no olhar que, invariávelmente, aponta lá para longe, algures no infinito. Curiosamente, quando na companhia de alguém, o feitiço como que se desfaz e é com surpresa que o vejo sempre só ele a falar, quase a saltitar em volta de quem o acompanha, como se esperasse um qualquer tipo de biscoito ou festa na cabeça. Nessas ocasiões permite-se um longo olhar sobre os restantes transeuntes que com ele se cruzam, onde é detetável uma espécie de misto entre desprezo e desafio, na verdade muito mais dirigido à companheira ou companheiro, supostamente solidário face ao empecilho que se atreveu a desviar-lhes a atenção de tão vibrante quanto importante monólogo.

 

Hoje vi-o já depois de ter atingido metade do meu percurso e aí ter feito os habituais exercícios, um pouco abaixo do passadiço, numa saída para a praia, pelo que só o apanhei na volta. Lá ía ele na sua garbosa exibição. Quando suficientemente perto apercebo-me que, ao contrário do costume, desta vez a tshirt tinha inscritas nas costas aquilo que me pareciam umas letras em preto. Alguns metros adiante consigo perceber tratar-se de algo escrito em símbolos japoneses, seguidos de um discreto desenho de uma figura masculina a praticar artes marciais, naquela posição de ataque mais comum, todo no ar, uma das pernas e um braço para a frente e os respetivos pares recolhidos. Estava eu a tentar decifrar aquilo tudo quando, súbitamente, passam por mim, a correr, dois rapazes, plenos de energia. Talvez sentido a vibração ou o ruído nas traves de madeira, e como de uma arma letal se tratasse, o homem olha para trás, vê-os a meia dúzia de metros, cospe displiscente e desafiador para o lado, e, mantendo o ritmo, desvia-se ligeiramente para o meio do caminho. Não sei que tipo de filme lhe estava a passar naquele momento numa cabeça que não pode estar muito saudável, o certo é que um dos rapazes, talvez incomodado com a atitude do homem, seguramente porque lhe estava a interromper a corrida, deu-lhe um valente encontrão, e ele, ato contínuo grita, vê lá se tens mais cuidado, ao que o jovem, provávelmente encarando com mais caratéres orientais na frente da camisola, respondeu quase parando, chega-te para lá ó velhote. Isso aí quer dizer que irócútácaró? É que estou disposto a pagar o que fôr preciso. E lá fomos todos ás nossas respetivas vidas enquanto eu, perante o embaraçante e triste silêncio do pobre homem me interrogava, será que é desta que vai perder a pose?

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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