semtelhas @ 11:00

Qui, 24/04/14

 

Já estavamos todos alinhados ao longo da parede junto à porta onde iria acontecer a aula de inglês como era costume fazer-se naquele tempo. Creio que seriam quase oito da manhã e, após percorrer a pé a meia dúzia de quilómetros entre a minha casa e a escola, à semelhança do que sempre fizera ao longo de anos, ali estava preparado para assistir a mais uma aula. Apesar de informado de que a situação política era tensa, ainda haviam poucos meses aquele colega mais velho que costumava fornecer-nos fotócopias de um jornal subversivo, A Semente, fora preso pela PIDE/DGS, e passara um mau bocado na sede da polícia política na rua do Heroísmo no Porto, os meus dezasseis anos impediram-me de, pelo caminho, ter detetado qualquer novidade. A distribuíção, ou, melhor dizendo, o atirar umas quantas folhas desse jornal nas zonas circundantes de onde vivia, e orgulhosamente anunciá-lo ao meu pai, tínha-me valido um violento estalo de aviso. Agora, que surpreendentemente nos diziam que não haveriam aulas e enquanto dispersávamos atónitos, percebi uma certa ausência de movimento rápidamente explicada pelas notícias que corriam como um rastilho, os tanques estavam na rua! decorria um golpe militar!

 

Em poucos minutos os mais politizados de entre nós, entre os quais se encontrava o tal que uns meses atrás víramos a ser empurrado para dentro de um carro, durante uma inesquecível manhã mesmo em frente ao portão da escola, trataram de promover um ajuntamento num dos campos de jogos, e desataram a gritar as palavras de ordem que conheciam dos livros e dos recentes acontecimentos no Chile do malogrado Salvador Allende. Os mais pequenos foram desaparecendo recolhidos pelas famílias deixando espaço livre a todos os outros. O que aconteceu nas horas seguintes decorreu a um ritmo alucinante. Tudo começou pela invasão de salas de aula onde, teimosamente, alguns professores insistiam em manter os alunos fechados, depois, vindos não sei de onde, voaram centenas de folhas de várias janelas criando uma espécie de ambiente festivo até, mais perto do fim da manhã, começar a ouvir-se que o sr. D., funcionário da papelaria da escola, e conhecido bufo que suspeitáva-mos responsável pelas perseguições da polícia política aos estudantes, se pusera em fuga. Tinha sido dado o mote para uma perseguição surrealista que só viria a terminar junto ao Jardim do Morro, a uns bons três quilómetros, onde o desgraçado foi completamente despido, sovado, e posteriormente desaparecido em lugar incerto por, como no meu caso, anos.

 

O que se ía ouvindo pela rádio, a televisão só na madrugada seguinte daria sinal de si, relatava o desmoronamento do regime, a multidão a invadir as ruas de Lisboa saudando os militares, uma indescrítivel sensação de eufórica alegria proporcionada por uma espécie de libertação que muitos não sabiam explicar, mas queriam acreditar significar uma melhoria nas suas, maioritáriamente, tristes e paupérrimas condições de vida e, como por magia, vendedeiras de cravos vermelhos começaram a aparecer por todo o lado, também elas escutavam o rádio! A tarde, após o habitual almoço, desta vez francamente vivo fruto do estado de alterado dos meus familiares que, como todos, se questionavam sobre o futuro, foi preenchida a vaguear entusiásticamente pelas ruas do Porto, e acabar em frente à já referida sede da PIDE, aos gritos que exigiam a rendição, perante a ameaça de alguns tiros que chegaram a ser disparados do seu interior em direção à multidão em fúria. Quando, ao fim da tarde, me encontrei com os meus pais foi para nos reunirmos à família na casa da minha avó materna para, em conjunto, avaliarmos a situação enquanto se aguardavam notícias mais concretas. As mesmas chegaram via RTP que todos vímos acordadíssimos, tensos e ansiosos, lá pela uma hora da manhã já do dia 26, e confirmavam que os próximos tempos iriam ser de mudanças.


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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