semtelhas @ 13:46

Sab, 16/05/15

 

Muito se tem discutido ultimamente por essa Europa fora, e não só, o baixo índice de natalidade como motivo maior para a não sustentabilidade do sistema de proteção social no futuro. O crescente envelhecimento das populações conduzirá a uma inevitável falência do mesmo pela manifesta falta de gente para o alimentar, isto é, não há nascimentos suficientes para fornecer a máquina geradora de dinheiro, do qual uma parte é reservada para pagar a uma cada vez mais vasta prole de subsídiodependentes, de entre os quais, por uma questão de justiça aritmética, sobressaem os mais velhos por já terem contribuído com a sua parte para o sistema.

 

Subjacente a este raciocínio está o pressuposto aparentemente inultrapassável de que a atual forma de funcionamento de todo este processo é inevitável, ou seja que o capitalismo, mais ou menos agressivo, mas sempre assente no mesmo princípio da esperada criação de riqueza via denominado crescimento economico, será a única saída para esta espécie de beco sem saída em que a sociedade dita desenvolvida se encontra. Mas, por outro lado, noutros cantos do mundo, nomeadamente na Índia e na China introduzem-se taxas máximas de natalidade, sob pena, dizem, de se estas se mantiverem aos níveis de hoje, não faltarão muitos anos para que os recursos naturais do planeta se esgotem com todas as consequências daí resultantes.

 

Poder-se-á portanto deduzir que não obstante este tempo de globalização desenfreada, naquilo que é essencial os vários blocos sociais, criteriosamente divididos segundo conceitos quase exclusivamente economicistas, não se entendem. A legitimidade de tal conclusão advém do facto de perante este tipo de problema emergir uma solução evidente, mas como se tem largamente constatado longe de ser consensual, que é transferência das populações para onde elas são realmente necessárias, que é o mesmo que dizer formalizar  entre as várias partes interessadas um sistema de migrações adequadamente preparado, nomeadamente nas suas vertentes humanitárias.

 

A alternativa, a criação de uma nova maneira sócioeconómica de lidar com a evolução das sociedades, algo que supere o mais esclarecido dos capitalismos praticados, parece altamente improvável, estão aí séculos de procuras vãs a prová-lo. Aquilo a que se assiste por todo o mundo, e já não só no Mediterrâneo, é um fenómeno imparável, contrariá-lo seria uma utopia comparável ao esforço para deter certas manifestações da natureza. Jamais tornará a ser possível travar estes autênticos mares de gente na demanda de uma vida que auspiciam melhor, mas que sobretudo sabem diferente. Dir-se-á que provávelmente é isso mesmo que está a ser feito, que não haveria outra forma de o fazer, porque por um lado é muito dificíl levar as sociedades detentores de todo o conforto aceitarem dele abrirem mão sem darem luta e, por outro, os mais frágeis não estão preparados para uma absorção forçosamente lenta, em função de uma tentativa de como que um encaixe cultural, e não um choque, o que como é sabido demora muitos anos se feito corretamente para que seja genuíno e eficaz.

 

Estaremos então eventualmente perante uma daquelas fases da História em que nada poderá ser concretizado sem sofrimento, resta escolher por que via, ou controladamente ou acabando tudo num confronto cujos limites são hoje difíceis de prever. A opção salvadora estará porventura na aposta pela vida porque talvez aqui resida a verdadeira esperança. Quanto mais se observa uma sociedade envelhecida mais se percebe como ela é feita de cinismo, amargura e egoísmo, uma trágica demonstração do que a que pode levar a chamada sabedoria. São as crianças que, apesar de tudo, vão alimentando uma postura crente num futuro melhor, uma vontade de arriscar que é essencial e que na verdade contitui a autêntica seiva da vida. Que seria de nós sem aquela maravilhosa ingenuidade, profusão de afeto, necessidade de proteção dos nossos filhos e dos nossos netos, consubstânciadas no sorriso lindo ou num choro enternecedor, que nos arrancam pela raiz de uma morte lenta arrastando-nos para dúvidas promissoras? Sem uma firme aposta neles, e não só uma calculista estatística tecnocrata, o sentido da vida vai-se esvaíndo por muito conforto material que se tenha, e o futuro apresentar-se-á cada vez mais entediante e vazio, conduzindo à degradação fisíca e moral.


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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