semtelhas @ 12:00

Sab, 26/04/14

 

Para alguém como eu que tivera consciência do que era viver num país pobre e com medo, foi com satisfação e mesmo espanto em alguns casos, que percorri um país em tudo diferente daquele de que me lembrava naquelas zonas mais interiores. Apesar de saber, até por conhecimento de causa, que muitos dos recursos que nos chegaram da europa para, supostamente, ajudar um dos membros da comunidade mais atrasados em termos estruturais, terem sido desviados para os bolsos de gente sem escrúpulos, a verdade é que o desenvolvimento estava ali, bem vísivel. Estradas fantásticas, até excessivas porque um dos meios preferidos para grandes negócios entre o poder e os detentores do capital, construções modernas ou renovadas por todo o lado, em certos sítios até, como eu conhecia no Porto, de qualidade arquitetónica reconhecida internacionalmente, equipamentos de desporto de lazer em numero e qualidade surpreendentes nos lugares mais remotos, uma atenção muito especial às crianças neste particular indiciando uma outrora rara preocupação com as gerações futuras, mas sobretudo uma desenvoltura evidente na forma como as pessoas se apresentavam e interagiam. Após os primeiros anos do novo milénio, e apesar de todas as vicissitudes conjunturais e idiossincrasias dos portugueses, tinha valido a pena! O progresso não se limitava a Lisboa e ao Porto e, em menos escala, ao litoral em geral, mas estendera-se e enraízara-se por todo o território.

Às minhas manifestações de entusiasmo à medida que a viagem ía decorrendo tranquilamente, mas marcada por essa sucessão de novidades graças a um país que eu desconhecia, correspondia uma espécie de admiração de Laura, não com o que via mas sim com a minha reação que achava exagerada e atríbuia a outras razões, nomeadamente à decisão que tomáramos de adotar uma criança com tudo o que isso representava em termos de motivação para o futuro. Esquecera-me que ela nascera precisamente aquando da revolução de 74, pelo que só sabia viver em liberdade e sistemático esforço para o desenvolvimento. Para ela tudo aquilo era normal e qualquer outro estado de coisas impensável. Muito informada e viajada, considerava Portugal indubitávelmente um país europeu em toda a extensão do termo, não obstante longe dos de topo à semelhança dos outros como ele periféricos, e portanto mais longe das principais esferas de decisão e consequentes benefícios que daí advêm aos mais centrais. Havia uma geração de diferença entre nós que em muito mudava a forma como víamos a realidade circundante, desde logo ao nível das expectativas, muito maiores as dela, e daí resultando exigências e ambições completamente distintas. Só agora, que as circunstâncias eram tão limitadoras, compreendia uma das razões, para além do caráter de cada um, que levaram ao nosso afastamento fruto de um olhar quase oposto sobre a vida. Essa constatação calou-me e pôs-me a pensar no que viria aí.

Laura interpretou a minha atitude como desencanto pela sua não partilha na alegria quase esfusiante que eu exibia e disse-me, tem paciência comigo Ivo. Se calhar peço demais, mas olha que acho que tu também pedes pouco. O que vejo ainda está aquém do que se vê por essa europa fora, não é nada de especial. Ouvia e respondi-lhe que sim, que seguramente estava certa, que o futuro é dos jovens ambiciosos. Olhou-me desconfiada, o futuro vamos construí-lo os dois para esse menino ou essa menina, o que preferes?, que vai entrar nas nossas vidas. Para mim só isso faz sentido. Quero desencadear o processo o mais depressa possível até porque pelo que julgo saber é complexo e demorado. Não achas? Inteligente como era percebeu a minha súbita dúvida quanto à nossa vida em comum e tratou de a eliminar rápidamente. Não podia estar mais de acordo. Mal cheguemos vamos tratar do assunto, há concerteza imensos pormenores que desconhecemos. Continuamos a nossa viagem conforme planearamos antes de saírmos de casa. Até ao fim! Quinze dias verdadeiramente redentores dos quais guardo com particular prazer, a memória daquela noite cálida em Vila Viçosa, em que depois de uma longa mas muito interessante visita ao Palácio Real, um género de casa de férias com dezenas de quartos e espaço de caça privativo, que nomeadamente o rei D. Carlos utilizou com alguma frequência, que percorremos demoradamente admirando a grande beleza do mobiliário, das obras de artes, também pinturas do próprio rei!, esquisitos e avançados artefactos para a época, e muito mais, reservamos um quarto numa pequena hospedaria e fomos procurar um restaurante. Ainda antes de jantarmos uns suculentos segredos de porco efetivamente preto, ali da zona, bebemos na esplanada situada na parte mais espaçosa e bonita da vila, debaixo de laranjeiras carregadas, cerveja gelada servida em copos finíssimos, ao ponto de dar a sensação que era a própria cerveja que levávamos aos lábios. Depois de passearmos de mão dada pelas simpáticas  e impecávelmente limpas ruas com uma aragem que perto da meia-noita era ainda morna, recolhemos ao quarto para uma sessão de sexo onde, pela primeira vez desde que Laura contraíra a doença, nos entregamos sem limites ou constrangimentos. Medo de quê? Que mais poderia eu esperar da vida?


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