semtelhas @ 12:29

Sab, 19/04/14

 

Antes de partimos tivemos a agradável surpresa de se poder visitar uma grande parte do país recorrendo ao comboio e, quando este não chega a determinados sítios onde já chegara, são disponibilizadas carreiras de camionetas, pelo que se nos organizássemos préviamente era possível traçar um itenerário bem interessante. Cada um de nós transportava a sua mochila que constatamos serem práticamente gémeas, dois jeans a somar ao que ía vestido, um par de sapatilhas suplentes, umas chinelas, uma sweatshirt com carapuço, um blusão mais leve do que o de couro no corpo, umas quantas polos e tshirts, cuecas, meias e produtos para a higiene. Caso viessemos a precisar de reforço a empregada também encarregada dos bichos, enviar-nos-ía para qualquer lado o que fosse necessário.

Era Verão e estava quente naquele dia em que entramos no comboio em direção ao norte. Uma vez ultrapassados os primeiros quilómetros e deixado para trás o cenário urbano, embalados pelo movimento e ruído característicos, fomos sendo invadidos por um sentimento de libertação que partilhamos em silêncio. Aquela sensação de estarmos mais juntos à medida que nos afastamos do que nos é familiar por ver diáriamente, unidos contra o desconhecido. A paisagem verde, o casario que ía desfilando maioritáriamente de bom aspeto, novo ou recentemente objeto de manutenção, diversos equipamentos para a prática do desporto ou simples lazer, as estações que se sucediam renovadas e limpas, bem como as pessoas de uma maneira geral bem arranjadas, mostravam um país moderno bem diferente daquele de que me lembrava da última vez, bastantes anos antes, que viajara de comboio numa viagem longa que não fosse no Alfa entre Porto e Lisboa.

Súbitamente surge no horizonte um largo casarão branco, rodeado por, atrás aquilo que parecia um campo de cultivo e um pequeno bosque, lateralmente por umas habitações mais pequenas e igualmente pintadas de branco e, à frente, um vasto, dir-se-ía jardim porque bem arborizado e pleno de flores de todas as cores, mas onde se podiam distinguir zonas de terra, e relvadas, equipadas com artefactos, balizas, tabelas, e outros, para a prática de desporto. A encimar o edifício maior, escrito em bem desenhadas letras pretas, Orfanato. Quando os nossos olhos se encontraram depois de impossibilitados de continuar a absorver os gritos, as corridas, as gargalhadas, que pouco mais que adivinhava-mos, um ou outro vulto de uma criança sentada num banco a ler, ou simplesmente a vaguear, e dois ou três pares conversando ou em jogos amorosos de principiantes, percebemos imediatamente o que o outro estava a pensar.

Como se de repente, e em poucas dezenas de segundos, nos tivesse sido dada o oportunidade de vislumbrar o Paraíso. Como se de uma imagem cinematográfica se tratasse, tinha passado ali, bem à nossa frente, a alegria, o entusiasmo, a ingenuidade, a pureza ainda não conspurcada pelo cinismo ou pela dureza implacável da realidade. O futuro! Não fora exatamente à procura disso mesmo que viéramos? Do futuro? Num momento verdadeiramente epifânico compreendemos silmutâneamente que a solução poderia muito bem passar por adotar uma daquelas crianças! Ou outra qualquer! Porque nos ouviu trocar algumas palavras sobre o assunto, sentado ao meu lado desde a última paragem, um velhinho simpático informou-nos que aquela era uma instituição muito antiga, algures de meados do séc. passado, gerida desde sempre por religiosas, inicialmente bastante mais pequena e efetivamente para orfãos, mas sucessivamente aumentada ao longo dos anos e hoje abranjendo um leque bem mais vasto de jovens, na verdade uma casa de acolhimento para todo o tipo de crianças desprotegidas.

Resistimos ao primeiro impulso de, como anos atrás, interromper logo ali a viagem como se o seu objetivo milagrosamente tivesse sido encontrado logo ao virar da primeira esquina e, mais maduros, sobretudo ela, resolvemos continuar a nossa saga aproveitando-a precisamente para trabalhar mais este fantástica oportunidade com as quais a vida parecia apostada em repetidamente nos abençoar, renovando assim o nosso entusiasmo e força para enfrentar um dia a dia que não se apresentava fácil.

 


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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