semtelhas @ 14:33

Sab, 22/03/14

 

Na sala sentado em frente à televisão ligada cuja imagem, juntamente com o música dita clássica que saía do rádio, serviam de catalizadores para que os pensamentos fluíssem disciplinados, sem margem para se dispersarem pela concentração a que a imagem e o som os obrigavam, passou na mente uma versão do que até aí fora a sua vida, e a escolha que estava prestes a fazer do que viria a ser daí para a frente.

Quase a entrar nos sessenta tinha vivido a vida que escolhera, essa era a grande verdade, uma opção essencialmente egoísta que jamais o deixara abrir mão do que realmente mais profundamente desejava. E a que é que isso o havia conduzido? Não se podia queixar, boas ou más tinham sido as suas escolhas. A não sujeição continuada a nada nem a ninguém, uma independência pessoal encarada como de uma religião fundamentalista se tratasse, um sistemático desatar de laços e sobretudo de nós em nome de uma liberdade em toda a linha.

Se era certo que se podia considerar um homem feliz também era um facto que, desde já haviam meia dúzia de anos, uma espécie de aridez parecia avançar por aquilo que era a sua vida. Uma desertificação que se instalava devagar mas firmente. Primeiro tornara-se sensível quando refletia num espaço temporal tão vasto como um ano, como, para além de estar mais velho, quase nada mudara, mas depois o cerco foi-se apertando e a insidiosa sensação de sufoco avançara, esse estado de espiríto atacava em períodos cada vez mais curtos, a ponto de, se quisésse ser completamente sincero consigo próprio, atualmente ser pouco menos que diário. Precisava de um motivo para continuar a encontrar sentido na existência que não sómente o básico sobreviver. Já não lhe bastava essa, percebia-o hoje, a que considerava tão nobre e enriquecedora estranha forma de vida que tivera, feita do constante assentar de pequenos tijolos de conhecimento em busca da tranquilidade que a construção desse muro em torno de si efetivamente lhe tinha proporcionado, não só porque, talvez, e só talvez, a ausência de transparência desses tijolos precáriamente translúcidos como a dúvida, lhe escondia respostas cada vez mais urgentes, mas também porque a argamassa que fora feita de esperança e utopia que unindo-os possibilitara a construção desse frágil castelo, crescentemente carecia de consistência face a um corpo que dava mostras de desgaste por todo o lado, e uma mente a dar os primeiros verdadeiramente estruturais sinais de cansaço. Precisava pois de uma missão, da força e inspiração a que tal desafio obrigavam.

Encontrou-a naquela mulher que dormia na sua cama, na sua doença, nos infindáveis tratamentos até à morte e que, mesmo assim, podia acontecer a qualquer momento apesar da doença estar a tornar-se crónica. Mas, entristeceu-se, só graças a ingestão de inumeros fármacos diáriamente. Para sempre! Isso do para sempre não existe, pensou de imediato. Depois... nunca mais Laura seria Laura. Haveria sempre uma núvem negra a ensombrar os seus olhos, a enfraquecer os seus atos até aqui plenos de energia. Isso do para sempre não existe, repetiu para si próprio. E o sexo? Como seria? Teria que ver aumentadas as suas variáveis de carinho e afeto como compensação do resto. Teriam ambos de abdicar do lado animal que tanto adoravam. Para ele não seria assim tão difícil, afinal a idade não perdoa, mas, e para ela? Não tinha sequer quarenta!

A resposta, tal como acontecera com Laura, chegou-lhe quando imaginou a criatura que crescia no ventre doente daquela mulher. Nem sequer era seu filho, mas juntos haviam de conseguir que nascesse saudável e seria a si que chamaria pai. Os primeiros raios de sol entraram pelos furos da persiana e iluminaram o sorriso que ostentava no rosto!


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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