semtelhas @ 12:09

Seg, 06/07/15

 

Imagine-se uma família da classe média baixa, a viver exclusivamente dos rendimentos do trabalho relativamente precário, contratos a prazo, com dois ou três dependentes, mas ainda assim a beneficiar de uma fase de aparente desafogo, o dinheiro apesar de tudo dá para práticamente todas as despesas, e face a um ambiente generalizado de fartura, o país passa uma fase de rara prosperidade, podem até dar-se ao luxo de se endividarem em nome de um conforto presente por todo o lado, empurrados por um cada vez mais pressionante apelo ao consumo, que subrepticiamente faz funcionar e sobrevive da implementação de sentimentos pouco nobres como a inveja e uma concorrência cega, desenfreada. Não é por isso de admirar, é mesmo compreensível, como não?, naquelas circunstâncias que não aproveita só pode ser burro e passa a ser olhado como pobre miserável, mesquinho, fraco de espírito, que esta família recorra ao banco para obter empréstimos para casa, carro, mobílias, férias...e, de repente, se sinta a viver uma espécie de sonho realizado, tão fácil!, desfilando orgulhosamente e tantas vezes arrogantemente perante a família e a vizinhança exibindo todo um novo brilho, ao qual amiudadamente puxa o lustro, alardeando ter isto e mais aquilo, ter ido aqui e ali, e sabe-se lá que mais.

 

Agora imagine-se que, súbitamente, vá lá saber-se porquê!, lá no fábrica começam a escassear as encomendas, pelo menos é o que o patrão diz, quando não vai muito, um ano ou dois, oferecia lautos cabazes na pomposa festa de Natal; que no hiper a encarregada está cada vez mais exigente e implicativa, algo até há bem pouco tempo impensável em alguém desde sempre tão intratável, inclusivamente já se fala que, desta vez e ao contrário do que tem sido feito desde sempre, quando o contrato atinge três anos é-se despedida mas passados três meses recontratada, não haverão renovações para ninguém, ou só para algumas. Começa tudo a correr mal e bastam meia dúzia de meses para que as únicas pessoas que trabalhavam naquela casa se vejam no desemprego, ele com um indemnização correspondente a um décimo do que lhe era devido depois de meses a trabalhar sem receber, era isso ou nada, ela por azar ainda com poucos meses após a última renovação, pelo que se ele, apesar de tudo, tem direito a um subsídio de desemprego razoável, o dela não passa de tostões. O dinheiro não chega sequer para pagar o essencial quanto mais os vários empréstimos a pagar ao banco que estão longe, muito longe, de atingirem o seu termino.

 

E agora? O que fazer? De quem é a culpa? Será exclusivamente de quem irrefletida e irresponsávelmente resolveu empenhar o seu e o futuro dos seus? E como qualificar a atitude de quem aceitou tudo, literalmente, todas as mentiras de falsos rendimentos, fragilíssimas probabilidades de serem seguros, que inclusivamente fomentou ensinando a mentir, a forjar vigarices, para simplesmente sacar juros extremamente apetecíveis, assobiando para o lado quando alguém ousava mencionar o futuro, ou mesmo não tendo quaisquer escrúpulos em vender "amanhãs que cantavam"? O certo é que salvo algumas, poucas, exceções, quem realmente está a "pagar as favas" é o incauto desgraçado que caiu na ratoeira e depois ainda é sugado até ao tutano. Os bancos e quem lhes abriu caminho, esses, sofrem ligeiros abalos que ultrapassam mais ou menos fácilmente dado possuirem enormes "almofadas" que atempadamente providenciaram.

 

Finalmente substitua-se essa família por um país, afinal o somatório dessas mesmas famílias, os seus componentes por habitantes, a situação financeira de mediana das pessoas por pobre a da nação, face ao clube de que faz parte, e todo o diabólico processo de enriquecimento, via aproveitamento de todo o tipo de fragilidades da esmagadora maioria dos consumidores, pela criação de uma comunidade económica comum. Mesmo acreditando que os objetivos desta tenham sido nobres, bem intencionados, era suposto aproximar níveis de vida entre os vários países, em nome disso foram destruídas infraestruturas de produção, hábitos de sobrevivência por vezes seculares!, foi dito então que tudo era feito em nome da rentabilidade, cada um faria aquilo para que era melhor ou estava mais qualificado. O que a realidade mostra decorrido mais de um quarto de século, é que o que faz de principal "banco" da União, a Alemanha, é exportar mais de 50% do que produz, e sobretudo para onde?, para os seus parceiros da dita união, ou seja enriquece cada vez mais à custa do empobrecimento dos seus pares. Tal qual o nosso banco ao fundo da rua à nossa custa. Como as pessoas também as nações caem em ratoeiras. Quem emprestou biliões, fechando os olhos às mais incríveis mentiras e elaboradas ficções, a países evidentemente sem estruturas para jamais os pagarem, antes empenhando o futuro de muitas das gerações vindouras, para sem qualquer vergonha e todo o calculismo construirem situações financeiras pura e simplesmente pornográficas se comparadas com a do vizinho do lado? Acontece porém, num caso como no outro, que um dia não será possível tirar mais de onde já não há nada, seja gente sejam países. E depois? Talvez ontem, com a inimaginável coragem do povo grego, não obstante o que se diz ainda com muito a perder, tenha começado a ser dada uma resposta para esta pergunta.

 

 


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