semtelhas @ 12:14

Sex, 09/01/15

 

Há um livro cujo título não podia  ser mais eloquente, Amamos Como Nos Amaram. Amamos como nos amaram, as diferenças acontecem por causa do que já éramos antes de ser-mos gente em carne e osso, o que herdamos dos nossos ascendentes através da transmissão dos genes. Quanto mais refinadas são as nossas características intrínsecas, mais longe levamos a nossa indomável vontade. Existe porém um momento na vida de alguns, gosto de acreditar que na da maioria, em que cada um parece encontrar-se com todos os outros, quando descobre o que temos em comum, um estado de graça que pode acontecer mais cedo ou mais tarde, mas se profunda e sinceramente assumido, sempre a tempo de quem o alcança salvar-se a si mesmo. As circunstâncias dessa redenção quase sempre surgem via maior ou menos sofrimento, quando se encara a nossa humilde realidade, quando numa aparente contradição, nos sentimos profundamente livres, como se onde haviam espinhos surjam macias pétalas, finalmente soltos das amarras que significavam tentar ser-se o que não se é, forçar os outros, sobretudo os que mais amamos a curvarem-se à nossa vontade, vivendo numa permanente ilusão que amargura, consome e fomenta um crescente vazio em volta.

 

Sono De Inverno é um filme maravilhoso, construído com amor, minúcia e profissionalismo. Inultrapassável na beleza e profundidade de um argumento onde estamos todos. Uns via personagem masculino, símbolo de todas, provávelmente maioritárias, criaturas a quem nunca foi dado o amor que as tornaria pessoas emocionalmente equilibradas, que passam o resto da vida a chantagear os outros, principalmente os que estão mais perto, por um "punhado de afeto", para logo o rejeitarem temendo a insuportável condescendência. Outros através da personagem feminina, os que caiem na ratoeira dos primeiros, e que quase sempre como que "vendem a alma ao diabo", transformando-se numa espécie de vítimas, na verdade de si mesmas, da sua inércia, contribuindo para uma existência comum alimentada de ressentimentos, permanentemente adiada. Felizmente é-nos oferecido o lado solar como conclusão. Um conjunto de acontecimentos conduz à luminosa libertação, primeiro de cada um, indispensável, depois adivinha-se a consequente na relação comum. A crua e imensa beleza natural dos cenários, a quase total ausência de música de fundo, a linguagem gutural,  o aspeto do "género mil e uma noites" mas decadente, sem brilho, dos personagens e do que os rodeia, belos mas não isentos de rudeza, e mesmo a omnipresente sensação de uma certa falta de limpeza, que transmite a tudo aquilo uma verosimilhança impressionante, a somar à fantástica capacidade de interpretação dos atores, tornam este filme inesquecível.

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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