semtelhas @ 12:32

Sex, 22/05/15

 

A gente começa a ler aquilo e é como que invadida por uma sensação de exaltação que avança primeiro sob a forma de uma espécie de espanto, uma confusão cujos contornos só começam da definir-se mais à frente, como quando se observa um quadro que exige o tempo e a afastamemto espacial certo para se ousar tentar compreendê-lo, ou certos filmes e músicas, para depois se instalar definitivamente e em crescendo até à apoteose final. E em que consiste esse climax? Desiluda-se quem espera destas obras receitas milagrosas, mas antes a demonstração de que estas não existem, mas, isso sim, uma hipótese de caminho a seguir, como que a oferta de umas quantas dúvidas promissoras, chame-se-lhe esperança se se quiser, uma luz que aponta para dentro, o lugar onde moram todas as explicações e um mar de tranquilidade, que chega sobretudo via profunda humildade perante a grande incógnita, e absoluta assunção da verdade inteira do que se é.

 

Por estes dias onde a virtualidade e as aparências parece começarem a perder terreno face a uma gritante necessidade cada vez mais comum de percecionar a realidade, algo que nas últimas décadas tem vindo a ser assustadoramente substituído por um "faz de conta" que se apresenta das mais diversas formas, muito em particular pelo consumismo desenfreado que conduz a uma permanente insatisfação, promessas vãs para encher os bolsos aos ditadores da atualidade, mas também pelo avassalador, e devastador, uso de drogas nomeadamente as consideradas legais, cruzarmo-nos como uma destas obras pode ser completamente redentor, até porque a eventual diminuição do consumo, por exemplo, vai pôr totalmente em causa o sistema de funcionamento da sociedade, e só a verdadeira arte é capaz de produzir a mudanças de mentalidades que porventura vierem a revelar-se indispensáveis.

 

No que à literatura diz respeito, ler Faulkner, David Foster Wallace, Roberto Bolaño, Celine, mesmo a nossa Agustina ou Saramago, aos que agora juntei Júlio Cortazar e o seu "O Jogo do Mundo", são quase sempre experiências tenebrosas no sentido que, tal como afirma o grande escritor francês, normalmente nos conduzem numa viagem ao fim da noite, no entanto caminhar, tantas vezes penosamente, ao longo desse percurso parece levar-nos a essa espécie de verdade fundamental que repousa, e precisa de ser energicamente agitada, bem no fundo de cada um de nós. É então que acontece uma aparente contradição entre um inferno que se descobre e a irreprimível exaltação de por fim compreender a causa das coisas, uma alegre tranquilidade que nos invade via esclarecimentos primordiais mas repetidamente esquecidos, a nossa imensa e comum fragilidade, só e unicamente ultrapassável sem o habitual recurso à violência catártica de frustrações, quando sincera e absolutamente assumida, transformando-se então naquela humildade digna consubstânciada pelo irrevogável respeito pelo outro.

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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