semtelhas @ 14:06

Ter, 18/03/14

 

Muito morena e baixinha, cabelo preto cortado curto, cara de fuínha, gorducha com as banhas a dançar ao ritmo dos passos curtos e, pela mão, a sua cara chapada em cima de um corpito de um miúdo que a olhava, com ar de espanto interrogativo, ao ouvi-la dizer enquanto nos cruzáva-mos, vigiando-me, olhar desconfiado, nariz minúsculo, lábios húmidos de saliva a brilhar numa boquita faladora, e toda enfeitada por uma panóplia de artefactos pendurados nas orelhas, nos pulsos, na cintura, exibindo um vistoso decote, uma reduzida minisaia, e uma botas de cano alto que lhe conferiam um aspeto de anã, vês ali o teu pai, apontando na direção em que seguia, "num" conheces o teu pai? Por motivos que desconheço em absoluto, e não obstante só para ela ter olhado depois de a ouvir, ter-se-á sentido intimidada com a minha presença, ou então talvez a mais provável chamada de atenção tão própria nas divas... vai daí há que anúnciar a presença do protetor, não menos esbelto e artilhado macho. Quase de seguida ouço uma vozearia que me chegava de trás. Parei e virei-me. A uns bons cem metros, a correr na direção daquela que pressupus serem o seu filho e mulher e de mim próprio, vinha um indivíduo por quem passara minutos antes, e que me chamara a atenção pelo multicolorido fato de treino, superluminosas sapatilhas que mais pareciam duas enormes naves espaciais dada a esquisitíssima proporcionalidade do conjunto, e especialmente num par de correntes metálicas a condizer, uma ao pescoço, outra no pulso direito, segundo me pareceu presa a uma espécie de pingalim cuja serventia não descortinei, não vira quadrúpedes nas redondezas!, a proferir todo o género de impropérios e ameaças. Calculando mal o esforço que tinha que fazer deslocando-se sobre uma considerável altura de areia que atualmente cobre o passadiço de madeira, também ele gorducho e de perna curta, rápidamente lhe começou a faltar o ar. Avaliando cuidadosamente as circunstâncias e dimensão fisíca da ameaça, resolvi esperar para lhe aplicar ao melhor estilo do bom velho Bob De Niro, are you talking to me? Terá interpretado o movimento do braço da mulher como um qualquer pedido de ajuda pelo que, qual princípe em defesa da sua donzela, desata a correr a salvá-la vá lá saber-se de quê. Quando estava a poucos metros de mim, numa zona já com pouca areia e portanto muito mais favorável a escorreganços, completamente esgotado, tropeça em si mesmo e cai sobre um dos joelhos magoando-se. Aproximo-me dele que, ainda no chão, tenta falar mas, com manifesta falta de fôlego, só lhe sai um impercetível espécie de grunhido. Sem coragem de abusar da evidente fragilidade do homem, e prescindindo da minha grande oportunidade de brilhar pergunto-lhe, precisa de ajuda? Ainda no chão ergueu um pouco a cabeça e, sem me fitar, abana-a enérgicamente para um lado e para o outro respondendo negativamente. Segui o meu caminho sem me virar para trás enquanto ouvia o infeliz a insultar furiosamente a pobre mulher.


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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