semtelhas @ 12:16

Sex, 23/01/15

 

O filme "Blackhat" é uma simbiose quase perfeita entre um grande 007, e um excelente policial com uma abordagem a um assunto muito sério, porventura a maior ameaça que paira sobre a cabeça de todos nós, o terrorismo agindo através da autêntica seiva da vida da sociedades atuais que é a informática.

 

Por acaso, ou talvez não, apesar de tudo é preciso algum cuidado com estas matérias tão sensíveis, o objetivo é dinheiro aos biliões, mas podia ser dado o exemplo de um ataque a um qualquer Estado recorrendo a paralizações que semeariam, em pouquíssimo tempo, um caos inimaginável e sem fim à vista.

 

A primeira parte do filme, quase isenta de qualquer tipo de violência física, é um deleite para a mente, plena de subtilezas, por um lado dá um enorme prazer contemplar o mundo verdadeiramente fantástico que os homens foram capazes de construir, consubstânciado na suas mais brilhantes metrópoles, prodígios de automatismos ao serviço de um conforto em toda a linha, onde uma linguagem fascinante, assente na inteligência superior, resulta num pragmatismo harmonioso. Mas por outro, o elevado preço a pagar, revela a incrível fragilidade em que tudo isso está assente, como os génios do mal, espécie de irmãos gémeos dos bons, tantas vezes pervertidos pelas piores razões no sentido de francamente evitáveis, tão fácilmente podem pôr tudo em causa, literalmente. A segunda é uma formidável sucessão de acontecimentos que deixam o espetador pregado à cadeira, tal a mestria com que está construída. Sob todos os aspetos, claramente à altura do melhor que já se fez do género e, ainda por cima, alertando para algo tão candente e transversal há vida ao nível global .

 

 


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semtelhas @ 11:40

Dom, 18/01/15

 

Livros como "Mistérios", de Knut Hamsun, ou o filme "Ciclo Interrompido", são obras que deixam na memória um gosto amargodoce.

 

O sonho, o idealismo, a ingenuidade esclarecida, são uma maneira de estar, de viver, própria dos poetas, alguém que consegue vislumbrar nas mais simples coisas e factos da vida, a beleza que encerram em si mesmos ainda que normalmente escape aos sentidos do comum dos mortais. Uma existência dominada pela prevalência da ilusão, da permanente procura do belo, acarreta consigo o pesado fardo de uma realidade imposta, difícil de aceitar, não raras vezes insuportável. Aquilo que hoje é conhecido como doença bipolar, afinal o que é que por estes dias não é rotulado? levando até à pergunta, onde está a normalidade? é que, no limite, tudo é catalogável logo específico, no passado terá sido responsável por boa parte dos grandes escritores conhecidos, muito especialmente de poetas. Que tipo de estados de alma podem transbordar da visão de um dia cinzento de nevoeiro cerrado, por entre o qual se conseguem lobrigar as árvores ao fundo, tristes, completamente despidas de folhas ou cor, se momentos antes a televisão nos informou que dali a duas horas o sol vai brilhar? É da luta entre este frio pragmatismo de quase todos, e um homem com natural tendência para o lirismo, sempre elaborando historias mais ou menos fantásticas, adornando o que o rodeia, para logo cair no cruel precipício dos factos, particularmente na descrença dos outros e as tristes consequências, que trata esta autêntica viagem por dentro da alma de um sonhador.

 

 

 

Ciclo Interrompido é um filme a um tempo crú, brutal, mas também profundamente redentor. Incrivelmente atual, ou talvez nem tanto, afinal o assunto em causa é desde sempre transversal à humanidade. Qual o peso da fé,  no sentido da crença absoluta na existência do espírito para além do corpo, na vida das pessoas? Que tipo de efeitos positivos ou negativos lhes pode trazer? Se por um lado pode servir para aliviar o sofrimento, por outro é maquiavélicamente utilizada para enganar milhões. Tratando-se de um assunto ao qual é impossível escapar sem fazer uma opção, ou se nega algo culpando a dúvida, ou, com ela como justificação se acredita, também neste caso não se sai incólume. Recorrendo a um caso limite,a doença de um filho, assiste-se à luta entre a fé na continuidade, única capaz de possibilitar a sobrevivência, e um olhar crítico, dito esclarecido, sobre a condição humana, irredutível porque incapaz de ceder à suposta realidade. Uma experiência marcante.

 

 

 

Onde estas duas magníficas obras se cruzam é precisamente na sua conclusão: ficam para contar os pragmáticos, no ultimo momento a um pequeno passo da impossível conversão, mas inapelávelmente e para sempre orfãos dos idealistas. No fim a terrível pergunta do costume, valerá a pena viver assim?

 

 


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semtelhas @ 12:14

Sex, 09/01/15

 

Há um livro cujo título não podia  ser mais eloquente, Amamos Como Nos Amaram. Amamos como nos amaram, as diferenças acontecem por causa do que já éramos antes de ser-mos gente em carne e osso, o que herdamos dos nossos ascendentes através da transmissão dos genes. Quanto mais refinadas são as nossas características intrínsecas, mais longe levamos a nossa indomável vontade. Existe porém um momento na vida de alguns, gosto de acreditar que na da maioria, em que cada um parece encontrar-se com todos os outros, quando descobre o que temos em comum, um estado de graça que pode acontecer mais cedo ou mais tarde, mas se profunda e sinceramente assumido, sempre a tempo de quem o alcança salvar-se a si mesmo. As circunstâncias dessa redenção quase sempre surgem via maior ou menos sofrimento, quando se encara a nossa humilde realidade, quando numa aparente contradição, nos sentimos profundamente livres, como se onde haviam espinhos surjam macias pétalas, finalmente soltos das amarras que significavam tentar ser-se o que não se é, forçar os outros, sobretudo os que mais amamos a curvarem-se à nossa vontade, vivendo numa permanente ilusão que amargura, consome e fomenta um crescente vazio em volta.

 

Sono De Inverno é um filme maravilhoso, construído com amor, minúcia e profissionalismo. Inultrapassável na beleza e profundidade de um argumento onde estamos todos. Uns via personagem masculino, símbolo de todas, provávelmente maioritárias, criaturas a quem nunca foi dado o amor que as tornaria pessoas emocionalmente equilibradas, que passam o resto da vida a chantagear os outros, principalmente os que estão mais perto, por um "punhado de afeto", para logo o rejeitarem temendo a insuportável condescendência. Outros através da personagem feminina, os que caiem na ratoeira dos primeiros, e que quase sempre como que "vendem a alma ao diabo", transformando-se numa espécie de vítimas, na verdade de si mesmas, da sua inércia, contribuindo para uma existência comum alimentada de ressentimentos, permanentemente adiada. Felizmente é-nos oferecido o lado solar como conclusão. Um conjunto de acontecimentos conduz à luminosa libertação, primeiro de cada um, indispensável, depois adivinha-se a consequente na relação comum. A crua e imensa beleza natural dos cenários, a quase total ausência de música de fundo, a linguagem gutural,  o aspeto do "género mil e uma noites" mas decadente, sem brilho, dos personagens e do que os rodeia, belos mas não isentos de rudeza, e mesmo a omnipresente sensação de uma certa falta de limpeza, que transmite a tudo aquilo uma verosimilhança impressionante, a somar à fantástica capacidade de interpretação dos atores, tornam este filme inesquecível.

 

 


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semtelhas @ 14:42

Sex, 12/12/14

 

Ali para os lados de Los Angeles, mais concretamente em Hollywood, parece estar a acontecer um fenómeno que talvez corresponda à saturação daquilo que são as facetas extremas da dita sociedade de topo, não sentido mais lato do termo, mas naquilo, e aí é que está o drama, que eventualmente será objeto de maior inveja da esmagadora maioria quando observa de longe esta tribo rara. Quem se lembra de Philip Seymour Hoffman ou de Robin Willians? Estética perfeita segundo os cânones mais comuns, o luxo extremo,  um paraíso sexual, o poder do dinheiro, muito dinheiro, que tudo permite, basta escolher. A Sodoma e Gomorra dos nossos dias? Tal como nas originais metáforas, espécie de local de confluência dos sete pecados mortais?

 

Mapa para as Estrelas, o filme de David Cronenberg é sobre a devastadora competição da máquina de fazer cinema, sobretudo das suas maiores estrelas, os atores. Uma viagem por dentro de um mundo onde o egoísmo atinge o seu apogeu. Deixados para trás todos os pequenos pormenores da distante dignidade humana, quanto mais de qualquer noção de humanismo, desculpa de falhados, nada mais interessa senão o alimentar o ego. Um caminho onde tudo o que é normal é insuficiente, vulgar, uma doentia dependência da volúpia, seja de que ponto de vista for, empurrando aquela gente cada vez mais para baixo fruto de um permanente estado de insatisfação, mesmo recorrendo, e precisamente por isso, aos limites da lascívia, da luxúria, do absoluto e mesmo prazeiroso desprezo pelo mais frágil, e muito mais.

 

O enredo favorece o mergulho neste literalmente alucinante mundo aparte, e como é totalmente crú, verdadeiramente chocante, tendo o realizador inclusive o cuidado de prescindir daquele que normalmente é o principal trunfo de muitos, o voyeurismo fácil de corpos nus, centra-nos no essencial, uma linguagem profundamente obscena, particularmente dos mais jovens, na diabólica estrutura baseada na demanda do prazer imediato, na crueldade sem nome de todos, um faz de conta que se transfere dos locais de filmagens para a vida real, mas pouco, dado o sistemático uso de drogas, esvaziando-a por completo de sentido segundo a perspetiva do comum dos mortais. Ali só a transgressão transmite uma ainda assim efémera, intensa mas já ausente, vontade de viver. Morrer vem na cena seguinte.

 

 

 


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semtelhas @ 12:16

Sex, 14/11/14

 

Em alguns lugares do mundo de hoje, cada vez mais numerosos, atingiu-se um estado de apuro daquilo a que se convencionou chamar desenvolvimento, ainda que o mesmo se refira maioritáriamente a aspetos, de alguma forma, ligados ao materialismo, ao poder, e ao conforto na aceção que nesses meios lhe é dada, que a vida se tornou uma espécie de luta desenfreada, sem quartel, pelo dito sucesso, neste caso medido em notariedade e posse. Los Angeles é um desses sítios, seguramente um dos mais brilhantes e paradigmáticos dessa realidade. Ali a distância que vai do mais notável ao mais indigente atinge limites tais, que os mesmos por vezes se confundem, o fechar do círculo, tal é a efemeridade de um determinado estado, num dado momento. Tudo funciona a uma velocidade alucinante onde só os mais aptos, todos e ninguém, conseguem sobreviver, leia-se vencer, segundo os princípios por ali seguidos. Claro que num quadro destes qualquer resquício de moralidade é risível, o que interessa é fazer parte daquele jogo implacável em que resistir significa uma de duas coisas, ou abandonar-se a uma existência etérea, longe da realidade, dominada pelo virtual venha ele de onde vier, ou lutar desenfreadamente, para além de quase todas as regras, por um lugar ao sol. Esta circunstância é tanto mais visível e factual, quanto mais originária em atividades sociais, onde as armas a utilizar, para o bem e para o mal, são as pessoas, seus objetos e destinos, e dentro destas a comunicação social muito em particular.

É disso que trata o filme Nigthcrawler. A história de um repórter de imagem freelancer, exclusivamente de desgraças, o que, de longe, mais vende, sendo que no topo das escolhas estão os crimes de sangue, quanto mais violentos e explícitamente mostrados melhor, e muito especialmente se cometidos em chiques bairros ricos onde os criminosos sejam de minorias exploradas, negros ou hispânicos, e as vítimas brancos poderosos. O sangue da vingança. Nada de novo se não fosse o alto nível qualitativo daquilo tudo, sem exceção. De perder o fôlego! Ao ponto de quase nos sentimos invadidos pelo efeito afrodísiaco de toda aquela loucura muito para lá da razão.

 

 

 

 


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semtelhas @ 12:33

Dom, 19/10/14

 

Nada jamais foi tão escrito, cantado, dançado, filmado...como o que quer signifique essa palavrinha mágica, amor. Da paixão diz-se ser o seu estado inicial, aparentemente irrevogável em todos os sentidos... até deixar de o ser.

 

É desse iato de tempo, bem como de como interpretá-lo, que versam os dois últimos filmes de Alain Resnais, Vocês Ainda Não Viram Nada, e Comer, Beber e Cantar, que o realizador completou pouco tempo antes de morrer, o último exatamente três semanas antes.

 

Na verdade trata-se do legado extraordinário de um verdadeiro mestre. Ambos feitos como se de uma peça de teatro se tratassem, proporcionam a fruição do ato de interpretar em palco maravilhosamente executado, através de textos impecávelmente ditos e, cada um no seu estilo completamente diverso, o primeiro baseado no clássico grego Eurídice e Orfeu, o outro o mais atual possível.

 

Plenamente consciente da morte à espreita, o realizador dá-nos a sua versão de um amor supostamente único e autêntico, o da juventude, cheio de vigor, sonho e ingénuidade, só eternizável, e realmente merecedor, via morte, num primeiro filme que percorre a lenda da mitologia grega adaptando-a magistralmente aos nossos dias. No segundo oferece-nos precisamente a visão oposta, onde o amor(?) é a bem sucedida superação dessa espécie de estado de graça, em nome da sobrevivência, da segurança, sustentada noutros prazeres bem mais terrenos, cruamente prosaicos. Toda uma sábia história de vida magníficamente resumidos em cerca de três horas, valendo-se da mais nobre das artes, o teatro (ainda que via cinema), quando a morte já se anunciava ali à esquina, o que lhe confere uma autoridade e um savoir-faire preciosos.

 

 

 


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semtelhas @ 12:57

Sex, 26/09/14

 

Acredito que quando se chega ao dealbar de velhice se tem básicamente dois caminhos por que optar, ou alinhar na comum amargura, mescla de autopiedade e experiência, avançando penosamente até ao fim, ou fazer um uso positivo de tudo o que se aprendeu ao longo dos anos, e tornar o último troço da estrada da vida uma manifestação prática de sábia aceitação do fim de algo que de não se conhece continuidade. Os mais recentes filmes de Woody Allen indicam uma crescente tendência para a última escolha, funcionando quase como uma espécie de redenção, própria e aconselhada.

 

Magia ao Luar é uma pequena obra-prima. Pequena só porque assume para si mesma a importância da humildade da dúvida, ao contrário das arrogantes e falsamente grandiloquentes certezas. Desde um texto a raiar a perfeição, quer do ponto de vista do conteúdo quer da sua construção literária; dito por um naipe de atores, nomeadamente o protagonista no qual Allen se projeta, de uma forma corretíssima, para além das interpretações intocáveis; dotado de um guarda roupa e de cenários absolutamente excepcionais. Tudo fruto de um cuidado inultrapassável exigido por um realizador que cada ano que passa mais refina a absoluta excelência do seu cinema, tornando cada obra cada vez mais um objeto de puro prazer.

 

O mais comevedor, não obstante o altíssimo nível de tudo o resto, é pressentir desde há dois ou três filmes a este parte, mas neste muito em particular, a tranquila luta interior deste autêntico génio, no seu percurso desde um racionalismo aparentemente irredutível, paradigma do anticristo nietzscheziano, até ao aflorar de uma consciência, tão magnificamente retratada na preciosidade que é este filme, de que a vida só vale a pena e é minimamente suportável, enquanto sentida como algo de positivo, se imbuída de uma boa dose de espaço dado à ilusão, ao sonho, ou à crença. Notável o que a dura realidade e a passagem do tempo podem fazer a uma tão inteligente e criativa mente!

 


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semtelhas @ 13:01

Dom, 10/08/14

 

Por muito meritória que possa ser, e é, a tentativa de melhor dar a conhecer uma obra tão maravilhosa quanto O Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, recorrendo a um meio de divulgação de massas(?) supostamente muito mais eficaz que a literatura como é o cinema, e mesmo aceitando que o filme de João Botelho com o mesmo nome é tão fiel quanto possível ao livro, o resultado não deixa de ser um quanto desolador.

 

Não foi a primeira nem será seguramente a última vez que foi tentado este exercício de adaptação de um poema, porque apesar do livro ser em prosa a verdade é que aquilo é um imenso poema, a outras expressões artísticas a partir da escrita. Quantas peças de teatro nos deram nos palcos representações marcantes, desde os clássicos gregos, passando por Shakespeare, até obras recentes?

 

Acontece que uma coisa é a presença em palco de pessoas em carne e osso, ali a uns metros de distância, uma convocação dos sentidos muito mais autêntica, e sobretudo uma interação entre emissor e recetor onde os reflexos das sensações mútuas são imediatos e incontornáveis, uma outra completamente diferente é estar a reagir para uma câmara de filmar com todo um universo frio e distante em toda a volta.

 

Se já no caso do teatro é manifestamente impossível transmitir sentimentos tão avassaladoramente pessoais como o faz Pessoa na sua obra-prima, então no cinema essa tentativa chega a ser confrangedora, isto não obstante o inquestionável esforço e talento de todos os envolvidos no projeto, salvando-se o tal dar a conhecer a um mais vasto número de pessoas uma obra nada fácil de digerir via leitura, mas mais ainda a belíssima cidade que é Lisboa e as suas idiossincrasias, se vistas de determinados ângulos como é o caso.

 

Ler O Livro do Desassossego é uma experiência inesquecível, correspondente a uma viagem que vagueia das profundezas das angústias do inferno para o climax das euforias do paraíso, no tempo que demora um pingo de chuva desde que o descobrimos lá em cima, a precipitar-se no chão da rua que espreitámos das águas furtadas de um apartamentozito na baixa, espelhando-o, e possibilitando ao sol que súbitamente rompe por entre as núvens, devolver-nos a imensidão de luz que nos cega os olhos e ilumina a alma. 

 

O ato de leitura de tão impressionantes palavras faz-nos encarnar em nós mesmos, segundo a nossa própria interpretação mas autênticamente, o relato a um tempo fervoroso e tranquilo que estamos a sorver intensamente, sem quaisquer espécie de intermediários que, pelo caminho, fazem com que muito, quase tudo, fatalmente se perca. Longe de se ficar desassossegado quando muito sente-se uma espécie de (des)sossego.

 


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semtelhas @ 13:55

Sex, 04/07/14

 

Como quem olha para uma pessoa a desfiar um discurso, mas ignorando o conteúdo do mesmo, na sua componente verbal, só se interessando pela linguagem corporal de quem o está a proferir, por aquilo que está a ser revelado nas entrelinhas, muito mais interessado em descodificar a pessoa que as palavras que profere, parece ser a forma mais interessante de assistir ao filme Draft Day, menos por abordar um assunto práticamente exclusivo ao local onde se desenrola, muito mais por se tratar de um objeto pouco menos que inócuo.

 

Uma estória a propósito de algo que me pareceu ser último dia de transferências de jogadores entre as principais equipas de futebol americano nos EUA, possibilita perceber com rara eloquência como de facto funciona aquele país. Numa primeira análise fica-se com a impressão que se comparado com todo aquele circo em volta das transferências entre os maiores clubes de futebol europeus durante as derradeiras horas do último dia, se conclui estas serem assim uma espécie de brincadeira de amadores. Como alguém me dizia há muitos anos, ao pedir uma bebida, o que na Europa é frio ou quente, nos EUA sairá sempre gelado ou a ferver.

 

A começar por um conjunto de regras sofisticadissímo por detrás da negociação dos jogadores, onde tudo pode mudar até ao último segundo mantendo assim as hostes fielmente ligadas, passando por uma incrível máquina publicitária a promover toda uma série de eventos vistos em todo o país via televisões, até toda uma poderosa máquina estatística e não só, para escrutinar cientificamente cada jogador por parte de todos e cada um dos clubes. Tudo aquilo respira dinheiro, muito dinheiro, e montes de glamour, ou seja, a compra e venda da preciosa mercadoria que são os principais interpretes do jogo, transformada num glorioso espetáculo e ainda maior negócio.

 

O surpreendente, ou talvez não, é o tipo de relacionamento entre os principais atores dos bastidores naquele mundo infernalmente competitivo, os presidentes e os managers, os homens do poder, que é da mais absoluta frontalidade, aliás uma crueza de relacionamento comum a toda ou quase toda sociedade dos EUA, que muito choca os europeus cuja velha cultura tece muito mais intrincadas máfias. Na verdade no meio de tanto negócio, tantas luzes, tanta virtualidade, quem é que resistia a uma vivência onde a interação entre as pessoas, somasse ainda mais dissimulação ao espetáculo global que já é a vida daquela gente?

 

Maior paradigma desta maneira de estar, imenso departamento comercial onde todos tentam vender alguma coisa a alguém, é o próprio filme enquanto produto para ser consumido pelas massas, nisso absolutamente exemplar porque também ele foi planeado ao pormenor para ter tudo que resulte em sucesso no ato da venda, nomes sonantes, suspense, uma estorinha de amor, luta pelo poder, linguagem atrativa no sentido que faz a audiência achar-se inteligente, apesar de nunca deixar de a manipular, moralismo avulso, algum humor, não faltando sequer um final redondamente feliz. Uma alegria!

 

 

 


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semtelhas @ 12:01

Sex, 27/06/14

 

Quando entramos com aquele homem naquele automóvel topo de gama, conduzindo de meias grossas nos pés após tirar as pesadas botas carregadas de betão nas solas, o mesmo que se adivinha brevemente por todo o lado, naquela noite já cerrada mas profusamente iluminada por potentes projetores sobre os alicerces de mais um monstro, tal qual esta sociedade que nos oprime, prontos a receber as toneladas que brotarão das tripas de centenas de botoneiras, estamos longe de saber o que nos vai acontecer. Ao longo de duas horas que virarão a sua vida do avesso a conduzir numa autoestrada plena de tantos outros como ele, aquele homem fará desta viagem a metáfora de toda uma vida de concentração total, quase exclusivamente focada em não ser para os filhos o que para ele fora o seu pai, que fugindo ao seu nascimento fê-lo sentir-se como um bastardo durante muitos anos, para só aparecer quando não devia. O último ato(?) de uma existência na incansável procura da perfeição, expiação da culpa que lhe foi inculcada à nascença, óbvio caminho para a criação de todo o género de dependências nas pessoas que o rodeiam, mais por um dívida de gratidão que por amor autêntico, impossível amar quem não se ama a si próprio, e fatalmente sujeita a uma falha que finalmente o obrigará a sair desse limbo e, via redentor paraíso ou destruidor inferno, para o bem ou para o mal, libertando-se e libertando os mais próximos, exceto os filhos que, tal como ele, carregarão a ferida pelo pai aberta para o resto das suas vidas.

 

O filme Locke, que decorre em tempo real, o que desde logo lhe confere uma verosimilhança impressionante, mas sobretudo servido por uma narrativa quase isenta de adjetivos, enxuta, e ainda assim poderosa o que diz muito sobre a intensidade deste argumento. Duas horas que passam a correr, sempre no fio da navalha, à beira do abismo físico, o risco de conduzir em piloto automático, e mental porque sujeito às piores pressões psicológicas das quais toda a vida fugira, agora a desabarem sobre ele todas ao mesmo tempo. Um assumido tudo ou nada de quem profundamente saturado, mais, ou menos, inconscientemente procura desesperadamente uma fuga. O mesmo grito de apelo à vida que o seu pai não quis ouvir negando-lhe assim uma existência equilibrada, chama agora por ele. Qual a sua escolha? Que destino cumprirá?

 

 


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semtelhas @ 11:51

Sab, 21/06/14

 

Por razões que a razão desconhece e a própria medicina, se não de as conhecer seguramente de as evitar, há pessoas intrínsecamente más que vivem exclusivamente do sofrimento das outras. Normalmente este fenómeno verifica-se dentro das famílias pelas óbvias razões de proximidade, que ajudam a ultrapassar a não raramente comum dificuldade destas criaturas em socializarem.

 

A literatura, o cinema e a arte em geral são pródigos na utilização deste tema, na maior parte dos casos por fácilmente fornecerem aqueles condimentos mais adequados a um consumo rápido porque apetecível, violência, crime, incesto, etc.. Ou seja toda uma oferta de atraentes pecados que tantas vezes assombram e chegam mesmo a pairar ameaçadoramente sobre a cabeça de tantos de nós, apimentando e dando assim algum sentido a existências, na sua maioria, anestesiadas pela rotineira luta pela sobrevivência. Este tipo de abordagens, frívolas e interesseiras na exclusiva busca do lucro, não só não esclarecem coisa alguma, como sobretudo contríbuem decisivamente para o incremento dessas práticas, como que colocando todo o género de psicopatas numa espécie de trono para estes estranhos falsos herois. Na verdade o endeusamento de pessoas pouco saudáveis, felizmente quase sempre fruto da ficção, mas que não deixam de passar uma mensagem profundamente errada.

 

O que nós dá o filme Tom Na Quinta é exatamente o oposto a tudo isso. É o cru descascar de uma realidade, protagonizada por pessoas duplamente vítimas, da perversidade de gente com problemas psicopatológicos, mas também da perseguição da própria sociedade devido às suas escolhas diferentes, políticamente incorretas. Sem artefícios ou vénias ao todopoderoso mercado, o relato da quase fatal submissão a um suposto destino traçado, em nome do amor, feito de dor e sofrimento, até à vitória inextremis, leia-se libertação(?) final. Um grito de liberdade e uma luz de esperança.

 


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semtelhas @ 11:59

Sex, 13/06/14

 

Num mundo em que os vampiros são os que vivem eternamente através das suas obras intemporais, Shakespear, Schubert, Byron, Philipp Marlow ou os Beatles, ainda possível nos lugares eleitos pelos românticos, ainda não completamente infetados como a Tânger do sonhador Paul Bowles, ou já libertos pela morte, como a abandonada Detroit, outrora o paradigma da industrialização, um mundo no qual o sangue indispensável à sobrevivência representa o Tempo, os tempos que correm, cada vez mais envenenado pelo imposição do virtual face ao concreto, à fama a qualquer preço por troca do verdadeiro talento, pleno de zombies alienados cujo único préstimo é a sua juventude, fonte de vida, já só resta sobreviver nostálgicamente aguardando a inevitável revolução, à qual, como sempre, sobreviverão exclusivamente os autênticos amantes do romantismo. Só Os Amantes Sobrevivem, o filme.

 

Complexo, difícil de decifrar, traz contudo algumas mensagens mais óbvias como por exemplo a abordagem da importância da água como metáfora para tudo o resto, porque será que para entenderem precisam perder tudo?, pergunta um dos protagonistas, o pessimista Adão, mas também oferece uma saída quando a otimista, pragmática e resiliente primordial Eva, sempre elas!, o aconselha a não se focar tanto em si próprio, porque isso só o levará ao isolamento, à terrível solidão e amargura, que viva!, que dance! Na sequência do racíocinio deste brilhante realizador dou comigo a pensar como, se tivesse visto este filme cinco ou seis anos atrás, ficaria a olhar para ele como um boi olha para um palácio e como isso não faria de mim uma pessoa pior do que sou hoje, nem hoje pior do que serei daqui a meia dúzia de anos. A existência só faz sentido se realmente partilhada inserido num grupo onde sinceramente se comunica. Só aí se pode encontrar um vislumbre da felicidade, independentemente de raças, credos, localidades, condição social financeira, educacional ou cultural. Curioso como nunca o tinha constatado com tanta clareza!

 


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semtelhas @ 13:26

Dom, 08/06/14

 

Há vários lugares comuns para definir aquela linha estreita que separa o amor do ódio, o belo do horrível, ou a bondade da perversidade, mas aquele que talvez mais se aproxime do que realmente acontece seja o que diz que os extremos se tocam.

 

O filme A Pianista aborda uma dessas circunstâncias, a perversão. Tal como todas as outras pode ter resultado de vários motivos, herança genética, acontecimento profundamente modificador de caráter, educação, ou a mistura de alguns. Neste caso, não sendo nunca evidente qual a principal razão do comportamente pouco vulgar da protagonista, fica claro que uma educação superorientada, brutalmente disciplinadora e sobretudo ultramanipuladora criam um autêntico monstro. Mas quem é o verdadeiro monstro? Quem o concebe ou quem pratica as monstruosidades? Talvez o mais recente exemplo de quão nefasto e avassalador pode ser o não dar resposta correta a esta pergunta seja o terrorismo.

 

É neste ponto que o filme mais se detém, onde deixa mais interrogações. Quando uma pessoa encontra como único escape para o seu sofrimento automutilar-se porque incapaz de reagir, ou achando-de intrínsecamente feia ou imunda, é procurando de forma demente uma suposta perfeição que se sente falsamente redimida, ou ainda, se só descobre o prazer sexual por via da humilhação, que tipo de olhar deve merecer da parte dos outros? A eterna questão de que, em última análise, todos somos vítimas de qualquer coisa pelo que compete a cada um libertar-se é, mais uma vez, sériamente posta em causa. Uma das leituras possíveis do argumento, será porventura a de que a saída passará sempre pela colaboração entre ofensor e ofendido, na verdade ambos sofredores.

 


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semtelhas @ 13:40

Sex, 06/06/14

 

Ver imagens das grandes urbes indianas, nomeadamente de Mumbai, tem vindo a provocar-me sensações que ao longo dos anos têm derivado da curiosidade e admiração, para o afastamento e até uma certa repulsa. Até ontem.

 

Não é que todo aquele exotismo que provém do adivinhar da multiplicidade de cheiros, sensações táteis, temperaturas quentes, e da visão daquela explosão de côr, não mantenha o seu encanto, simplesmente agora também com elas transportam outras realidades menos agradáveis como a sujidade e as doenças inerentes, mesmo o aspecto generalizadamente piroso, como se tudo seja plastificado e pronto a cair ao mais leve toque. Uma ideia que foi crescendo com o passar dos anos deixando irremedívelmente para trás aquele fascínio que a Índia em mim, e em tantos outros jovens, criava. 

 

Assistindo ao filme indiano, A Lancheira, foi precisamente todo esse aparente caos, ou mais exatamente a forma de o contornar, de o absorver, compreendendo-o, percebendo que é algo de absolutamente irreversível, só aceitável por via de uma real e sincera incorporação, que, de alguma forma recuperei o meu sentir juvenil por aquelas bandas. Já não numa perspectiva sonhadora, também ligada a determinadas crenças, mas sim respeitando a natureza daquela gente, seguramente um dos paradigmas daquilo que é a Tribo Humana, aquela de que todos, independentemente de localizações, credos, cor ou condição, fazemos parte.

 

É um filme simples, despretensioso, direto, tão pouco ao gosto das sofisticadas exigências dos críticos, mas passa uma mensagem importante. Um homem amargurado e perto da reforma, vê cruzar-se na sua vida uma jovem mulher a descobrir os desencantos de uma existência sem sentido, exclusivamente dedicada ao seu homem, à semelhança da das mulheres mais velhas que a rodeiam e com os tristes resultados que pode diáriamente constatar. Pelo meio uma série de equívocos que resultam no essencial, a libertação de ambos, ele da amargura, ela da sua prisão. No fim nem o artista ou o bandido morrem, nem ela casa com o cavalo, mas ficam todos felizes.

 

 

 

 


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semtelhas @ 12:33

Sex, 23/05/14

 

Um antigo colega de trabalho, há já uns anos e a propósito de algo de que não me lembro dizia-me, cuidado com a revolta dos fracos. Uma frase que não me vinha à tona da memória há muito tempo mas que ficou gravada. Comprovei-o ontem assistindo ao filme, "Ruína Azul".

 

A maldade desenterrada da profundeza das vísceras, um esforço devastador feito por um comum mortal, igual a tantos outros, dos que instintivamente fecham uma torneira se está a desperdiçar água, a quem nos momentos cruciais tudo atrapalha, vulgares em todos os sentidos, também na incapacidade de resistir à ordem imanada do seu âmago que os impele na demanda de uma justiça mortalmente ferida, e que procuram repôr não importa a que custo, a força e a fragilidade dos fracos(?). Uma vingança servida quente.

 

Um prodigioso filme construído meticulosamente, sem falhas, em busca da perfeição sem se preocupar ostensivamente com a bilheteira, deixando sempre boa parte do trabalho ao espetador, sómente fornecendo pistas para que seja aquele a chegar às muitas pequenas conclusões ao longo de todo ele. Aquele homem que procura vingança primeiro e proteção depois para familiares, é um homem normal, tão normal como noventa e muitos por cento das pessoas que veêm a fita, e aí reside uma das principais virtudes deste trabalho. Porque todos sentimos ódio, alguma vez, faz parte da vida, da sobrevivência. Depois há os que vivem nele até à morte. Raros. E também os que para ele foram empurrados tão brutal e decisivamente, que nele procuram a razão de viver na desesperada busca do fim, porque só na morte encontram a paz.

 

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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