semtelhas @ 13:14

Qua, 18/03/15

 

Os oito anos que passei na companhia de Rute até ao desaparecimento de Emília pareceram-me os melhores da minha vida, apesar das circunstâncias não terem sido fáceis. A doença avançava inexorávelmente e minava a existência da idosa senhora e de quem a acompanhava sem piedade. Os primeiros anos ainda decorreram numa espécie de normalidade fingida mas depois, quase até ao final, o último foi já em estado pouco menos que vegetativo, foram verdadeiramente duros especialmente para Rute, que sempre negou a possibilidade de internar a mãe mesmo quando esta a insultava do pior e até tentava agredi-la como se, o que para ela era uma realidade, de uma perigosa desconhecida se tratasse. Nesses momentos pude descobrir todo o seu valor, a para mim inacreditável maneira como aceitava essas situações e as ultrapassava, em nome da inalianável obrigação de apoiar a mãe até ao limite das suas forças. Foram raras as ocasiões em que a vi verter uma lágrima e socorrer-se do meu amparo, mas sabia da enorme importância e significado da minha presença ali. 

Uns dias após o enterro de Luísa propôs-me um lugar como supervisor dos vendedores que tinha na agência imobiliária que declinei, aceitando contudo um de vendedor se se mantivesse a oferta de trabalho. Percebi que gostou da minha opção. Também me abriu as portas de sua casa, podia até mudar-me se assim o desejasse, o que fiz parcialmente, mantendo assim em aberto a possibilidade de um qualquer recuo fosse de quem fosse. Na verdade até ao dia da morte de Emília passei muito mais dias lá que na minha própria casa, uma vivência realmente feliz ao longo do tempo suficiente para entre nós ter crescido um entendimento só possível entre pessoas que se conhecem e amam profundamente. Devido ao problema da mãe nunca fomos a lado nenhum, uma vida feita de um trabalho não demasiado exigente, e muito especialmente das inúmeras caminhadas em conjunto na praia ali tão perto, muita leitura, e de rápidas fugas à cidade para uma refeição diferente, um espetáculo, ou uma visita a esta ou aquela exposição, recorrendo nessas alturas a acompanhantes profissionais contratadas à hora para ficarem com a doente.

Foi quando as crises de Emília se tornaram mais dolorosas e frequentes que fruto de uma mobilização quase militar de Rute, de nada valendo a minha insistência para que a entregasse nas mãos de cuidadores experientes, mesmo sem sair de casa, que a nossa relação sofreu uma alteração sem retorno. Não que os sentimentos mútuos se tenham alterado, mas aquela sua obstinação por aquilo que eu considerava ser uma causa perdida, e afinal de contas eu estava ali apesar de por vezes ela parecer esquecê-lo,!, e sobretudo quando lho disse com toda a crueza num momento de desespero, muito mais pelo que assistia a acontecer com ela, um enorme sofrimento, do que comigo próprio, acabou por colocar entre nós uma barreira invisível que nos impedia de comunicar como sempre fizeramos. A partir de então, numa aparente contradição, quanto mais ela precisava menos a mim recorria, acabando por chamar quem a ajudasse mas práticamente não abdicando de dirigir as operações, pouco tempo sobrando para o resto. Comecei a ir dormir mais vezes ao meu apartamento e, lentamente, a reconstruir uma existência solitária que pensava ter deixado definitivamente para trás.

Não foi por isso de estranhar que após o desaparecimento da mãe Rute me tenha anunciado a intenção de vender a agência, que eu já havia abandonado em tempos, e ir, como disse, "passar uns tempos com uns familiares que o meu pai deixou em Angola", outra mulher e filhos, seus irmãos? nunca me falara deles. Quando nos despedimos, ela já perto dos cinquenta, apesar de ter envelhecido considerávelmente na última década mantinha um aspeto bastante atraente, e eu ultrapassados os sessenta e cinco, deixamos tudo em aberto, e não foi necessário verbalizá-lo, foi inerente à sua postura como a de quem sabia não se ter portado muito bem mas as coisas não tinham que acabar ali, e á minha a de alguém que não obstante tranquilamente resignado transpirava orfandade. Agora, decorridos três anos, na expectativa de um E-mail de Rute que não chega, cada vez são mais espaçados, muito provávelmente acha chegado o momento de, saudavelmente, como me parece escutá-la dizer, largar amarras, resolvi vender o meu apartamento e mudar-me para um lar de idosos com o auspicioso nome "Flor da Idade". Últimamente não me tenho sentido muito bem, curiosamente sentindo a cabeça invadida por aquele mesmo vazio depois de nela ter sido atingido naquela longínqua primeira noite à porta da casa de Rute, para além da solidão me começar a pesar de uma forma perto do insustentável. É no meu belo quarto com vistas para um frondoso jardim, que escrevo estas linhas num esforço razoávelmente bem sucedido de viver revivendo o passado. Há poucos meses fui surpreendido pela visita de João, não sei como me encontrou, talvez o brasileiro do café do meu antigo prédio, a quem transmiti para onde me ía mudar, que se fazia acompanhar da bonita Amina. Foi um momento de rara felicidade apesar de por ele saber o meu amigo Eurico ter sido vítima de um AVC e estar parcialmente paralisado. É que João estava completamente livre de drogas, e, com Amina mais um filho que entretanto nascera, tinham um desses estabelecimentos que agora existem, misto de café, pequeno restaurante e livraria, numa zona boa da cidade e com sucesso assinalável, pelos vistos, o que eu desconhecia, a família de Amina tinha algumas posses e de tão feliz nas opções de vida dela resolvera ajudar. Também me disse que os pais de Luísa continuam a definhar na mercearia, tão decrépita quanto eles, "parecem saídos de um daqueles contos de avarentos do Dickens", disse-me a rir.

 


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semtelhas @ 11:06

Qui, 05/03/15

 

Em Portugal quase metade da população sofre de problemas mentais.

 

Encurralados estamos todos. Seja por circunstâncias financeiras, familiares, sociais, laborais, de falta de saúde, pela juventude, pelo envelhecimento, ou mais prosaicas como simplesmente privados de liberdade dentro de uma cela, e em termos mais genéricos pela própria tendência natural para sobreviver. Mas essa nunca será a questão essencial, como aceitar a circunstância da vida a cada momento sim, é o principal. Como dizia o grande Gabriel Garcia Marquez o segredo não está em chegar ao topo, seja lá isso o que for para cada um, mas a forma como se percorre o caminho na tentativa de o alcançar. Valorizar o que se tem é uma atitude de humildade bem mais rara e difícil do que pode parecer à primeira vista, no entanto é o primeiro passo para encarar o presente com tranquilidade e o futuro com esperança. Como tudo na vida a própria arte de viver é feita de experiência, simplesmente na maior parte das vezes quando esta chega sentimos com ela já estarmos comprometidos irremediávelmente. É este sentimento de impotência que tantas vezes torna a existência das pessoas, individualmente e por consequência do grupo a que pertencem, algo penoso, frustrante e que leva à sua mais ou menos rápida degradação, nomeadamente pela contração de doenças maioritáriamente originárias num dia a dia feito de amargura, inveja, revolta, desejo de vingança, etc.. Na realidade é como se uma espécie de autismo comece a fazê-las funcionar em circuito fechado, nada nem ninguém ouvindo, caindo na tentação, desde os mais pequenos atos às mais importantes opções, de considerar todos os outros incapazes de perceberem a sua situação, na prática minimizando o valor deles e a sua capacidade de análise porque não conseguem libertar-se da sua própria solução, única que acham válida, mas que na realidade por manifesta e doentia teimosia não raras vezes leva a caminhos desastrosos e até, quantas vezes, a uma espiral de situações negativas. É por isso fundamental dar uso a algumas ferramentas que tal como noutras áreas da vida, também no ofício de viver, ajudam a melhor enfrentar problemas, a resolvê-los, e uma vez seguido esse caminho é impressionante porque incrivelmente surpreendente como tudo pode ser mais fácil. Somos um bicho de hábitos, tudo se aprende, logo se adotarmos empenhadamente alguns truques, no bom sentido da palavra, é realmente possível viver com a serenidade e harmonia absolutamente indispensáveis a uma existência percecionada por cada um como feliz. Por volta dos vinte e cinco anos de idade frequentei um curso de relações humanas que recorrentemente me tem ajudado a ultrapassar dificuldades, sobretudo ter a capacidade de na maior parte dos casos ver o lado positivo mesmo na pior das coisas, e onde aprendi:

 

- Não criticar, não condenar, não me queixar.

- Apesar de tudo amanhã nasce um novo dia.

- A colaborar com o inevitável.

- Fazer as coisas sempre o melhor que puder.

- Analisar os erros próprios com sinceridade.

- A não chorar sobre o leite derramado.

- Considerar o outro mais inteligente que eu.

- Apreciar os outros honesta e sinceramente.


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semtelhas @ 12:33

Sab, 14/02/15

 

O dia mostrava-se apropriadamente cinzento. Caía uma chuva miudinha que empurrava as pessoas para entrada da capela do cemitério, por sorte imediatamente precedida por uma espécie de largo para as receber nestas ocasiões, ali praticamente exclusivas, coberto por uma vasto telhado constituído por uma armação em aço, onde assentava um material translúcido do qual não consegui descobrir a natureza. Aquelas circunstâncias e a grande número de participantes, os desenlaces trágicos atraem gente como o mel moscas, favoreciam uma exagerada proximidade, pelo que nos juntamos aos poucos que optaram por se manterem ligeiramente afastados com os seus guardaschuva abertos. Não demorou muito para que Rute com aquela sua aura dominadora, reforçada por uma apresentação perfeita tendo em conta o tipo de evento, chamasse as atenções, apesar de no momento imediatamente a seguir eu perceber que as palavras sussuradas eram a meu respeito, coincidiam com a direção para onde olhavam. Desconhecia em absoluto o que saberiam da minha relação com Luísa e a família, práticamente nula se analisada sob o ponto de vista da amizade, além de estar a ver todos aqueles rostos pela primeira vez. Todos menos os de Eurico e João que surpreendentemente estavam presentes, questionava-me se também ele dela teria sido professor, e o filho provávelmente colega ou mesmo amigo. E, naturalmente, os dos infelizes pais da sua malograda Luisinha.

Ao longo do dia anterior depois de Rute ter partido para sua casa e para junto da mãe que segundo me disse cada vez mais carecia da sua presença, antecipara aquele momento e preparara-me para o pior. Quem sabe até para cenas tristes em tudo semelhantes às que aqueles mesmos personagens me haviam sujeitado alguns anos atrás, quando me acusaram de assédio à filha, mas também tinha consciência que teria que enterrar tudo aquilo com a defunta. O que me acontecera nas últimas horas funcionara como uma autêntica benção, exatamente quando o vazio parecia rodear-me por todos os lados, sentia-me uma pobre pequena ilha agreste, já sem nada para oferecer, esquecida, abandonada, eis que as coisas mudam cento e oitenta graus graças à aparição daquela, para mim, verdadeira Nossa Senhora, um milagre totalmente inesperado e do qual ainda me perguntava se seria merecedor. Pouco falaramos mas o suficiente para me deixar num estado que raiava a incredulidade face ao entusiasmo que pressentia invadir-me, é que ela conversava incluindo-me com a maior das naturalidades nos dias que se seguiriam ao funeral para onde combinamos o próximo encontro. Chegara a fazer uma leve alusão ao valor comercial daquele meu andar enquanto, de volta ao terraço, estendíamos o olhar sobre a cidade, interessante segundo classificou, questão que não logrei perceber tratar-se de um devaneio de uma profissional na matéria, ou qualquer sorrateira investida no meu futuro próximo. Do que não restavam dúvidas é que nos entenderamos perfeitamente na cama, duas criaturas essencialmente sôfregas, carnívoras, mas igualmente ambas dotadas da experiência capaz de tornar o sexo em algo realmente satisfatório a todos os níveis. Na verdade estava pronto para enfrentar muito mais do que o pior que imaginava poder vir a acontecer.

Mas agora, perante a acusação de culpa que faíscava nos olhos do pai e da mãe de Luísa enquanto deles nos aproximavamos, uma angústia enorme começou a apertar-me a garganta, e temi nem sequer conseguir fazer-me ouvir quando, já em frente deles, ouço a voz de Luísa que num primeiro instante parecia chegar vários metros afastada, dizer, "Lamentamos muito, era tão nova!  concerteza não merecia tão triste sorte, mas é assim a vida, ficam cá os vivos como nós para expiarmos os nossos pecados". Confusos, ainda a tentarem perceber o que tinham ouvido o que lhes pôs nos rostos uma expressão algo intimidada, reagiram de pronto à nossa intenção de os cumprimentarmos para depois permanecerem estáticos, e acredito que a fitar-nos incrédulos enquanto nos afastavamos, apanhados de surpresa por aquela abordagem que não lhes deixara o minímo espaço para retaliações. Não conseguiria explicar porquê, mas ainda não chegaramos junto de Eurico e do filho para onde eu próprio nos conduzia depois deste episódio, e já percebera que jamais aqueles dois voltariam a incomodar-me. O mais espantoso é que nunca trocara quaisquer impressões a propósito daquela gente com Rute, o que não evitara que rápidamente descodificasse toda uma relação familiar, particularmente as muitas responsabilidades que impendiam sobre aquelas duas pobres criaturas, que no afã de tanto protegerem a sua menina criaram uma espécie de monstro, alguém profundamente desiquilibrado. Por outro lado nunca me sentira tão neutro, tão avassaladoramente dominado por outra pessoa, Rute pura e simplesmente pegara nas rédeas da situção e sem qualquer hesitação, não me dando a mais remota chance de intervir, começara e acabara de tratar do assunto. Pela primeira vez tive um assomo da realidade que eventualmente me esperava e, se primeiro tentei justificar aquela ação pelo facto dela me ter sentido a, literalmente, tremelicar de ansiedade, logo, mentalmente e se calhar também fisícamente, encolhi os ombros enquanto pensava, "é o preço que tens a pagar".

Antes de fugir dali e enterrar definitivamente nas catacumbas da memória gente e acontecimentos que tão negativamente haviam mexido com a minha vida, troquei algumas impressões com Eurico e João, agora tanto quanto me contavam inseparáveis companheiros, o meu antigo colega pedira uma licença sem vencimento por tempo indeterminado para acompanhar de perto a recuperação do filho que seguia pelo melhor dos caminhos. Alguns meses mais tarde, encontramo-nos por mero acaso, este disse-me ter ter recebido uma carta de Amina, metódica, havia guardado cuidadosamente o endereço do pai, a informá-lo que acabara por conseguir com outro, pelos vistos um holandês que em tempos fora seu companheiro depois abandonado por troca com João, o que com ele falhara, recuperá-lo para a vida, agora feita em comum em Amesterdão. "Menos uma terrorista", pensei na altura. Quanto a Eurico havia pedido a reforma na sequência da licença sem vencimento, encontrando-se bastante ocupado com os outros dois filhos, nomeadamente com a filha, apesar desta, depois da recuperação do irmão, se mostrar bastante mais razoável. Depois disso nunca mais os vi ou com eles contactei!

Seguíamos comentando que seguramente teríamos à nossa espera um lugar no inferno depois do que nos rimos relembrando as caras aparvalhadas dos pais de Luísa, durante a viagem em direção de sua casa para a qual me havia convidado e que eu aguardava rever com ansiedade. Também aqueles sítios tão agradáveis de que já tinha saudades, pelos quais desde haviam anos passava nas idas e vindas a caminho da praia e do exercício físico, e naturalmente Emília, afinal de contas a grande responsável por estarmos aqui e agora. Para completar o quadro de felicidade que desde os últimos dias parecia mágicamente em construção, quando chegamos a sol resolveu aparecer num céu azul a crescer rápidamente, incidindo luminoso sobre a bonita vivenda, assim realçando as inúmeras flores do pequeno jardim da entrada numa explosão de cor primaveril, e o vasto verde em toda a volta, ainda brilhante e cheiroso graças à chuva que caíra purificadora. Encontramos Emília sentada exatamente naquele mesmo sofá até onde eu meses antes a apoiara ainda fragilizada pelo que então acontecera. Fitou-me atentamente e reclamou com Rute sem de mim desviar os olhos, "Não me apresentas o teu amigo?"


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semtelhas @ 13:08

Sab, 07/02/15

 

Perante o meu estado aparentemente catatónico, experimentava um avassalador efeito de catarse que ela começava a adivinhar, como se de repente, dentro do mesmo segundo tivesse passado do inferno ao paraíso, sem direito a limbos ou purgatórios, ali estava eu a viver um dos mais intensos momentos da minha já longa existência. Durante uns quinze/trinta eternos segundos, pela sua duração e significado, permanecemos a fitar-nos mutúamente, enquanto um filme que envolvia uma tarde de sonho seguida de um pesadelo, uma longa estadia num hospital a lutar pela sobrevivência, o vislumbre de um futuro radioso e a sua destruição filha de um passado mal resolvido, atravessava as nossas mentes como um raio de luz trilha o espaço, até nos encontrarmos ali e agora, naquelas circunstâncias que subitamente, permitiam uma espécie de "retomar o fio à meada" porque um nó, um doloroso obstáculo, tinha sido ultrapassado graças a um terrível milagre. Estendi-lhe as mãos abertas e o contato com as dela, um misto de segurança pela energia com que me agarrou, e suavidade pela sensação de seda do toque, transmitiu-me por osmose uma paz que me fez quebrar fisícamente, quase desabando pela encosta abaixo da torrente de emoções que corria imparável, não fosse ela ter-me dado um forte abraço, o nosso primeiro abraço.

Afastou-se lentamente para dentro da sala, e descobrindo umas quantas garrafas de cerveja vazias, semiescondidas entre dois sofás e que nos haviam escapado na pressa para ter tudo arrumado à chegada de Eurico, disse num tom isento de qualquer ironia, Já estiveste a afogar as mágoas. Encostado à parede entre o terraço e o interior, tentando pôr as ideias em ordem, só então processei mentalmente, para além do instinto que já mo havia sussurado lá bem fundo da consciência, a enorme oportunidade que aquela mulher me estava a dar, o que poderia representar a sua presença, a legitimidade das suas dúvidas, as explicações que eu lhe devia e nunca dera, como o destino insistia em nos colocar na vida um do outro, tudo isto era um sinal que não podia deixar de seguir. Convidei-a a sentar-se e contei-lhe tudo. Enquanto me revisitava a mim próprio em lugares havia muito remetidos para as catacumbas da memória, um esquecimento forçado indispensável para uma vivência minimamente razoável, mas também propiciador de uma paz podre, ela observava-me tranquilamente, e no seu rosto fui lendo uma mudança que se construía devagar mas assumida, como quem, com satisfação, confirma algo que há muito esperava e sobretudo desejava. Quando achou que estava dito o suficiente sentenciou carinhosa, Percebi. Acho que um duche vai pôr-te novo. Entretanto, a não ser que vejas algum inconveniente, vou fazer umas chamadas para sabermos quando é o funeral. Compreendi e aceitei o poder daquela mulher, como, finalmente e depois de toda uma vida onde a ansiedade mais intríseca, quase sempre disfarçada perante os outros e especialmente mim próprio, me havia dominado e impedido de viver na verdadeira aceção da palavra mas sim sobreviver, um terrorista num palco de guerras surdas, havia chegado a altura para descansar, deixar alguém assumir o comando, as responsabilidades, os deuses teimavam em mostrar-me o caminho era só segui-lo.

Deixei a água escorrer sobre mim por muitos e saborosos minutos, como quem mais que o corpo lava a alma. Minutos antes ao ver-me ao espelho descobrira um velho com os olhos inchados, e uma barba não recordava de quantos dias que me assustara, e me fizera questionar de como uma mulher como Rute perdia tempo comigo, e a única resposta que obtive encontrei-a num certo brilho nos olhos que também a mim encheu de entusiasmo. Envolto num cerrado nevoeiro consegui cortar a barba a contento, penteei o cabelo molhado para trás e lobriguei um homem francamente rejuvenescido onde antes vira uma "desgraça", ela, como sempre, tivera razão. Tal como um D.Sebastião surgido da nevoeiro passei ao quarto e o que vi fez-me parar, Rute estava calmamente sentada no sofá onde eu poucas horas antes acordara, vestia o meu robe fino, tinha mais uns quantos grossos, e adotara uma postura sedutora. O tronco como de costume muito direito, corretamente encostado, tal como a cabeça onde soltara a frondosa cabeleira de um castanho escuro extremamente brilhante. O rosto exibia um sorriso convidativo, sobretudo legível nos olhos onde a meiguisse e a lascívia se misturavam na dose certa, menos nos lábios cheios bastante húmidos e entreabertos onde aquela claramente dominava. Deixara o robe parcialmente aberto no peito, pelo que era possível ver das mamas o suficiente para adivinhar a perfeição na forma e dimensão generosas, bem como sobre as pernas que tinha cruzadas, permitindo apreciar uma das magníficas coxas, a que eu já vislumbrara numa bela tarde quente?, das longas e sensuais pernas. As mãos, dedos finos e compridos, estavam abandonadas sobre os braços do sofá, caindo elegantemente no vazio quando estes terminam, docemente disponíveis. Completamente desprevenido e nú levitei até ela, debruçei-me e beijei-a longamente e pela primeira vez. Sem mudar de posição, qual raínha, respondeu-me com igual sofreguidão e segredou-me ao ouvido, está tudo tratado. E eu pensei, como é possível conhecer-me tão bem? Como sabia que dizendo-me isto ía completar o círculo perfeito do momento que eu vivia? E como esse facto me libertaria para a ela me entregar sem quaisquer reservas ou limites? Então ajoelhei-me enquanto afastava suavemente o robe para os lados, e pude ver bem de perto o paraíso que me esperava. Deixei os olhos acompanharem as mãos a vaguearem por aquele corpo fantástico e em grande forma apesar de já não ser uma menina, demorei-me a cobri-lo de beijos, ora levantando-me ora sobre os joelhos, exalava um odor irresistível, nem doce nem ácido, uma neutralidade que remetia para a pureza, provei-lhe a sabor na boca, na pele, deixando crescer em mim a expectativa doutros sabores para mais tarde. Quando começou a emitir uns quase impercetíveis gemidos, estava iniciada a festa dos sentidos que queria oferecer-lhe, que em conjunto celebrássemos, e conduzia para a cama que ela mesma preparara para nos receber.


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semtelhas @ 17:08

Sex, 06/02/15

 

O pequeno almoço foi comido vorazmente mas em silêncio, o que fez realçar os barulhos animalescos da mastigação e dos alimentos a serem deglutidos. Se no meu caso aquela situação me fazia recuar décadas e à imensa fome que sempre tinha depois de fumar haxixe ou liamba, em João acreditava que o fenómeno se devesse sobretudo à sua juventude, nunca ouvira que o consumo de heroína abrisse o apetite, bem pelo contrário. Quando a campaínha tocou eu lavava a última peça de louça, a qual o meu ajudante aguardava dócilmente de braços estendidos com um pano nas mãos para a limpar. Olhámo-nos, quem ía abrir? Dei-lhe alguns segundos e perante a sua hesitação dirigi-me para a porta acabando por encontrar Eurico já meio do corredor, Assaltaram-te foi? Estás magoado? Foi por isso que ligas-te? Esquecera por completo que a porta não fechava, e todas aquelas perguntas de sopetão, a juntar a uma sensação de cabeça ôca, mais as circunstâncias de algum dramatismo deixaram-me falho de palavras, como que paralisado, espantado em frente a um homem, meu amigo é certo, mas que só agora parecia ver após vários anos sem contactos, na verdade olhava-o debaixo de uma nova perspetiva. Calma, disse-me um tanto patéticamente apesar de ainda não o saber, enquanto me dava suaves pancadinhas nas costas. Ato contínuo fica ele próprio especado com os olhos muito aberto e fixos atrás de mim, subitamente tornara-me transparente, João aparecera saído da cozinha. Depois de breves momentos, tão relativo conceito que os multiplica no nosso sentir, atiraram-se simultâneamente aos braços um do outro, não me restando outra hipótese se não a de me comprimir contra a parede, não escapando mesmo assim de um parcial atropelamento por parte do meu colossal antigo colega.

Enquanto João punha o pai meu a par de tudo, literalmente tudo, era realmente impressionante a minucia e calma que o rapaz mantinha não obstante a natureza crua e dura do que dizia. Conhecia bem o pai, afinal era uma sua versão mais nova, sabia o que podia esperar dali, pelo menos nunca uma qualquer reação violenta, sequer mais enérgica. Estavam sentados lado a lado num dos sofás grandes e, não raras vezes, Eurico procurava meter entre as suas mãos, onde era possível detetar alguma tremura, as do seu filho, enquanto as lágrimas ameaçavam correr, o que acabou por acontecer no fim daquilo que pareceu uma história de terror, quando de novo se estreitaram num apertado e demorado abraço, pai e filho num sofrido pranto mudo. Durante toda a conversa mantive-me calado, sentado em frente, limitando-me a um pequeno movimento da cabeça, aqui ou ali, sempre que o olhar deles mo solicitava, por vezes encarecidamente, como no momento em que João admitiu estar agarrado, e Eurico me fitou com uma expressão onde era impossível distinguir entre o pânico e um lancinante pedido de ajuda. Imagina como as coisas são! Acabou por dizer após um notório esforço para se recompôr. Não nos viamos há anos e de repente acontece tudo. Nem falamos da Luísa! Desculpa mas agora vou levar o rapaz para ver a mãe e os irmãos. O que fizeste vai para além de todos os agradecimentos. Comovido abraçou-me. Não fiz nada, partiu tudo da vontade do teu filho. Neste ponto, tentado a revelar-lhe que, de certo modo, inclusivamente tinha com ele alinhado, acabei por não o fazer respeitando o facto de João o ter omitido, o que não deve ter sido fácil dada a sua natureza franca, sobretudo por esta ser uma forma subtil de com ele manter uma espécie de cumplicidade, se calhar, inconscientemente, também na esperança de ter ali um amigo para novas sessões, pensamento que afastei envergonhado dado o perigo que isso para ele poderia representar, uma eventual recaída. No entanto o meu amigo pressentindo o meu malestar questionou. Há mais alguma coisa que me queiras dizer? Aproveitando a deixa concluí enquanto caminhava na direção de João que já nos aguardava com a pesada mochila pousada junto aos pés, Sim, quero dizer-te para confiares no teu filho, sei que ele quer mesmo deixar, e sinto que o vai conseguir. Vai dando notícias. Abraçamo-nos e João agradeceu-me naquele jeito desprendido só possível em quem, apesar de tudo, se julga invencível, com todo uma infindável vida pela frente, e lançando-me uma piscadela de olho que valeu mil palavras. Um destes dias ligo-te para ires lá a casa jantar, atirou Eurico ao sair.

Luísa está morta! Pensava debruçado no parapeito no terraço enquanto acompanhava o carro do meu amigo a afastar-se ao longe na estrada e, com ele, todos os incríveis acontecimentos que tão inesperadamente nos haviam ligado nos últimos dias menos este, Luísa tinha-se matado. Estava sózinho para enfrentar esta realidade que poucas semanas atrás receberia como mais uma tragédia, uma entre tantas com as quais diáriamente nos cruzamos. Talvez neste caso, para mim, sem aquele diabólico efeito redentor perante a desgraça alheia, tão ardilosamente disfarçado de piedade nos arautos das misérias desta vida, unica via para o sobrevivência da comunicação social, afinal era uma minha velha conhecida, e que formosa velha!. Que fazer? Aparecer no funeral? Para quê? Para enfrentar a fúria dos pais que já haviam declarado alto e bom som que me consideravam responsável pelas infelicidades da filha? Se primeiro, e de forma injusta, por uma acusação de assédio falsa, mais recentemente pela agressão do namorado, tinham agido daquela maneira o que fariam agora com ele morta? Não, não podia ir. Por outro lado seria impossível ficar indiferente, aquela rapariga sempre me inspirara alguma pena que agora se transformara em profunda mágoa, não podia ignorar tão triste desenlace, não aparecer era fazê-lo, perante os outros mas sobretudo mim próprio face à minha atitude covarde, até, de certa maneira, o assumir de uma culpa que não tinha. Tinha que comparecer. Definitivamente!

Uma vez tomada a decisão, ainda no terraço, sentado a sentir uma brisa que corria fresca vi através das cortinas translúcidas um vulto que se aproximava, a meio da sala. Levantei-me num salto! Era o pai de Luísa ou alguém a seu mando! Estava louco e vinha dar-me um tiro! Petrificado, obviamente condicionado por horas a fio a um ritmo, conteúdo e intensidade a que não estava habituado, nem para eles tinha idade, também pelas reflexões dos últimos minutos, não restavam dúvidas, só podia ser ele. Mas não só não era como não podia ser alguém mais diferente, Era Rute que avançava na minha direção. Mais linda que nunca, no seu estilo leve onde imperava a qualidade e transpirava  uma sensação de liberdade, transmitida por roupas em vários tons de azul, para o largo o que mais realçava a sua elegância, e na qual se adivinhava um toque macio, mas sobretudo graças a uma postura impecável, uma imagem imaculada, uma presença plena de afirmação e firmeza tão raramente vista e tão formidávelmente hipnotizadora. A coroar a aura que a acompanhava um levíssimo aroma, por isso mesmo fortemente insinuante. A porta estava aberta, disse. E depois como para me arrancar do mutismo que seguramente estaria justificado pela expressão de enorme surpresa, Li a notícia.


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semtelhas @ 14:39

Ter, 03/02/15

 

Durante a noite, mesmo a três quilómetros, o mar fazia-se ouvir nítidamente, assustador no silêncio. Mas de manhã o sol chegou a espreitar, e não obstante as ameaçadoras núvens negras estava ali uma oportunidade para matar gorduras, beber muita água, não desabituar o corpo ao saudável movimento, é que chegadas certas idades rápidamente ele se acomoda à inércia e ainda mais depressa à degradação. Mas, mais ou menos a meio do percurso, aconteceu o que havia muito se adivinhava face a um céu a cada momento mais baixo e escuro, o desabar de um copioso aguaceiro. Ali, junto ao mar cuja envolvência húmida em muito potenciava a sensação de frio, a temperatura sentida não devia estar muito acima dos zero graus, pelo que se tornou indispensável ensaiar um ligeiro passo de corrida, não só para mais rápidamente atingir o próximo abrigo, mas também para aquecer porque o frio entranhava-se insidiosamente.

 

Decorridas algumas dezenas de metros, seguramente por causa do esforço da corrida, talvez também pela dificuldade em respirar, em repôr nos pulmões um ar gélido, o coração disparou em batimentos desenfreados e sobretudo completamente descoordenados, impunha-se parar imediatamente para que a máquina recuperasse o ritmo certo. Sentei-me num banco de madeira parte integrante do passadiço que descobri um pouco adiante entre a cortina de água. Continuava a chover intensamente. Começava a sentir a água, primeiro nas pernas, depois nos pés, nos ombros, quando lobrigo quatro luzinhas brilhantes debaixo do chão em traves de madeira que, naquele sítio, estão elevadas acima da terra aí um metro e meio. Com dificuldade por causa da água na cara e a cair a toda a volta, reconheci dois cães, meus velhos conhecidos desde há já meia dúzia de anos das suas deambulações naquela zona.

 

As primeiras vezes que os vi, um cão e uma cadela de tamanho médio, tinham ambos o pêlo, agora russo, quase completamente preto, a fêmea dona de uns olhos cor de avelã, castanho muito claro, o macho com eles de um azul transparente quase branco. Corpulentos, com estatura parecida ao pastor alemão, impressionava a sua postura de lobos, sempre algo nervosos, e sobretudo assustava o olhar lançado por aqueles farois esquisitos, mas nunca sequer me ladraram. Depois, ao longo dos anos, alguém por aqueles lados deveria dar-lhes de comer, fui-me habituando a eles e eles a mim, um convívio isento de qualquer espécie de confraternização, mesmo mínima. Agora eles ali estavam especados a fitar-me, aparentemente com mais curiosidade que outra coisa qualquer. Súbitamente ouço um barulho anormal, inicialmente como bicadas de um exército de pássaros em madeira, que rápidamente se transformou no som produzido po um avião no preciso momento anterior em que as rodas deixam a pista. Caía granizo em quantidades industriais, que eu, estranhamente, antes de ver ouvi.

 

Em poucos minutos na zona que me rodeava tudo ficou branco gelado, os bichos lá em baixo apagaram as luzes e esconderam o focinho no corpo enrolado, então, súbitamente, um raio de sol rompeu entre as núvens que se apartavam, possibilitando um vislumbre de azul, e invadiu-me uma inacreditável sensação de paz, limpeza e pureza face à intensidade do branco que cegava, foi quando eu, que segundos atrás me sentira a congelar, tive uma epifania. Resolvi fechar os olhos e só assim logrei ouvir a passarada que reagia à luz solar e anunciava a bonança, ouvi os cães a abandonar o seu abrigo, vi-os sentarem-se ao sol a escassos metros de mim a saborearem o calor infímo, e pensei nos meus próprios bichos, especialmente nos desaparecidos, como os pressentia perto! Voltei a fechar os olhos e vi outros ausentes, gente desaparecida que me mirava tranquilamente, ainda que alguns com um ar de ressentimento que me trouxe o remorso, outros em cujo rosto pairava a dúvida, e os que sorriam convidativamente. Atravessou-me um arrepio e levantei-me. Lá estavam os cãozitos carinhosamente encostados um ao outro, alguns pardais que chilreavam histéricamente felizes, e uma paisagem inusitadamente branca até bem longe. Estava de volta! Enchi bem os pulmões, conferi as bem compassadas batidas do coração, e pus-me a caminho pensando que raramente me terei sentido tão bem.


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semtelhas @ 13:31

Qua, 28/01/15

 

Acordei com os primeiros raios de sol do dia. Atingiam-me diretamente nos olhos, não me recordava como ali tinha chegado mas estava mais deitado que sentado, todo torto e com uma enorme dor nas costas, num sofá no meu quarto. A janela aberta, muito provávelmente saboreara a ar da noite limpa mirando as estrelas, deixava entrar uma brisa fresca e um cheiro a primavera que se anunciava, agridoce, próprio das flores e sobretudo dos arbustos novos, em plena rebentação. Apesar do desconforto provocado pela posição tão anatómicamente errada, a cabeça estava limpa, estranhamente leve, e sentia-me possuído de uma certa animação, uma suave euforia, ou talvez contida alegria. Seria a espantosa aurora laranja que me invadia o espaço físico e a alma? Ou aquela noite verdadeiramente fantástica, na perfeita aceção do termo, que acabara de viver? Como num passe de magia havia recuado aos meus tempos de juventude, pós revolução, aquelas infindáveis tardes no Majestic, bem lá ao fundo sentado nos confortáveis sofás corridos, em pele castanha a brilhar de antiguidade, onde fluíam os discursos para salvar um país renovado, livre. Maravilhosa ingenuidade, autêntica seiva da vida, roda motora da evolução, ainda não conspurcada pelo cinismo que chega com a idade maior, uma desesperança que desvirtua e destroi. Uns mais cultos que os outros, mas todos atentos ouvintes de quem compreendia Kafka, ou Brecht, ou descobria soluções no movimento Punk, entre cervejas que eram consumidas devagar. Eram recorrentes as viagens ao pequeno jardim que havia ao fundo, no exterior, para alimentar a inspiração via liamba. que por aqueles dias corria quase livremente de mão em mão. Foi certamente voltar a esses mesmos estados, ou parecido no caso do físico, mas especialmente o anímico, que me transportaram aqueles tempos. Levantei-me.

Na sala, deitado ao comprido no maior dos sofás, João dormia tal como se dentro de um caixão num velório, muito direito e com as mãos uma em cima da outra sobre o peito. Os cabelos e a barba compridos, a extrema magreza, as feições perfeitamente simétricas onde pairava uma expressão de profunda tranquilidade, transformavam-no num Cristo em paz. Poucos horas antes, nas poucas oportunidades que eu lhe dava de interromper os meus entusiasmados relatos de jovem revolucionário, contou-me como o pai, heroi durante pouco tempo, o influenciara decisivamente. Um idealista feroz, tal como eu apanhado por Abril de 74 numa idade vital, passara toda a curta vivência em comum com  o seu primogénito a reclamar por direitos de todo o género, nomeadamente sociais. Uma postura vencedora,  muitos conquistas conseguidas inicialmente, mas depois paulatinamente retiradas em nome de uma realidade que se impunha, como vociferava a nova ordem, a reinar em boa parte fruto da desilusão de um povo a falar de barriga cheia, oportunidade que aproveitaram para recuperar regalias perdidas ao longo de décadas. À revolta exprimida aos gritos em manisfestações mais ou menos estéreis, cuidadosamente encostadas aos sábados ou domingos proporcionando prolongados fins de semana, redentores das fúrias revolucionárias bem suportados por uma, tantas vezes!, doce vida burguesa de uma geração que beneficiara dos ventos da mudança radical, foi correspondendo uma crescentemente dura realidade para os seus filhos. Tornava-se evidente que, ao fim de muitas décadas, contrariando uma tendência até ali imutável, a próxima geração iria viver pior que a anterior. Em tudo igual ao pai, vitima frustrada perante a constatação destes factos, um dia chegou o momento de pedir contas a Eurico, um frente a frente entre o idealismo  e o pior dos racionalismos, a verdade, e o choque foi inevitável.

Agora ali estava ele. Em cima da mesa várias garrafas de cerveja vazias, compradas diretamente do frigorífico já ao sair do café, não sei porquê, resquícios do passado?, lembrei-me que a sede viria a atacar, e também os instrumentos do "pecado". O pequeno pacote de papel da heroína vazio. Seria o último? O que fazer? Sentei-me e estupidamente peguei numa garrafa ainda acima de meia e bebi, ficando imediatamente agoniado, o que veio reforçar a angústia que sentia invadir-me, e que me levou a pousá-la sobre umas cascas de amendoins que não vira provocando a queda e o respetivo barulho. Tal como um gato João espreguiçou-se completa e demoradamente, há quanto tempo eu próprio não lograva tão reconfortante relaxamento, outro dos prazeres perdidos!, e só então se permitiu ver-me. Rápidamente descodificou a linguagem corporal que eu exibia, rigido, e imagino com o rosto a espelhar a luta interior que naquele momento travava. "Já ligou?", perguntou como se estivessemos a meio de um qualquer diálogo."Não. Queres comer qualquer coisa primeiro?". Passara a bola para ele que, compreendendo, e aparentemente decidido atirou, "Sim, mas pode ligar primeiro. Está tudo bem". Fui encontrar o telemóvel esquecido no casaco e marquei o número. "Olá Vasco", ouvi do outro lado. "É incrível não é? Acabei agora mesmo de ler no jornal. Percebia-se que ía acabar mal mas assim!... Estou Vasco...estás aí?". Confuso não tinha proferido uma palavra, "Sim sim, estou, mas o que é que se passa? de que falas?" Ficou em silêncio algum tempo, "Então não estás a ligar por causa da notícia?...." João fitava-me a tentar perceber se algo acontecera ao pai, "Não sei do que estás a falar, que notícia?" Após mais um período de vazio, "Foi a Luísa. Diz aqui que deve ter sido por causa dos pais, antes de ontem, finalmente lhe terem dito que ía ficar bem, as pancadas na cabeça não deixaram sequelas no cérebro, mas que teria que ser sujeita a operações plásticas porque os ossos da cara, e o maxilar, tinham sido muito afetados..." Novo silêncio. "Fugiu? Deu-lhe qualquer coisa? Magoou-se a ela própria? Diz-me homem, parece que também tu acreditas que tive um caso com aquela louca! Desembucha!". Desabafei tentando adivinhar o que uma pessoa daquele perfil faria perante tais circunstâncias, mas também indignado por até Eurico ainda não ter percebido nada me ligar aquela rapariga, pelo menos que justificasse tanto cuidado a dar uma notícia má. " Durante a noite seguinte, ontem, atirou-se da janela da enfermaria, quatro andares. Parece que que teve morte imediata. Dizem que agora é que o exnamorado nunca mais sai lá de dentro". Em poucos segundos passaram-me pela cabeça imagens tão diferentes como o belo rosto de Luísa a olhar-me fixamente, no meio das colegas na sala de aula, os dos seus pais, condescendentes, quando com ela me visitaram na Ordem, e, o que me tirou de um estado de letargia de que me começava a sentir refém, o de Rute, encarando-me com honesta severidade. Foi então que ouvi João falar, "Diga-lhe". Do outro lado escutava ruídos mas Eurico mantinha-se calado. "Preciso de falar contigo. Dá para passares por aqui?" Concerteza convencido que o meu pedido se devia ao acontecimento que acabara de me relatar respondeu solícito, "Vou já para aí".


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semtelhas @ 15:00

Seg, 26/01/15

 

À saída, ao cruzarmos a porta de entrada, num primeiro momento, quase me surpreendi vendo-a estroncada tal era a naturalidade com que por ela saía exatamente com quem a tinha arrombado. Dei comigo a olhar furtivamente para ele e encontrei-o já à espera, "desculpe", disse, "tentei fazer os menores estragos possível, até porque não queria fazer barulho". Observei aquele magrinho gigante e voltei a reconhecer Eurico, a mesma lentidão, aquela maneira de olhar franca, nuns olhos claros que no caso do filho ainda mais sobressaiam por causa da barba enorme, como luzes mornas em fundo negro. "O andar de baixo raramente tem gente. É de dois médicos em processo de divórcio. Estão a vendê-lo por isso ela só aparece por aí de longe a longe." Sosseguei-o.

João, era o nome dele e afinal já ía nos trinta, disse-me acreditar que Amina tivesse mesmo voltado para Londres, é que aquela situação não tinha acontecido pela primeira vez, na verdade desde que se conheciam não tinham feito outra coisa. Esta viagem para Portugal havia sido uma espécie de última tentativa. Ela gostava realmente dele, ao ponto de nos últimos meses, ele pura e simplesmente deixara de trabalhar, inclusivamente o sustentar com o dinheiro que ganhava como babysiter, ao qual juntava, embora não o confessando, um bom bocado mais que lhe era dado na mesquita que frequentava, uma forma de aliciamento que se mostrava eficiente. Mas lá a situação tornara-se insuportável. Ele cada vez precisava de mais dinheiro para alimentar o vício, e então os colegas muçulmanos dela começaram a tentar afastá-la dele, mais não conseguindo que perdê-la, pelo menos e infelizmente temporáriamente, para a sua luta. Convencera-a  a abandonar aquela loucura em troca de uma recuperação que faria no seu ambiente, num clima mais ameno, o frio tolhía-lhe o corpo e a alma, com os resultados à vista. Sentia-se completamente dependente e perdido, agora ainda mais por ter contribuído para que ela voltasse para aquele caminho que certamente, ainda por cima amargurada e infeliz, lhe iria trazer muitos problemas. Apesar de estarem nas lonas, nem sequer pagaram os dois ou três últimos meses de renda do quarto onde viviam na baixa, foi quando vieram para minha casa, ela deixara-lhe algum dinheiro e o conselho de que procurasse o pai. Havia sido sempre assim, tratava-o como a um filho, nunca permitindo quaisquer tipos de desleixos, especialmente com a higiene e outros cuidados pessoais. Enquanto falava ía comendo, devagar, mostrando-se muito mais rápido a beber, acabara de pedir a terceira cerveja quando o questionei, "Queres que ligue ao teu pai?" Não me respondeu de imediato, não era uma decisão fácil. "Se não se importa gostava de dormir sobre isso", acabou por dizer. "Ainda tenho uma dose...mas amanhã acabo com este inferno. Eu e a Amina chegámos a ir a um sítio onde ajudam na recuperação, com metadona, pode ser que o meu pai conheça... "Calou-se mas a fitar-me intensamente, como que a testar a minha boa vontade. Discordar seria perder a sua confiança e, quem sabe, o seu rasto. "Ok, mas só se me deres mais uma chávena daquele chá fantástico, é que preciso mesmo de dormir profundamente". Sorriu e disse, "Não sei se Amina o deixou aí, mas se o levou eu tenho umas coisas para a ressaca que fazem o mesmo efeito, até melhor, porque os cogumelos são um bocado alucinógeneos". Era verdade e eu sabia-o bem...

Quando chegámos lá acima, para minha surpresa, começou logo a preparar um cachimbo de haxixe, há quanto anos não assistia aquele ritual! "É para nós", atirou, "eu não fumo, deixei há mais de vinte anos e tenho a certeza que a primeira vez que volte a fazê-lo é para nunca mais parar, volta e meia ainda sonho que estou a saborear um cigarro. Estendeu o braço e no meio da palma da mão aberta estava um pedaço, negro e brilhante, "coma", ordenou quase dócil, "Este é do bom. Demora mais um bocado a fazer efeito do que fumando mas também dura mais tempo". Peguei naquilo entre o polegar e o indicador direitos e olhei para ele. Continuava com o seu trabalho, ignorando-me, metódico como o pai, com os dedos longos e extremamente finos, neste particular bem diferente do seu progenitor, e, para mim, estranhamente firmes, sempre imaginara um heroinômano com dedos trementes, inseguros. Teria sido a cerveja a adiar a ressaca? Talvez não tivesse passado tempo suficiente. Ainda com o fruto proíbido entre os dedos na mão como que esquecida, afirmei em jeito de pergunta, "Não há-de demorar muito vais ter que te injetar". Sem levantar a cabeça "Lá mais para a frente", disse como alguém cujas noites habitualmente representam uma longa travessia. "Mas não se preocupe, amanhã vou dar uma volta à minha vida. Para já este cachimbo vai pôr-me bem. Não come?" E chupou com força o cachimbo, atirando somente um bom bocado depois o fumo para o ar enquanto, de olhos fechados, encostava a cabeça para trás. Olhei para aquele pedaço de matéria mole negra, e a primeira questão que me passou pela cabeça foram anos e anos de quase fundamentalista limpeza, uma guerra aberta contra os vírus e os medos que acarretam, e, por isso, as quantas inumeras vezes que havia concuído não passar de um pobre esquizófrénico hipocondríaco. Estaria chegada, também para mim, a hora de uma nova vida? Afinal nos últimos tempos, desde aquela tarde em casa de Rute, parecia que os astros se haviam alinhado, e os deuses haviam concordado, para que tudo me acontecesse! Seria um sinal? Reparei que, tranquilamente recostado, me fitava lutando com a indecisão. "Se tem dúvidas então é melhor avançar, só assim as resolverá". Tinha razão. Meti o haxixe na boca e trinquei devagar. Sabia básicamente a terra, ou ao que eu imaginava a terra saber, com um ligeiro pico a uma qualquer erva exótica. Engoli.


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semtelhas @ 11:35

Qua, 21/01/15

 

Estava em pleno Casbar, e apesar de uma espécie de névoa que parecia impedir-me de ver na perfeição, as sensações eram fortes, as cores berravam, por todo o lado, quase uma omnipresença, como que um brilho sagrado imanava de sofisticadas peças douradas, um cheiro intenso a um perfume que me transportava aos confins da memória, mas que não conseguia identificar e, insidioso, aquilo que soava a uma flauta que trazia à tona de uma cesta a magnífica cobra capelo, com as suas vistosas e coloridas escamas que se abriam em leque imediatamente abaixo da cabeça. Reconheci Luísa em quem tocava a sensual melodia, como os seus lábios brilhavam em torno do bocal da flauta!, tal qual a primeira vez que neles reparara. Lentamente começo a ouvir uma discussão que irrompe algures e abafa tudo o resto. Então vejo, ainda por entre a mesma bruma, sentado no chão, encostado a uma parede imunda, num passe de magia o Casbar evaporou-se no ar!, um homem novo mas profundamente envelhecido, enormes barbas brancas, onde encontro os olhos do filho de Eurico numa estranha expressão de paz suplicante e, a afastar-se, a voz vai ficando mais e mais longínqua, descubro Amina. O rosto deslumbrante exibe uma expressão de raiva que parece conferir-lhe, como se fosse possível, ainda mais beleza. Súbitamente, estou dentro de um automóvel acompanhado por dois ou três pessoas que não reconheço. Seguimos a alta velocidade, e eu, ao volante, estou completamente cego, por mais que me esforce não consigo ver por onde sigo. Completamente desesperado, uma mortal sensação de angústia, constato agora que o carro saiu da estrada depois de uma curva apertada que não logrei fazer, e, recuperada a visão, sinto-me a voar sendo crescentemente invadido por uma imensa alegria tranquila. Abro os olhos. Sonhava.

A passagem é suave, surpreendentemente suave. Estou tombado de lado sobre as almofadas, em cima de um dos sofás e, noutro em frente, do outro lado da pequena mesa onde vejo os utensílios que ele trouxera da cozinha mas agora aparentemente após serem usados, o filho de Eurico parece dormir. Está esticado ao comprido, ocupa todo o enorme espaço e ainda fica com os pés, com sandálias, de fora. Não faço ideia quanto tempo passou, senti-me algo perdido mas calmo e tento levantar-me mas as pernas fraquejam pelo que desisto. Quando volto a olhá-lo fita-me com um ar que me pareceu de alguém que se divertia, não obstante o seu estado de abandono quase total. Então começou a falar, devagar mas com impressionante nitidez, clarividência, as palavras saíam-lhe límpidas e absolutamente despidas de dúvidas ou truques. "A Amina foi-se embora", afirmou. "Tínhamos um trato desde que nos conhecemos e nos apaixonamos, a primeira vez que nos vimos em Londres, ela deixava de frequentar as reuniões dos radicais islamitas, e eu largava as drogas, mas nem ela nem eu tivemos a força suficiente para o fazer. Ela é neta de uma mulher que fugiu da Índia após a saída dos ingleses. A mãe, mais tarde, nunca aceitara bem ter abandonado tudo, acabou por voltar, agora já para o novo país que era o Paquistão, zona da Índia de que era originária, e envolveu-se em problemas de ordem política e religiosa, que a obrigaram a voltar a fugir para junto da mãe, levando Amina ao convívio com a sua bem mais moderada e carinhosa avó. Mas era tarde demais, o que ela vira durante os anos em que crescera, e nascera, no Paquistão, haviam-na envenenado para o resto da vida. Para sempre revoltada contra o antigo colonizador, e todos os seus aliados, os quais responsabilizava pela miséria de toda a ordem, física e moral, que grassava no seu país. Quanto a mim também nunca me senti própriamente alinhado com este mundo tão injusto. O meu pai toda a sua vida foi um revoltado, mas na realidade nunca fez nada para mudar fosse o que fosse. Diz-se um filho da revolução, que passa esses princípios para os seus alunos, mas a verdade é que almeja a uma vida burguesa como toda a gente. Eu não queria ser como ele, por isso liguei-me a movimentos e partidos defensores do ambiente, de uma sociedade mais equitativa, pelo fim dos preconceitos e do clientelismo partidário, e sei lá que mais. Tudo desde muito jovem. A própria escola, o sistema de ensino, deixou de fazer sentido, tudo aquilo estava errado e era estúpido. Acontece que o meu pai era o sistema, e achou-se profundamente atingido, magoado, ele que sempre fora um pai exemplar e até camarada!, e um dia chegou mesmo a agredir-me. Não me expulsou de casa mas a convivência tornou-se impossível e então fui viver com uns amigos. Abandonei a universidade, arranjei uns trabalhitos básicos aqui e ali...e pronto. Depois foram as frustrações, perceber que as coisas não eram assim tão simples, mas também a noção de irreversabilidade, que me levaram a fugir e meter-me nestas merdas. Agora acho que estou agarrado e já nem a Amina está para me aturar..."

Calou-se. Práticamente não se tinha mexido e eu tive necessidade de dizer qualquer coisa, "Poucas coisas são irreversíveis nesta vida". Fitou-me e disse, "acho que ela exagerou nos cogumelos do seu chá, adormeceu logo! Tivemos medo que chamasse a polícia...ou o meu pai. Estivemos para aqui a discutir aos gritos e o senhor nem pestanejou! Quando lhe reafirmei que me ía injetar desatou a meter tudo na moxila e nem olhou para trás". Disse estas últimas palavras como quem fala consigo próprio, um esforço de autoconvencimento. O rapaz estava prostrado, destruído. Após nova tentativa levantei-me, dei uma volta pelo apartamento, e verifiquei que de facto só restavam as coisas dele. De repente uma dor aguda atingiu-me bem no meio do estômago e lembrei-me que não comia haviam horas. O que fazer? Chamar Eurico? Era cedo, tinha que dar tempo ao filho para se recompôr, não permitiria que o visse naquele estado. Entretanto, espantado, descobria experimentar uma curiosa e completamente inesperada energia, na verdade não me recordava de tal disposição, tão disponível para a vida. Seria por causa daquela história dos cogumelos? Também eu tivera as minhas questões com drogas nos anos a seguir à revolução, e deixá-las, especialmente os químicos, não tinha sido própriamente fácil. Mas será que um homem com os meus conhecimentos e experiência de vida reagiria hoje como reagiu então? Afastei estas considerações que me varriam a mente como uma ventania passageira e perguntei-lhe, "Não tens fome? O brasileiro faz umas francesinhas fantásticas." Pela primeira vez rodou a cabeça na minha direção e disse pouco convicto, "sou vegetariano." Mantive-me uns momentos em silêncio e depois insisti, "Tens a certeza? Também não bebes álcool?" Como resposta levantou-se com surpreendente segurança e disse com firmeza, "Vamos lá."


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semtelhas @ 14:54

Seg, 12/01/15

 

Aparentemente tudo em ordem, até as plantas que tinha no meu pequeno hall privado se mostravam tristemente caídas após duas semanas sem rega ou mimos, apesar de práticamente as ter encharcado de água mesmo antes de sair. Mas quando tentei introduzir a chave a fechadura cedeu e ouvi qualquer coisa a cair do outro lado da porta que, quase sem esforço, se abriu. Só então reparei em alguns arranhões em toda aquela zona que indiciavam arrombamento e temi o pior. Percorri a casa devagar, cuidadosamente, e constatei alguma arrumação não obstante terem andado por ali estranhos, pelo menos comparando com as minhas primeiras expectativas. Na sala as almofadas dos sofás tinham sido colocadas com critério, mas diferente do meu, e o chão mostrava alguma sujidade que me parecia recente, o que confirmei pela cama desfeita no quarto, para além de peças de roupa pousadas aqui e ali. No quarto de banho, razoávelmente limpo, cuja luz tinha sido esquecida ligada, vários apetrechos de limpeza pessoal e, penduradas no varão da cortina da banheira, três calcinhas de mulher ainda molhadas e a cheirar a lavado. Foi quando entrei na cozinha que voltei ao estado de alerta entretanto esquecido, em cima da mesa um estojo com uma seringa, em bom estado, um pedaço de tubo de borracha, e uma das minhas colheres preferidas, a única com um pequeno brasão a fazer de pega, bastante marcada pela aplicação de fogo por baixo da pequena concha. De resto tudo impecável, inclusivé a louça a escorrer, e depois de passar pela porta que dava para o enorme terraço em L virado a sul e poente, uma série de sandálias, sapatos e sapatilhas higienicamente a arejar. Estupefacto debruçei-me na varanda a refletir em tudo aquilo, especialmente numa certa postura de quem tinha vindo para ficar, afinal haviam passdo sómente quinze dias desde que dali saíra! Não tive tempo para elaborar qualquer plano porque ouvi barulhos no interior, alguém que entrava pela porta que eu abandonara não me lembrava muito bem como. Entrei rápidamente na sala, no terraço estaria completamente exposto, e consegui esconder-me atrás da mesa e das oito cadeiras que a rodeavam. Eram dois jovens na casa dos vinte e tais, ele alto de estrutura forte mas extremamente magro, cabelo escuro comprido com rabo de cavalo, enorme barba negra num rosto que me lembrava alguém, aqueles olhos mortiços escondiam uma agitação e entusiasmo que conhecia de qualquer lado...Vestia um poncho bastante colorido, calças de ganga medianamente gastas, e calçava umas sapatilhas de marca práticamente novas. Dirigiu-de de imediato para a cozinha voltando logo a seguir com os apetrechos para se injetar, ou injetarem. Mas depressa percebi que a droga que entretanto pousara ao seu lado sobre uma almofada, seria só para ele. É que a rapariga, muito mais pequena que ele, usando um lenço aplicado justo sobre o cabelo que ainda assim dava para ver negro, pôs no rosto moreno de feições corretíssimas, olhos muitos escuros e vivos, sobrancelhas grossas da cor do cabelo, nariz fino, tal como os lábios, um expressão fria de raiva, e atirou-lhe num inglês pouco menos que impercetível, uma série de ameaças que, disse, cumpriria caso ele continuasse o que estava a fazer. Estava em pé, gesticulava frenéticamente, e eu de repente percebi estar perante uma qualquer espécie de radical islamita. Se ele parecia saído do Maio de 68, apesar da "barba talibã",  já ela não escondia uma aparência assumidamente fundamentalista, não só pelo cabelo coberto, mas também pelo vestido quase até aos pés, acinzentado, e um casaquito numa espécie de renda de cor arroxeada, sobretudo atendendo ao espaço geográfico em que atualmente se movimentava. 

Súbitamente dirigiu-se na direção dele, agarrou no pacote que continha o "pó milagroso", e atirou-o para longe. Quando os nossos olhos se encontraram, reparei numa mancha branca junto aos meus joelhos, sobre os quais permanecia, foi através de uma núvem branca que suavemente se lhe juntava. Num primeiro momento pareceu assustada para, logo a seguir, passar a uma postura de alerta, física e mental, que quase me petrificou, não fosse o rapaz, desesperado, ter-se atirado para o chão na tentativa de apanhar aquela preciosidade que voava, aterrando bem à frente do meu nariz. Levantei-me e gritei-lhes no meu enferrujado inglês, que estava tudo bem, que não os queria magoar, que tivessem calma. Ele parecendo não me ter ouvido, ignorou-me e tratou de recuperar do chão tudo que lhe foi possível. Ela, perfeitamente estática, recuou para o meio da sala e ficou a aguardar o que eu faria. O rapaz, claramente abatido, acabou por se sentar onde estivera, colocar cuidadosamente dentro do pedaço de papel o que restava da heroína, pelo menos era do que eu pensava tratar-se, e recostou-se de uma forma que tornou a lembrar-me alguém e, então fez-se luz!, estava perante uma versão mais jovem do meu amigo Eurico! Ali estava o seu supostamente desaparecido filho algures no estrangeiro.Você é filho do Eurico! Clamei. Estranhamente calmo fitou-me, depois a rapariga, a quem disse, para meu grande espanto, para ir fazer chá e pronunciou um nome, ou marca, para mim totalmente desconhecido, e ela desapareceu, cautelosa, na cozinha. Aos poucos fui reconhecendo naquela atitude a bonomia do meu amigo e, mais tranquilo, instalei-me no sofá, olhando-o intensamente mas em silêncio, apelando às suas explicações. De facto voltara de Londres havia três meses, trouxera a sua namorada paquistanesa, mas nunca informara o pai. Estavam na manifestação quando o vira a entrar num café e, curioso, resolveu segui-lo, quem sabe ganharia coragem para lhe dar um abraço e apresentar-lhe Amina, assim se chamava a rapariga, depois também se estava a esgotar o dinheiro que trouxera de Inglaterra...Mas não conseguiu, sabia que tinha ido longe demais para recuar, ouvindo isto questionei-me a que se referiria, limitou-se a ficar para ali abandonado até o ver sair comigo, para logo nos separar-mos um para cada lado. Ainda não sabe explicar porquê, não me reconhecera, optou por seguir os meus passos, mesmo contra a opinião de Amina. Primeiro viu-me entrar numa agência de viagens, demorar-me por lá, e depois, pacientemente e a uma distância segura, até ao meu prédio. Aí chegado recuou a uma tarde acontecida mais de meia dúzia de anos atrás, quando o pai o foi buscar à escola que então frequentava, na companhia de um seu amigo igualmente professor que deixara exatamente naquele lugar, gastando o restante tempo de trajeto até casa a satisfazer a sua curiosidade relativamente aquele senhor de bom aspeto, e morador em tão seleta zona da cidade num edíficio certamente caro. Inteligente e necessitado, farejou ali uma qualquer possibilidade, pelo que, no dia seguinte bem cedo estavam de volta só para ver "em que paravam as modas". Enquanto dizia isto riu-se nervosamente, concerteza efeitos da ressaca que não o largava, para a rapariga que voltava com o meu bule preferido, tinham bom gosto, cheio de um líquido fumegante que tinha um sabor primeiro acre mas, aos poucos, ía deixando um rasto adocicado, e que, à segunda chávena, pareceu transportar-me para uma zona considerávelmente mais relaxante, amistosa, o que me levou a cumprimentá-la, merecendo o seu primeiro ainda que ligeiro sorriso. Ía-me explicando que durante estas duas semanas falara com o brasileiro do café à entrada do prédio várias vezes, para aquietar aquelas olhadelas furtivas, a anunciar perigo, recorrendo ao que de mim conhecia através do pai, mas pressentia que só ganhara tempo, o homem estava obviamente a aguardar o meu regresso para confirmar a sua história. Devia ser o caso, é que embora o rapaz não o soubesse, eu tinha-lhe dito para não me guardar pão durante quinze dias. Sentia-me francamente bem, quase deitado no sofá a ouvir e ver na maior das calmas aquelas duas criaturas que me tinham invadido a casa, quando dei comigo a perguntar-me, e mesmo assim como se de algo absolutamente normal se tratasse, que raio de chá será este?

 


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semtelhas @ 14:49

Qua, 07/01/15

 

O regresso ao Funchal fi-lo junto à costa, muito mais rápido, para além de evitar as montanhas, também graças aos inumeros túneis que engenhosamente perfuravam as que, mais pequenas, se sucediam a poucas centenas de metros do mar. Sempre que penetrava numa daquelas fantásticas obras, vias largas e bem iluminadas, não raras vezes em compridos troços de onde não era possível ver a faixa contrária, aberta num outro túnel algures ao lado com tudo o que isso implica em arte, engenho, e custos, como que me autotransportava para um outro mundo, pleno de alta tecnologia e consequente elevado índice de conforto. Infelizmente logo desmentido à duplamente crua luz do dia. Porque efetivamente agressiva quando explodia francamente luminosa mesmo depois de tão potentes luzes alaranjadas, mas sobretudo por com ela trazer a dura realidade, consubstânciada na evidente pobreza que gritava por aquelas encostas acima. Lembrei-me dos repetidos desastres devido às habituais enchurradas próprias de um clima semitropical, causados pelas sempre adiadas obras de sustentação de terras, ou pura e simples transferência daquela gente para lugares mais seguros. De certa forma a Madeira representava uma espécie de paradigma dos quarenta anos de democracia. Governada sempre pelo mesmo homem, um recorde em que Salazar é eloquentemente batido, que ganhou todas as eleições democráticamente, mas utilizando este conceito recorrendo à sua pior faceta, fazendo daquele território uma coutada pessoal, uma enorme autarquia, criando uma rede de amigos faustosamente recompensados, e valendo-se da endémica ignorância da população, criteriosa e cínicamente mantida com falsas promessas e obras de fachada, que alimentaram um regionalismo calculista, sustentado pela venda de votos ao poder do continente, com custos elevadíssimos a pagar sempre pelos mesmos, como agora se constata. Pude confirmá-lo já à noite, quando percorrendo a bela baía funchalense a pé, observei várias edificações claramente fruto do exibicionismo do poder, para os quais não faltou o dinheiro sistemáticamente negado aos mais necessitados, com o objetivo de os cegar com um sentimento bairrista de terceiro mundo, algumas completamente abandonadas e em avançado estado de degradação, mas que, ainda assim, terão seguramente servido para dar a ganhar muitos milhões aos donos de vivendas milionárias, que polulam por todo o lado em volta da bela cidade. Quem quiser dar uma lição sobre Portugal dos ultimos quarenta anos, no seu melhor e pior, dados inclusivamente confirmados pela estatística, mora ali a segunda zona com mais poder de compra do país, mas também alguns dos piores indíces de atraso e pobreza, pode fazê-lo na Madeira, ao vivo, a cores, misturado com milhares de turistas que sábiamente aproveitam o ar quase permanentemente morno, os preços baixos, e os humildemente simpáticos indígenas, de entre os quais em tudo se distingue o para sempre mais célebre governador, à boa maneira colonial britânica apesar de ser branco, mas nem por isso menos exótico, como até à bem pouco tempo a demonstrava desfilando disfarçado de animal selvagem durante o carnaval... 

Consegui alterar o data do regresso e no dia seguinte rumei a Lisboa, posteriormente apanharia um comboio que me levaria praticamente até casa. Havia muito tempo que não ía lá, pelo que resolvi demorar-me um ou dois dias, depois se veria, aproveitando assim para dar uma volta e visitar alguns locais que, desde há muito, tinha curiosidade conhecer. Deslocando-me preferencialmente de metro, mas também em autocarros e, uma ou duas vezes, de táxi, percebi a enorme diferença que existe entre aquela cidade e o Porto. Um fosso que, ao contrário do que repetidamente os políticos no poder vão afirmando, tem vindo a alargar-se, e tratando-se da segunda cidade do país é fácil imaginar o resto. Basta circular por ali, cruzarmo-nos com as pessoas nas ruas, falar com algumas delas, para perceber o alto nível de urbanidade, para o bem e para o mal, daquela gente. Claramente sofredoras dos males e dos benefícios das virtudes, das grandes metrópoles não obstante a diferença de dimensão. É enorme a variedade entre as pessoas, provenientes de todos os lados do mundo, sente-se, a um tempo, o poder da presença do dinheiro, mas também a frieza feita pragmatismo no olhar e na atitude das pessoas, e, sempre a espreitar, uma legião de indigentes. Um ritmo claramente único no país, um trânsito infernal nas inumeras autoestradas e largas avenidas, algumas pejadas, porta sim, porta sim, de estabelecimentos das mais reconhecidas marcas globais exibindo preços absolutamente proibitivos. Foi também isto que nos trouxeram quarenta anos de liberdade, um centralismo feroz consecutivamente suportado pelo habitual jogo de interesses da meia dúzia de poderosos de sempre, mas agora obrigados a abrir mão de "dez reis de mel coado" para distribuir pelos lacaios da província, criteriosamente distríbuídos por partidos políticos no parlamento, ao primeiro sinal dísponíveis para "vender a alma ao diabo" em nome de um novo riquismo, arma de confronto de invejas com a família e amigos lá da terra. Afinal a repetição do que Camilo tão bem retrata em " A Queda De Um Anjo", mas agora elevado a uma potência que faz pensar, duvidar e temer pela solução de como sair desta situação. 

Na impossibilidade de viajar naquele mesmo dia, foi logo na manhã seguinte que, de comboio, me pus a caminho de casa. Afinal acabara por cumprir as previstas duas semanas fora, tentaria alterar junto da agência de viagens algo que saísse do préviamente estipulado, pelo que foi com alguma satisfação que, ainda no taxi, descobri o meu prédio na paisagem. Não podia adivinhar o que me esperava junto à porta de casa após transpôr o lanço de escadas sómente a mim reservado.

 


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semtelhas @ 12:00

Ter, 06/01/15

 

Aqueles dias nos Açores tinham sido fantásticos, mesmo com meia dúzia de livros na bagagem não lera uma linha! Sempre que necessitava de me libertar dos pensamentos, dera comigo a falar por tudo e por nada com quem estava perto, chegando mesmo a provocar alguns olhares de espanto em alguns dos, sobretudo para eles, inesperados interlocutores. Encantava-me a candura daquela gente, especialmente a da mais urbana, onde os tiques de superioridade perante os mais provincianos, pela ingenuidade e completamente desprovidos de maldade, me pareciam divertidos quando comparados com a crueza do relacionamento entre as pessoas das grandes metrópoles, que eu conhecia especialmente dos livros. Estava ali para resolver um problema existêncial apesar da idade, e aquelas pessoas não paravam de me dar as mais singelas razões para viver. Desde as mais básicas necessidades que pude observar em pequenas povoações, nomeadamente através do surpreendente esforço físico de muitos, a tratarem da terra ou de animais, bem mais velhos que eu,  mas nunca regateando uma simpática saudação, até aos orgulhosos proprietários de estabelecimentos nas pequenas cidades, quer fossem de venda de sapatos, neste caso de umas sapatilhas que tive de comprar, ou de convidativos restaurantes, sempre uma tranquila e acolhedora atitude intrínsecamente vencedora, de "donos do mundo", daquele seu mundo. Parece que ali, tal como noutros locais isolados, o mal que mais os atormenta é a solidão, mas esse não tive tempo de neles sentir, porque quando aterrei no Funchal, já de mente e pulmões limpos, o que encontrei foi radicalmente diferente.

É bem verdade que somos o resultado do meio ambiente em que vivemos, e quando se chega a uma cidade onde o ar dos trópicos ainda se faz sentir, sobretudo se somos provenientes de paragens bem mais frias, constatámo-lo de imediato. Se, nos Açores, quando deambulava em estradas desertas por entre montes verdes, no meio de um silêncio estarrecedor, sempre ponteados pela presença de inúmeras vacas, avistando ao longe o casario, obviamente pobre, muito cedo, logo a partir do meio da tarde, invadido por uma névoa insidiosa que fazia adivinhar as dificuldades do desconforto que provocava, era remetido para o tocante livro "Gente Feliz Com Lágrimas", ali, rodeado pelo ar quente e abafado, parecia estar dentro de um romance sul americano do Realismo Mágico. Depois a profusão de cores e cheiros, o cosmopolitismo permanentemente lembrado pela presença de gente de todo o lado do mundo, despertou em mim, já de "alma lavada", uma energia e um entusiasmo havia imenso tempo ausente, talvez interrompido por aquele episódio de horas na casa de Rute, mas agora aparentemente mais consistente, era quase como se estivesse a escrever num quadro limpo, velho é certo, mas recentemente limpo. Recordei-me de um restaurante já à saída da cidade, numa subida acentuada, onde muitos anos atrás comera umas espetadas deliciosas pelo que, sempre a pé, resolvi procurá-lo para a minha primeira refeição na Madeira. Quando, para minha surpresa, descobri que o hotel dele distava escassas dezenas de metros, era bem maior do que na minha memória, logo decidi que iria fazer acompanhar a suculenta e apetitosa carne com o excelente tinto lá da terra, que um posterior passeio pelas redondezas se encarregaria de dispersar, e, em conjunto, concerteza me proporcionariam uma bela noite de sono.

No dia seguinte aluguei um automóvel, subi à montanha mais alta onde momentâneamente voltei ao frio, vi bem lá no fundo do vale a célebre povoação Curral das Freiras, bebi uma poncha que logo me aqueceu e rumei a Porto Moniz, uma das partes da ilha que recordava com mais prazer. Foi lá, durante o almoço tardio, admirando as "piscinas de mar" bem de perto, e o incrível mar azul quase a toda a volta, que, pela primeira vez em dias, que me senti só. Ainda tinha dois ou três dias de estadia paga, mas percebi que, para continuar, teria que ser acompanhado, nada daquilo fazia sentido se não fosse partilhado na hora, a cada segundo. A minha habitual companhia, desde que me lembrava, mas particularmente desde que abandonara o ensino, os livros, não me podiam ajudar naquelas circunstâncias, seria rídiculo meter-me no hotel a ler a milhares de quilómetros de casa. Foi então que reparei, com alguma surpresa, que, se por um lado, não me apetecia, faltava-me energia, mas talvez ainda mais a pachorra, para tentar procurar uma nova relação, bastaria dar uma volta pela parte mais vibrante do Funchal. Mas para quê?, teria que ser exclusivamente para sexo, e não era disso que mais sentia a falta, por outro não tinha forma de contactar a mulher cuja memória me transmitia uma sensação realmente forte, um misto de euforia e de angústia. Impressionante como Rute nunca me dera o seu contacto e, pior, como eu nunca lho pedira! O que é que esse facto quereria dizer?


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semtelhas @ 12:15

Ter, 30/12/14

 

John Updike

 

Escolher um tema candente, fazer uma pesquisa eficaz sobre os assuntos focados para se saber do que se está falar, e colocar em pano de fundo uma história bem contada, onde todos, ou a maioria dos aspetos relacionados com o que mais mexe com as pessoas, como o amor, o sexo, o casamento, a morte, a juventude, etc., e aí está um romance com tudo para vencer no mercado, ou seja, vender. Neste tipo de livros a sensação que fica ao lê-los é sempre a mesma, uma certa apetência para continuar, a curiosidade estimulada, mas, simultâneamente, o sentir que falta alguma coisa. Aquilo está obviamente bem feito, laboriosamente construído, mas sente-se-lhe a ausência de alma e o excesso de calculismo. Uma leitura em que a informação é muita, e portanto aprende-se bastante sobre as coisas e as pessoas, mas à qual falta a sinceridade e o entusiasmo que torna determinadas obras marcantes, inesquecíveis. É assim o livro "O Terrorista", o vigésimo tal de John Updike, no que a profissionalismo diz respeito em tudo semelhante ao vibrante "Brasil", ou à esclarecedora e elaborada saga do Coelho.

 

 

Pinto da Costa

 

A visita de Pinto da Costa a Sócrates na prisão de Évora, parecendo enigmática, foi um ato absolutamente paradigmático da inteligência e da sabedoria ao serviço de um objetivo, neste caso o nobre propósito de defender aquilo em que se acredita. Em pessoas como PC nunca uma atitude é inocente, e com esta, de uma penada, algo muito comum entre pessoas deste calibre, ganhou em várias frentes. Ao ser recebido por um exprimeiro ministro naquela situação tão debilitada, emparceirando ao lado de pessoas tão notáveis como Mário Soares ou Guterres, só para mencionar duas delas que terão merecido igual destaque mediático, colocou-se ao seu nível. Depois, tendo ele próprio sido alvo de um processo judicial que semeou dúvidas e maldicência à sua volta, apesar de, tal como agora com Sócrates, haver a sensação que o maior pecado cometido terá sido o de não fazer parte de uma reconhecida maioria protegida, consegue uma espécie de branqueamento desse seu passado supostamente menos recomendável. Finalmente, e não menos importante, dá-se o caso da vítima visitada ser um ilustre benfiquista, não tanto pelas demonstrações públicas de amor ao clube, a sua posição necessáriamente equidistante também não o permitia, mas mais pela repetida assunção da condição de benfiquista, o que traz ao visitante uma aura de bom desportista, de fairplay, a que sem dúvida nem o mais ferrenho dos benfiquistas terá ficado alheio.

 

Paulo Portas

 

Pode-se amar ou odiar mas nunca ficar indiferente ao personagem. É impressionante como ao longo de boa parte do pós 25 de Abril de 74 Paulo Portas, sempre ligado a escassas minorias, teve a arte e o engenho de se manter na crista da onda. Como se tudo tivesse sido meticulosamente previsto, desde o seu aparecimento no "Independente" enquanto exímio escriba, nomeadamente para zurzir sobre os detentores do poder, onde, por um lado, se deu a conhecer a uma elite dominante que logo ali viu a possibilidade de um precioso defensor dos seus interesses, porque um dos seus mas com uma infinita capacidade de dissimulação, e por outro foi conquistando uma certa aura de defensor dos desfavorecidos que tão útil lhe tem sido até hoje e, muito provávelmente, será no futuro. São já vários os casos em que recaíram sobre ele desconfianças relativamente a procedimentos eventualmente ilegais. Não obstante em qualquer deles a evidência gritar o seu maior ou menor envolvimento, a verdade é que sempre se safou! O último destes casos é mesmo de bradar aos céus se se tiver em conta o que se passou na Alemanha com quem vendeu os submarinos, acontece porém que certas castas pairam acima de todas as dúvidas. Mas seria injusto não lhe reconhecer a luminosa inteligência ao serviço de uma carreira de um profissionalismo inigualável.


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semtelhas @ 14:08

Seg, 29/12/14

 

Ía sentado junto à cabine do pequeno avião de dezoito lugares, duas filas com oito pares de cada lado, mais dois encostados à dita, de frente para cada uma das filas, e ainda um atrás, estes últimos três penso destinados à tripulação, apesar de neste caso esta se resumir a uma simpática hospedeira, que mais parecia uma espécie de mãezinha dos passageiros que, mesmo assim, não passavam de uma dúzia. Debruçando-me um pouco para a frente, e porque o piloto deixara a porta do pequeno compartimento aberta, beneficiava de uma visão quase em tudo semelhante à que aquele, a pouco mais de uns dois metros, tinha praticamente encostado ao vidro panorâmico. A toda a sua volta uma panóplia de luzes, botões e alavancas de vários tamanhos, faziam-me refletir na sofisticação daquele aparelho, mas o que realmente me impressionou foi quando o nariz do avião desceu acentuadamente, e pude ver lá ao fundo uma pequeníssima extensão de alcatrão com um conjunto de riscos brancos regularmente interrompidos, mesmo ao meio, e só aquele "aranhiço" habitual nas pistas dos aeroportos que suporta as luzes vermelhas no seu topo para indicar o princípio e o fim desta, me fez perceber ser ali que iríamos aterrar. Como quem conduz uma motoreta, o piloto apontou para aquela mancha negra, e após uns quantos minutos de descida vertiginosa acompanhada de fortes solavancos, que só não nos atiravam ao chão porque íamos literalmente presos aos bancos, para meu espanto para além do cinto de segurança, tal como o da hospedeira que nos observava, todos de olhos arregalados, mantendo uma bonomia completamente desarmante, saíam dois outros de ambos os lados superiores dos bancos, os quais depois de os cruzarmos sobre o peito, os encaixávamos nuns recetores que vira somente ao cumprir essa ordem superior. A pista aproximava-se a um ritmo assustador, mas eis que já muito perto, a pequena aeronave posiciona-se na horizontal, ficamos com a sensação que pára no ar, e pousa suavemente no pequeno tabuleiro negro delimitado de um dos lados por um género de parque de estacionamento, onde se podem observar duas avionetas e um helicóptero, do outro por um minúsculo edifício a fazer de gare, para a frente e para trás uma imensidão de um mar azulíssimo e absolutamente tranquilo, tudo banhado por um sol morno, bem alto naquele fim de manhã de um céu imaculado.

Quando algumas horas antes pousara em Ponta Delgada, observando o movimento surpreendentemente intenso quando comparado com o que ali mesmo vira mais de vinte e cinco anos atrás, percebi que aquilo ainda não era o isolamento que pretendia, a paz e silêncio que procurava desde quando, três dias atrás, depois de deixar Eurico e passando por uma montra de uma agência de viagens, vendo o anúncio "Visite a Madeira e os Açores", encontrei a fuga ideal aos acontecimentos que me oprimiam profundamente. Foi por isso que nem sequer saí para a cidade que via pulsante do outro lado das enormes paredes envidraçadas. Escolhera um pacote de viagens menos de turista e mais de viajante, o que me permitia uma grande liberdade de movimentos ainda que em troca de considerável aumento no custo. Imediatamente segui para a Horta, que também conhecia dessa distante viagem, porque sabia lá encontrar o que precisava, absoluta tranquilidade, temperada pela maravilhosa omnipresença daquele mar, particularmente naquele canal entre o Faial e S. Jorge que Vitorino Nemésio imortalizara em "Mau Tempo No Canal". Também dos espaços verdejantes pejados de pacíficas vacas transmissoras daquele ritmo por que ansiava, lento, vagaroso. Na verdade foi pensando precisamente nessa incrível paisagem de S. Miguel, com as suas lagoas de uma beleza surreal, percorrendo a ilha de lés a lés num carro alugado como fizera então, parando algures enchendo a alma do verde e azul que nos preenche totalmente o olhar, ouvindo o silêncio absoluto, como só no deserto, e sentindo a brisa suave a afagár-nos a pele, que decidira fugir. Mas pela mesma razão que preferira começar pelos Açores em vez da Madeira como era sugerido, que agora optara primeiro pela Horta e deixar para depois Angra e Ponta Delgada.

Sentado na esplanada do Peter, como também aquilo mudara com a moderna marina em frente! E, tanto quanto me lembrava, também o próprio Sport! Constatação que me deixou algo nostálgico, por muito que se procure jamais se encontram as sensações vividas em determinado momento porque todas as circunstâncias, sobretudo a nossa, se alteraram. Podia sempre meter-me na camioneta de carreira que me recordava dava a volta à ilha, mesmo até junto dos Capelinhos onde fora a pé sentir a paisagem lunar, tendo depois que aguardar a próxima, para aí, finalmente, encontrar paz, mas não, estava na hora de parar para pensar e aquele sítio era o ideal. Tinha pela frente quinze dias longe de tudo e de todos, situação para mim normal exceto no que diz respeito à distância física. Não havia informado ninguém da minha ausência, pelo que estava objetivamente sózinho. Quase não resistira ao dissimulado apelo do pai de Luísa para me deslocar ao hospital visitá-la mas, no ultimo momento questionara-me, e depois? Fazê-lo seria ligar-me aquelas pessoas e ao seu futuro. Tudo o que havia acontecido fora demasiado forte, grave, para tentar fazer uma espécie de visita de cortesia, impossível!, Saíria dali sempre comprometido para o futuro. A solução seria passar uma mensagem clara de nada ter a haver com o assunto, mesmo arriscando eventuais consequências. Mas quais? O que podiam fazer? Bem vistas as coisas de facto nada fizera para a precipitação dos acontecimentos, desde o início tinha sido engolido por eles, atraído e preso numa teia diabólicamente tecida, não podia cair na armadilha. Eles sabiam-no. Era imprescíndivel esquecer aquela louca e os não menos desiquilibrados autores do "monstro". Coincidiram uma espécie de primeira sensação de alívio e o fim da primeira cerveja, uma "geometria" que não só não me era alheia como tantas vezes dela me fazia refém, aprisionando-me numa sucessão de jogos mentais, uma dialetica fruto de teses e antiteses, não raras vezes forçadas que resultavam em sínteses falsas. Também desta teia tinha que me libertar sob pena de dentro dos seus labirintos me perder! Mas esse era outro problema, para outra ocasião. Pedi a segunda cerveja e um qualquer acompanhamento para afogar o álcool que começava a sentir dominar-me, não tinha comido nada desde que saíra do continente. Pousou a garrafa em cima da mesa e juntou-lhe um belo artefacto que parecia em cristal, eventualmente numa daquelas misturas com vidro, dois pequenos golfinhos unidos pela barbatana do rabo, cujos corpos serviam para lá meter, neste caso, num tremoços, noutro amendoins. Recordei-me já ter visto aquilo algures e, no mesmo instante, lembrei-me ter sido naquela aparentemente tão remota tarde em casa de Rute, exatamente para o mesmo efeito...


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semtelhas @ 15:54

Sex, 26/12/14

 

Parece que o pai natal foi inventado pela Coca Cola, mas isso não interessa nada, porque a gente tem mesmo é que acreditar em alguma coisa, mesmo aqueles que o negam. Quanto a mim o que sei é que nunca mais a vida foi a mesma depois que nele deixei de acreditar e, o pior, é que nem sequer dei por isso! Naquele dia, após tantos natais à espera das primeiras horas da manhã para ir acima do fogão ver o que me tinha calhado, em que soube que afinal era o meu pai quem tinha feito aquele carrinho de rolamentos, é que para além daquilo ter "a sua marca" eu já tinha visto aqueles pedaços de madeira, e aquelas estranhas peças com bolinhas de chumbo lá no seu pequeno anexo de artífice, nesse dia mudou tudo. Foi desde aquele momento que em mim se instalou a dúvida, e, atrás dela, a descrença que mais tarde haveria de acabar no cinismo.

 

Foi por isso que este ano resolvi voltar a acreditar. Só o consegui porque me foi dada a possibilidade de olhar para as maravilhas que esta época faz, sobretudo um sincero esforço de tolerância que as contas das prendas ainda não conseguiram envenenar por completo, através dos olhos de um bébé que também é meu. Porque estou solidário com aquela pequena criatura, porque ela é credora dessa esperança e do meu empenho em não a defraudar. Observando-a quando dorme o sono dos justos percebo que entregou o seu futuro nas minhas mãos, com absoluta confiança, sem reservas. E estou feliz por me ter sido dada uma nova oportunidade. Já me tinha acontecido, mesmo sem o saber, quando aos oito anos vi o meu pequeno irmão, acabado de nascer, ao lado da minha mãe que me espiava atenta. Depois quando o meu filho pareceu lançar-me um olhar rápido, a primeira vez que o vi, a passar dentro de uma incubadora, sensação tantas vezes repetida depois. 

 

Talvez por isso também me lembrei do meu pai entusiasmado, a meter no frigorífico as garrafas de espumoso, este é do bom, dizia, zelosamente guardadas durante meses especialmente para o dia de natal, um luxo a que achava ter direito, e que muito prazer lhe dava partilhar. E daquele meu cunhado preferido, naquela primeira véspera de natal que passamos juntos, em que entramos numa louca competição a ver quem comia mais frutos secos, devidamente "empurrados" pelo champagne do familiar "de posses" que aquele ano nos recebeu. Como nos divertimos! Também do cuidado e carinho que a minha amiga I. punha na tarefa de separar o artigo das prateleiras destinado a presentes de natal. Tinha que estar tudo impecável porque oferecer deve ser um ato de amor, não uma transação, parecia dizer enquanto ela própria vigiava atentamente a embalagem, que depois me entregava com um sorriso radioso nos olhos. Eu acredito!


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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