semtelhas @ 13:50

Dom, 21/10/12

 

Ou dois livros e um filme, A Infância e a Adolescência, de Tolstoi, Moby Dick, de Melville, e O Gebo e a Sombra, de Oliveira.

 

 

Tolstoi e Oliveira, com estes trabalhos, dão mais uma pincelada na vasta obra na qual são mestres. Melville descreve uma experiência que o eleva a génio da escrita.

 

Recentemente reli estes dois livros em traduções simplificadas, de uma coleção para jovens, e percebi como a primeira leitura que deles tinha feito há longos anos me tinha marcado profundamente. Marcam e ficam para sempre.

 

Autobiográfico, o de Tolstoi, movimenta-se como é habitual neste autor, no campo da psicologia, da ultrasensibilidade. Através de descrições minuciosas dos estados de alma de uma criança pertencente a uma familia russa abastada, da infância ao inicío da juventude, todos nos reconhecemos um pouco naquela criatura. O milagre está no facto de melhor percebermos o quase tudo que temos em comum, exatamente o contrário do que cremos naquelas idades, o que tanto nos atormenta. Também por isso tão precioso se lido cedo.

 

O romance de Melville é em tudo oposto ao de Tolstoi, um feito de sensibilidades e subtilezas, o outro de brutalidade e crueza; onde num se encontra essencialmente crianças e futuro, no outro exclusivamente adultos sem amanhã; dos confins do previsível interior continental, passámos para o insondável alto mar. Obra absolutamente única da literatura universal, só a entendi como tal após esta segunda leitura, talvez porque expurgada de longas e porventura entediantes e, talvez pior, desviantes descrições das especificidades das embarcações e, em si mesma, da pesca da baleia.

Só na figura central do Monte dos Vendavais reconheci personagem com força semelhante(?) à do capitão Ahab. O relato da sua luta sem limites pela captura da baleia assassina, é uma ode completa à coragem, à bravura, à pertinácia, à humanidade naquilo que ela pode ter de mais nobre, mas também de maior insensatez. A eterna luta entre a crueza da verdade e a bondade do razoável manchado pela sombra da mentira, raramente terão sido tão cruelmente trazidos à luz do dia e constituído tão grande dilema.

 

Do filme de Oliveira ficou-me a sensação de este ter encontrado no texto de Raúl Brandão uma espécie de gémeo do pensamento. Das várias adaptações que fez de Agustina, algumas atingem o nível de encaixe que se verifica neste caso, mas há muito que as coisas não saíam com esta harmonia. Os diálogos continuam essenciais mas aqui vai-se muito para além de sibilinas questões. Mexe-se na massa de que é feita a pobreza e questionam-se os porquês. O que vale a pesada pena a suportar? O tempo de uma vida é suficiente para abarcar a vontade, e cumpri-la, de não calcar o semelhante? E o preço a pagar? Vale ou não a tal pena? Perto do fim quase somos levados por um determinado caminho para, no último momento, tudo passar a fazer sentido. Marcante também pela beleza das imagens e pela magistral interpretação de profissionais que sabem tudo sobre a matéria (falta um bocadito ao Trêpa).


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