semtelhas @ 10:20

Ter, 31/07/12

E sábia cultura italiana. Na música, no cinema e também na literatura.

 

Acabada a leitura de, O Barão Trepador, de Italo Calvino, reforço a ideia de como está enraízada nesta cultura o recurso a um aprofundar da reflexão, não raramente recorrendo a épocas mais distantes. É nesse âmbito que se situam alguns dos mais notáveis escritores italianos.

 

Quanto ao já referido Italo Calvino, já conhecia Cidades Invisíveis, onde pelos olhos de Marco Polo, o autor descreve dezenas de cidades para nos dar a sua perspetiva de sobrevivência, para a qual pode muito bem servir como autêntico manual. Deste Barão Trepador reflexões sobre a condição humana recorrendo a uma peculiar figura, que abdica da normal forma de vida para, pelo sacrifício, empenho e inquebrantável força de vontade, dar lições de moral, pessoalmente e do alto, literalmente, do seu palanque, até a, imagine-se, Napoleão Bonaparte. Pelo meio os encantos e os desencantos da liberdade, fraternidade e igualdade da revolução francesa.

 

De Humberto Eco o primeiro contacto com um tipo de escrita da qual foi percursor, o romance histórico por vias mais ou menos esotéricas, seguindo efémeros trilhos , normalmente ligados à religião ou a seitas secretas. O Nome da Rosa e o Pêndulo de Foucault não são de leitura própriamente fácil. Tratam-se de longas e intrincadas estórias que exigem concentração e pertinácia. Com o fim chega a recompensa.

 

Elias Canetti dá-nos em O Auto de Fé uma pormenorizada e bem sensível experiência pelos terríficos corredores da inquisição, da obrigatória destruição de livros,  naquilo que terá sido o seu maior crime, para além da fogueira, destino dos hereges, e da deslocação em massa de algumas populações que, mais tarde viria a provar-se fundamental na história de algumas nações (atente-se no caso do esvaziamento de importância dos povos da peninsula ibérica em favor da Holanda e da Flandres).

 

O Conformista de Alberto Morávia é um passeio pela (quase) sempre aparentemente decadente e cansada(?) sociedade italiana na qual, paulatinamente se vão perdendo os valores sustentáculos da moral e que, efeito comum a outros tempos e de outras formas, levaram ao surgimento do facismo. Sempre presente aquela sensação de que aquela gente já passou por tudo e que resulta numa espécie de indiferença generalizada, onde as mesmas causas que noutros lugares dão em revoluções ali não passam de acontecimentos ligeiros.

 

Para o fim, Se Isto É Um Homem, de Primo Levi. Pungente relato na primeira pessoa  da vivência deste autor italiano de ascendência judaica, em Auschwitz. Arrepiante prova de até onde um ser humano pode chegar em nome da sobrevivência. Documento histórico que tanta utilidade teria se ensinado aos jovens por esse mundo, dito desenvolvido, fora. Talvez aprendessem a valorizar o muito que têm. Impressionante como atualmente na europa, face a situação politico e socioeconómica, está em preparação um caldo de factos que remetem para aquilo que foram as motivações génese do último grande conflito neste continente. O recrudescer de ódios que se julgavam(?) desaparecidos, devidos a consideráveis diferenças no modo de estar das populações. Começa a ser cada vez mais evidente a incapacidade que os povos do norte, liderados pela Alemanha, têm em suportar aquilo que apelidam de boa vida dos do sul à custa deles. Nada pior que os ressentimentos contidos, quando se manifestam chegam pejados de requintes de malvadez. Está aí a prová-lo, o infelizmente cada vez mais decifrável livro de Primo Levi. Por isso devia ser amplamente divulgado. Talvez refrescasse algumas memórias e conduzisse a mudança de politícas. Provávelmente, como sempre, a cura só chegará pela dor.  


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