semtelhas @ 13:53

Sex, 27/07/12

Os Donos de Portugal, é como se intitula um documentário exibido ontem à noite na RTP2.

 

Durante mais ou menos uma hora ficámos a conhecer a meia dúzia de famílias que há muito mais de um século têm o poder em Portugal. Do ponto de vista histórico faltam-me conhecimentos para poder fazer uma avaliação completamente honesta, ainda assim, tendo por base o que ao longo dos anos tenho lido, visto e ouvido sobre esta matéria, permite-me afirmar que o relatado não andará muito longe da verdade.

 

Mellos, Espiríto Santo, Champalimaud, estão na base, este último já resultado daquilo que terá sido o principal segredo para que este dominío dure tanto tempo. Não deixa de ser impressionante como toda esta gente se foi ligando por via de casamentos, fatalmente de conveniência, pelo menos a maioria deles já que seria muita coincidência que o amor com tanto a propósito brotasse. Como se de uma monarquia sempre se tenha tratado os verdadeiros reis de Portugal sempre foram, e continuam a ser, ainda que menos evidentemente fruto da integração na União Europeia, esta mão cheia de barões do poder que com tanta sapiência se têm feito, digamos, cruzar, uns com os outros. Uma imensa árvore genealógica, que permite confirmar como todos têm haver uns com os outros. Pacto desenhado algures entre o céu e o inferno, um limbo onde reina um deus que parece desconhecer a palavra equidade, paulatina e laboriosamente tecido e sistemáticamente consumado.

 

O mais espantoso de tudo isto é que imunes a mais ou menos profundas alterações de índole politica ou militar sempre se têm aguentado. Contra ventos e marés, leia-se revoluções ou integrações, tremem mas não caem. A pertinácia dos sempre em pé que muito bem sabem fazer pela vida. Costuma ser nestas ocasiões que se juntam à trupe novos reforços, provenientes de inovadores formas de trepar, e então lá aparecem os Belmiros e os Amorins, renovadas formas de esperteza.

 

Têm sabido utilizar como ferramenta indispensável para o seu dominío o poder dito legalmente instituído. O documentário demonstra à saciedade a tão sábia quão diabólica dança de cadeiras que esta gente promove entre eles, deixando de fora a quase totalidade dos restantes, sobrando aqui ou ali, normalmente para premiar pragmáticas fidelidades, uma ou outra côdea, que os felizes(?) eleitos orgulhosamente exibem provocando irreprimíveis invejas. Os outros todos? Cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas, como diz o outro, a esfalfármo-nos todos a tentar mostrar serviço uns aos outros, tantas vezes mostrando-nos mutúamente os dentes, manhosamente assorreados por suas excelências que, do alto das suas torres de marfim, sejam elas as faustosas casitas ou os garbosos gabinetes empresariais ou do governo (e como se governam!), nos vão altivamente observando, por vezes até táticamente descendo ao povoado, especialmente em tempo de eleições, mas habitualmente ao longe, afastados de inumeras possibilidades de indesejáveis contágios. É verdadeiramente espantoso um gráfico mostrado, que relaciona algumas destas pessoas com as principais empresas deste exaurido país, parece uma teia de aranha mil vezes mais complexa que as comuns, e na qual pessoas tem caído vitimas e alimento de uns quantos, que com elas pacientemente tem armadilhado a vida a todos os outros.

 

Quanto a mim, já algo veterano nestas matérias, custa-me o tom em que esta peça foi narrado, algures entre a impotência, a revolta contida disfarçada de indiferença e o subliminar sarcasmo e ironia. Nem eles são assim tão simplísticamente ou intrínsecamente maus, nem os restantes tão completamente inocentes. A maioria de nós limita-se a deixar-se andar, seja por incapacidade, inércia ou, também é certo, por não ter nascido em berço de ouro. Os que tiveram essa sorte, pelo menos a maior parte, limitaram-se a dar seguimento ao único estilo de vida que sempre conheceram. Trazer à luz do dia as batotas de Alfredo da Silva ou de Champalimaud, de Belmiro ou de Amorim, pelas quais nunca foram penalizados, protegidos por quem tinham colocado nos poleiros do Estado, ou as tantas indignidades que por estes e por outros, foram e são cometidas sobre os mais fracos é útil e indispensável como diagnóstico mas, mais importante ainda, é encontrar uma terapia. A amargura não é boa conselheira para atingir tão ansiado objetivo.  


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