semtelhas @ 13:29

Seg, 18/06/12

Noémia, Fernanda e Maria da Graça ou, proteção, corpo e intelecto.

 

Podias vir comigo, não passa ninguém na rua, faz-me medo! Aquela seria uma das primeiras ruas alcatroadas de Gaia. Ía desde a escola indústrial até Vilar do Paraíso. Naquele tempo, finais dos sessenta, dois quilómetros práticamente sem habitações em qualquer dos sentidos, automóveis muito raros. Pessoas? Lá vem um. Por isso a Noémia me pedia para a acompanhar no seu regresso a casa. Por isso e, desconfiava eu, por mais qualquer coisa. Lembro um rosto muito branco, uns olhos risonhos e uma trança preta. E também um casaco verde claro, alface. Ou serão as fosfurescências da memória? Primeiras sensações de sentido de missão no proteger.

 

Um ou dois anos depois a Fernanda. Mini saia, coxas roliças, olhar travesso por baixo duma frangita que lhe caía sobre testa do cabelo cortado curto. Uns lábios finos mas sedentos de experimentar os meus e, é verdade! também os do Freitas. Acho que chegámos a andar á porrada. Conquistar a rapariga mais bonita era a principal pena no chapéu do líder. Primeiro beijo digno desse nome, despertar a sério para as surpresas do corpo e da efemeridade das conquistas. Doeu!

 

Terá sido logo no ano seguinte, segundo do ciclo, o primeiro em que senti as exaltações e amarguras do amor. A Maria da Graça foi a responsável. Rapariguinha com um rosto que recordo perfeitamente simétrico onde dominavam uns vivissímos olhos castanho escuro, encimados pelas sobrancelhas bem marcadas, melhor desenhadas, nariz a direito, uns lábios muito perfeitinhos, sempre cerrados que lhe davam aquele aspeto sério, austero e decidido que eram ela, tudo enquadrado no rigor de um penteado à Beatriz Costa. Tal como o primo João Pedro, também da minha turma, vestia sempre uma impecável bata branca. Eram os únicos e, sabíamo-lo, marca de gente de posses da Madalena. Uns "doutores" que viviam numa casa grande. Dispensava-me uma réstia da atenção que lhe sobrava da incansável luta para ser perfeita. Só eu conseguia ombrear com eles nas melhores notas. Suspeito que era por isso, por respeito e, vá lá, alguma admiração, por às vezes eu conseguir superar o géniozinho que era o primo, fonte de todos os seus pesadelos de grande competidora, que se dignava lançar-me olhares furtivos e meios sorrisos. Julgava na altura, e hoje, que era o seu eleito. Vivi absolutamente fascinado por aquela rapariguita muito direita, de movimentos enérgicos, de olhar inteligente, decidido e de uma beleza de pedra preciosa. Nesse ano, pelo natal, mandei-lhe um cartão de boas-festas. Ela respondeu! Apesar de nunca mais a ter visto, continuei a fazê-lo durante vários anos, e ela a (co)responder.

 

Agora me lembro! Ainda antes, pelos meus oito anos? a loirita de olhos negros, celestial! filha de uns ciganos ricos, e que, juntamente com outras crianças ficava à guarda da vizinha da frente, e cuja recordação, agora mesmo, me trouxe uma angustiazita terna. E a Esperança, uma boa meia dúzia de anos mais velha e onde sobressaim umas convexidades que já se metiam comigo e se adivinhavam umas perturbantes e tropicais côncavidades. E...


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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