semtelhas @ 12:11

Sab, 26/05/12

Li algures que o principal drama de África reside no facto  de as potências colonizadoras, numa lógica de partilha, terem traçado as fronteiras entre os países daquele continente a régua e esquadro, dividindo tribos a meio, sem qualquer respeito pela sua vivência. Parece-me que ainda que de uma forma menos grosseira, o mesmo erro foi cometido noutras latitudes provocando problemas semelhantes.

 

Ignorar o fator mais unificador daquilo que constitui uma comunidade, a cultura, no sentido mais amplo do termo, hábitos, crenças, idiossincrasias, em favor de questões politico-económicas, está históricamente provado vir fatalmente a resultar mal. Se em África isso é evidente, também na Europa o efeito nefasto dessas uniões forçadas é fácilmente comprovável. E nem é preciso recuar muito no tempo, basta pensármos naquilo que se tornaram a União Soviética e a Jugoslávia, enquanto uniões forçadas pelas guerras mundiais, e de como não "descansaram" enquanto não voltaram ao que se poderá chamar as suas fronteiras naturais.

 

Vem isto a propósito da crise económico-financeira que o dito mundo ocidental atravessa, e que óbvia e rápidamente se tornou sobretudo social, particularmente na União Europeia.

 

Começo por ressalvar que poucos países terão lucrado tanto com a adesão à União quanto Portugal. Dos cenários traçados daquilo que seria este país caso não o tivéssemos feito, não conheço um único que não seja catastrófico, nomeadamente na questão mais sensível, a moeda. A forma como a união foi pensada fazia sentido, sendo um espaço comum deveria ser da responsabilidade de cada um aquilo em que cada qual era melhor. E assim se fez, não sem dor, mas sem grandes problemas, afinal os mais poderosos mantiveram, por tradição e agora também por doutrina, o poder. Agricultura para um, pescas para o outro, indústria para aquele e tecnologia para o outro. Simplesmente sobraram uns quantos. Os mais pobres, os periféricos. Tudo bem pensou-se, são tão pequenos, representam tão pouco na economia comum ( 2% no caso de Portugal), que a solução é desmantelar aquilo com que só complicam a vida das verdadeiras forças motrizes, dando-lhes pequenas compensações, e depois logo se verá.

 

Não durou muito este idílio. Primeiro porque não se sabia que ía acontecer um 11 de Setembro, que haveria de colocar no poder, em nome da segurança e para evitar a repetição de "erros" cometidos, testas de ferro de enormes grupos económicos globais, nomeadamente nos EUA, que não descansaram enquanto não recuperaram o tempo perdido com Clintons, preocupações sociológicas europeias e afins, para voltar a encher os bolsos. Agora com reforçado empenho, urgência e espirito vingativo. Outra questão menorizada foi o disparar da natureza globalizante da economia e ainda, que se uma pequena economia não faz mossa, meia dúzia delas juntas infetam todos. Finalmente, talvez o mais importante porque profundamente estruturante, a única questão em cima da mesa foi a economia, as finanças. Ou seja, o que verdadeiramente une as pessoas, aquilo que é verdadeiramente a sua identidade, nunca foi ponderada: a questão cultural. Como há mais de um século atrás foi tudo planeado a régua e esquadro.

 

Le monde énervé ©Jenny Brial 

 

Hoje é mais claro para todos que, ainda que demore mais, é sempre preferível convencer as pessoas que vencê-las. Explicando até à exaustão, referendando uma e outra vez, mostrando os objetivos, lá ao fundo, onde vão morar os nossos netos. Num mundo tão globalizado é impossível ter a pretensão de se viver isoladamente, sobre todos os pontos de vista. Faz sentido que as fronteiras caiam, afinal isto tornou-se tão pequeno que seria quase como estar a dividir um galinheiro, ninguém se conseguiria mexer. Mas é possível, mais, indispensável, que se respeite aquilo que são os costumes mais profundos de cada comunidade. Provávelmente esta que à partida seria uma dificuldade, pode até ser um caminho facilitador: por exemplo, não seria mais aceitável uma região norte, ou algarvia, com um estatuto bem definido no sentido de previligiar  e potenciar os beneficíos do que ela tem em comum, numa perspetiva da União e não de Portugal? Só assim se poderá obter de cada uma dessas comunidades e de todas em conjunto, a força e harmonia necessárias para combater os piores de nós.

 

É quase sempre em ambiente de grandes males que surgem os grandes remédios: governadas por uma estrutura comum composta, por exemplo, pela economia, finanças, defesa, e diplomacia que "acabem" os países e vivam as regiões.


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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